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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

15
Jan18

Fatia, que achas desta coisa da SuperNanny - uma opinião delirante de quem está com gripe

Fatia Mor

Ontem, enquanto fazia zapping no auge de uma gripe que me atirou ao tapete (que é como quem diz, ao sofá!), encontrei a Nanny mais famosa de Portugal.

Ainda o programa não tinha começado e já eu lia ou via zunzuns de vozes mais activas nesta coisa dos direitos à protecção da privacidade e intimidade da criança.

Depois da estreia, as redes sociais ondularam mediante o tsunami que se abateu, disparando petições, queixas, comentários, contra, assim-assim, e a favor.

Cada um interpreta de acordo com aquilo que conhece, que acredita, com base na sua educação e nos seus sistemas de valores. Pouco é factual nas explicações encontradas, grande parte são suposições e tenho a certeza que só mesmo os envolvidos poderão descortinar melhor o propósito de se terem exposto desta forma.

 

Então vamos por partes.

 

Para mim, é expor desnecessariamente a criança?

É. Toda a exposição das crianças deve ser evitada, dado que são indivíduos de direito e como tal, não "pertencem" aos seus pais. No entanto, são eles que detêm o direito legal de gerir a sua vida. Portanto, é exposição quando os inscrevem para estes programas, como para outros quaisquer onde a imagem da criança seja utilizada para qualquer fim. Como por exemplo, concursos, passagens de modelos, trabalhos como actores e até blogs, instagrams e facebooks. Tudo é exposição sem o consentimento da criança. Até eu, quando retrato episódios, mesmo resguardados no anonimato, exerço um pouco essa exposição!

 

Pode esta exposição ter consequências negativas para a criança?

Possivelmente. Não podemos dar nada por garantido e, qualquer que seja a exposição, pode ter problemas para a criança. Vejamos o exemplo de muitas das crianças prodígio de Hollywood, por exemplo. No que poderia ser uma exposição que lhes era favorável, não faltaram os casos de sérios problemas de saúde mental, a longo prazo. Aqui, numa exposição que claramente mostra uma criança com comportamentos indesejáveis e que é assim retratada, poderá muito bem vir a ser ostracizada ou vitimizada na escola ou noutros meios.

 

A Nanny esteve bem ou mal?

A Nanny é chamada a intervir e tem um modelo muito específico de acção. A ideia dela é diminuir a frequência de comportamentos indesejáveis, em detrimento de outros desejáveis. Utiliza um sistema token para reforço positivo dos comportamentos que quer ver replicados, bem definidos através de um sistema de regras e horários definidos em conjunto com a família. Além do mais, utiliza o célebre time-out, para permitir à criança modificar o seu estado mental, enquanto espera sentada num banco, em número de minutos equivalente à sua idade.

O método é claramente de curto-prazo porque não se preocupa em compreender a origem dos sintomas do comportamento indesejável.

Vejamos os seguintes exemplos:

1. A criança faz birras mas os pais aceitam as birras por considerarem que fazem parte da sua (in)capacidade de expressão das suas emoções e estados mentais. Como tal, não consideram o comportamento desajustado, não sentindo necessidade de intervir.

2. A criança faz birras o que desespera os progenitores, por considerarem que é um comportamento indesejável e que expressa a vontade da criança contrariar os desejos dos adultos, apesar de estes serem para o seu bem-estar.

 

No primeiro caso, este tipo de sistema não faz sentido. A própria abordagem dos pais é que dita a indesejabilidade do comportamento. No segundo, talvez faça.

Em algum dos casos os pais estão errados? Não. Cada um gere a educação dos seus filhos da forma que acha mais adequada ao seu sistema de valores educativos e, desde que não prejudique os seus filhos, então ambas as visões são plausíveis. 

 

O método humilha a criança?

A criança está numa situação de fragilidade e de vulnerabilidade. Parece-me, na minha opinião que, o que poderá humilhar a criança é a exposição da situação por si, mais do que a utilização de um método de reforço positivo/negativo para a extinção de um comportamento que se considera um problema.

 

A mãe também tem problemas?

Certamente. Não temos todos? Há alguém que se possa considerar uma mãe ou um pai perfeito? Eu tenho dias em que me pergunto o que ando aqui a fazer, se estou a conseguir educar os meus filhos para serem boas pessoas, generosas, compreensivas. Mas nem sempre sei se estou a acertar. E vou tentando diversas estratégias, umas mais acertadas do que outras. A diferença? Ninguém vê. Com esta mãe, vimos tudo. E não tardamos a julgar.

 

Feitas as contas, este método vai resultar?

Como qualquer método destes, vai resultar sumariamente e a curto prazo. Com o crescimento da criança, encontraremos outros pontos de fricção e de testagem de limites, que irão necessitar de excelentes linhas de comunicação entre pais e filhos para poderem ser superados. 

O programa intervém a muitíssimo curto-prazo, num show off de uma acção que pode ter efeitos pelo mero efeito de exposição à observação, entre muitos outros enviesamentos que possam existir pelo formato em que é realizado. 

É um programa de televisão, um reality-show, com todos os predicados que podemos dedicar a este tipo de conteúdos.

Se a família continuar a encontrar problemas no comportamento da criança, entendendo-os como tal e sentindo-se incapaz para lidar com eles, terá então que procurar ajudar especilizada que passará por métodos diferentes destes, com efeitos a longo prazo mais do que instantâneos.

 

E a minha opinião pessoal sobre o caso?

A criança é perfeitamente normal, ajustada aos seus 7 anos, com comportamentos típicos de uma criança dessa idade que começa a querer demarcar o seu espaço. Não conheço muito mais e não me pronuncio muito mais.

 

E sobre os comentários?

Várias coisas.

1. Não é por "ter sido assim no meu tempo" que as coisas devem ficar como estavam. No tempo em que a minha avó era criança não havia televisão e olhem, agora toda a gente tem uma.

2. A psicologia não criou os traumas. Sempre houve e sempre haverá crianças e adultos traumatizados. A psicologia, tal como outras ciências só veio identificar o problema e encontrar-lhe uma solução. Vejam bem, antes morria-se e não se sabia do que era. Agora a medicina já consegue identificar os agentes patogénicos, procurar curas e evitar as mortes. Pois, mas estou-me a esquecer que quando se fala de saúde física a coisa tem outra figura. Quando é uma depressão, "é só uma depressão"... Bom, a psicologia não criou os traumas, não diz que as crianças não devam ser frustradas, contrariadas ou que se devam sobrepor aos seus pais.  

 

E pronto, acho que não tenho mais nada a acrescentar.

 

Espero que consigam destrinçar claramente o aspecto do reality-show (com o qual não concordo) com a utilização de métodos claramente comportamentalistas (a curto-prazo) para resolver um problema identificado pela família e que encontrou, nesta forma, uma maneira de pedir ajuda.

 

Não nos esqueçamos que no fundo, depois desta polémica toda, eles continuam a precisar da ajuda, de compreensão e de empatia. 

 

08
Jan18

Sermos gratos e não desconfiados

Fatia Mor

Lá diz o ditado popular que quando a esmola é demais, o santo desconfia.

 

Não sei bem se os santos estão em posição de desconfiar do que quer que seja, nos dias que correm que me parecem ser de crise no ramo religioso, mas eu sinto-me uma eterna desconfiada da vida.

Sou uma optimista-com-um-bracinho-a-atirar-para-o-pessimismo! O que quero dizer com isto? Quando tudo corre mal tendo a ter uma visão prática, orientada para a solução, sem me deter muito tempo nos aspectos negativos do que estou a viver. E confesso, com alguma rapidez que até a mim me deixa desconfortável, enfio tudo para trás das costas, afasto os pensamentos menos bons e sigo em frente, esquecida do que passou. Posso deitar-me durante uns segundos ao desespero, mas refaço-me depressa.

 

Mas quando tudo está calmo ando sempre a olhar por cima do ombro. É como se sentisse que, mediante a tragédia das vidas humanas que há à minha volta (e no resto do mundo), acreditar que sou uma bafejada pela coerência, pela calma e pela estabilidade, seja demasiado para o aceitar pacificamente. No fundo, sinto sempre que tudo o que acontece aos outros podia, a qualquer instante, estar a acontecer-me a mim. 

Não sei se é a desvalorização de alguns aspectos menos bons da minha vida - que simplesmente não encaro de forma negativa - ou se se deve apenas à minha capacidade de achar que as coisas boas que me acontecem são fruto do meu esforço e do meu empenho e, portanto, acreditar que consigo sempre dar a volta a tudo... Não sei. Mas também sei que tenho um pensamento mágico que me acompanha sempre de que a sorte existe e está cá para nos trazer coisas boas, que nem sempre dependi do meu esforço, ou sequer da minha capacidade de prever as consequências dos meus passos. Aos 35 (e meio) acho que sou mais inconsciente e pouco elaborada nos planos que faço, do que aquilo que gostaria de acreditar.

Sei que trabalhei muito para ter o que tenho, mas acho que há também quem trabalhe o dobro e não tenha sequer metade. E por vezes, o sentimento de culpa atormenta-me e faz-me perguntar se sou merecedora de tudo o que tenho.

É aí que olho por cima do ombro; procuro, por todo lado, indicadores que me digam que alguma coisa não está bem; que há-de vir por aí uma montanha enorme de sofrimento que irá pôr à prova a minha capacidade de resiliar, irá testar a minha fé nos homens e me trará à pedra todos os meus valores religiosos, vendo de que fibra são feitos.

Espero, francamente, que esse dia nunca chegue. Que a minha auto-análise, a minha transformação, seja sempre suficiente e necessária para me colocar no lado dos felizes da vida. No entanto, não sei se será. E mesmo tendo fé, nem sempre a fé me chega. Talvez não chegue, talvez não seja tão grande como eu gostaria. Para já, sou grata por tudo o que tenho. Mas não consigo deixar de andar sempre meio desconfiada da vida... 

20
Dez17

Dúvidas fundamentais da existência humana

Fatia Mor

Há questões que aparecem na minha mente e que dificilmente as abandono.

 

Por que há vida na terra?

De onde vimos?

Para onde vamos?

Como foram construídas as pirâmides do Egipto?

É o universo infinito?

 

Não, não é nenhuma dessas...

A verdadeira questão que me assombra é...

 

Como é que raio sai tanto cocó de um ser tão pequeno?

 

Alguma alma caridosa me explica o milagre?

12
Dez17

A ilusão do crescimento

Fatia Mor

Durante muitos anos da minha vida senti que crescer era uma ilusão. Apesar das dores de crescimento serem muito mais psicológicas do que físicas, o crescer era uma ilusão. 

A passagem pelo espelho da vida, que nos retorna uma imagem duradoura de quem somos, era para mim um vislumbre semelhante. Certamente, terei mudado entre as fases de criança, adolescente e adulta. Mas há uma mesclagem ilusória. A criança habitava na adolescente, que por sua vez se vestia de adulta. Ensaiei-me assim, numa ilusão. 

Mas sinto que nos últimos dois anos tudo mudou. Há algo em mim que mudou, que alterou a superfície do espelho e por mais que eu procure, só vejo a adulta. 

Sinto-a colada a mim, nas teias dos problemas que monto à noite, quando o sono teima em chegar. Nos receios pelos que amamos, apesar de me fazer de forte. Carrego em mim as dúvidas sobre o mundo, sobre a natureza do homem, sobre o seu destino. Coloco em causa os sistemas de valores, sem saber se da fissura que lhes encontro sairá um novo mundo. Talvez com a adulta que há em mim, tenha chegado uma crise de fé. 

Essa fé que sempre foi natural em mim, coloca-me agora desafios diferentes. É como sentir que deixei de acreditar no pai natal, não porque ele (não) exista, mas simplesmente porque eu deixei de ter fé na sua capacidade imensa de me deixar feliz. Procuro uma fé mais madura em mim, a cada passo, mas até essa dá mais trabalho, do que a fé natural que habita(va) em mim.

E hoje, enquanto pensava em tudo isto, tive uma epifania. Deixei de crescer. Estou a envelhecer. 

As dores nas costas, os dedos inchados por causa do frio, as digestões mais longas, tudo me lembra que um dia este corpo deixará de funcionar. A sensação (ilusória, lá está) de que o mundo jamais me vencerá, desapareceu. O medo alcançou-me e enfraqueceu-me. E mesmo que me queira esconder debaixo de uma manta, para ignorar o que me ameaça, não consigo fazê-lo. Acho que já não há mantas que tapem todos os receios.

Estou a envelhecer. Deixei de crescer. Acho que acabou a ilusão.

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