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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

04
Set18

A crescer

Fatia Mor

Os dentes caem-lhe deixando buracos que rapidamente são preenchidos por outros dentes, maiores e mais resistentes. Cresceu e aumentou o peso durante as férias, deixando as calças "a regar", os calções demasiado curtos e as t-shirts vestidas com ar de quem já não cabe bem lá dentro. Quando dou por mim, emite opiniões, tem interesses e aparenta já ter os seus próprios fantasmas e ansiedades. 

A escola está ao virar da esquina e já consegue dizer o que sente quando pensa nisso. Está a crescer a olhos vistos e isso faz-me ver que o sentido da vida é todo o mesmo. Menina agora, mas essa ideia está para partir e em breve não tenho mais uma criança em casa, mas sim, um protótipo de mulher. Sei que ainda leva alguns anos nesse lume brando, mas ultimamente, a infantilidade parece estar a desaparecer.

Percebe subtilezas no discurso e usa-as também. Disfarça, enfatiza, mostra enfado para rir em seguida por estar a ludibriar-nos com sucesso. Percebo agora a resistência de todos os adultos em aceitar que somos seres independentes. Que crescemos. É bom acalentar a ideia de que seremos sempre o seu norte, mas a verdade é que este será apenas a referência para partir para outros rumos.

Por muito que esforce, ela é ela mesma e a isso nunca poderei fugir. Não é minha, não é um prolongamento meu e o meu raio de influência começa a fechar-se com a passagem dos dias.

Agarro-me com força ao mais pequeno, que ainda me trepa pelas pernas quando chego a casa e à do meio que ainda procura o meu colo. Cabem todos, mas lentamente, a menina mais velha começa a ceder o seu espaço para conquistar a sua independência.

Sei que ainda falta... mas a verdade é que ainda ontem faltava muito tempo para começar o seu percurso na escolaridade obrigatória e olhem, é já daqui a uns dias. Deixem-me preparar para o que aí vem...

 

16
Ago18

Veia musical do Fatia#3

Fatia Mor

Qual a música que o meu filho ouve, em modo repeat?

Sou uma taça, do Panda e dos Caricas?

Doidas andam as galinhas?

O Manel tem uma bola?

 

Podia ser qualquer uma dessas mas não... atentem aí...

 

A sério... Já não se aguenta. E ele pede, constantemente, o "páti"...

Tirem-me deste filme. 

 

Volta Xana Toc Toc, estás perdoada!

 

31
Jul18

6 anos

Fatia Mor

Há uma vida antes de ser mãe e depois de ser mãe.

Em verdade, a vida não se altera.

Não é mais difícil, os problemas não são mais problemáticos, não tem mais valências, nem tem mais valor.

 

 

Mas nós mudamos. 

 

O nascimento de um filho muda-nos avassaladoramente, quer queiramos, quer não. Podemos resistir à mudança, contrariá-la, mas havendo consciência do nascimento de um ser que é uma continuidade biológica nossa, há como que uma divisão do nosso ser.

Isso não faz de nós especiais. Pelo contrário. Faz de nós devedores à vida. 

A partir desse momento, todas as nossas acções serão escrutinadas, escrupulosamente, como um padrão a ser replicado, mostrando-nos (de amiúde, com desagrado) como somos incoerentes, inconsistentes, imperfeitos, inacabados.

A maternidade constitui-se de uma forma de nos aperfeiçoarmos num momento da nossa vida em que já achávamos que nos tínhamos conquistado internamente. Talvez faça de nós melhores pessoas, não sei. Só sei que fez de mim alguém mais consciente. 

 

Faz amanhã, seis anos que mudei.

 

Há seis que nasceu a minha primeira filha. Recordo com alguma nebulosidade o nascimento, toldada pelas drogas e pelas hormonas, mas tenho impresso em mim, nas fibras da alma, os primeiros momentos em que entramos em casa. 

A realidade tinha mudado. Tudo me parecia diferente, apesar de reconhecer cada parte daquelas paredes, daqueles móveis como sendo os mesmos que lá estavam, quando saíra para a maternidade uns dias antes. O sentimento de "fora de lugar", de desajuste era enorme! 

Foi um processo de ajuste, de nascimento para ela e para mim, de voltar a encontrar-me dentro de tudo o que estava a viver.

 

Há seis anos que celebro essa mudança ao mesmo tempo que celebro mais um aniversário. E têm sido uns 6 anos bem animados!

 

Amanhã estamos de parabéns e é dia de festa! 

 

Nota da autora: estará a fazer, por esta hora (15h30), 6 anos que dei entrada no hospital, em trabalho de parto. Lá para as duas da manhã, nasceu a Fatia#1.

 

Nota da autora sobre a nota da autora: sempre quis fazer uma nota da autora! 

 

 

 

 

 

27
Jun18

Terapia de grupo #3

Fatia Mor

Olá! Eu sou a FatiaMor e sou mãe de uma Diva!

 

(Olá FatiaMor, responderão vocês cheios de compaixão)

 

A Fatia#1 nasceu sob o signo de Leão.

(disclamer já aqui... não ligo muito a signos, acho uma intersecção astral demasiado complexa para que corresponda com rigor para todo o indivíduo que habita este planeta. Mesmo perante cartas astrais. Mesmo que me digam que se trata de potenciais e não de rigor determinístico. Mesmo que me invoquem os trânsitos... Enfim... Não penso muito nisso)

Não sei se é disso, mas confere nas características de diva que lhes associamos, sem falar na ordem muito própria pela qual gere tudo à sua volta, que só poderá ser explicada pela física quântica (e mesmo assim, acho que descobrem primeiro a teoria do tudo, antes que a teoria do caos da vida da Fatia#1).

 

No dia da festa de fim-de-ano, aproxima-se um menino e diz-lhe:

- Gosto de ti (e meteu-lhe o nome da minha filha, muito mal amanhado).

(disclaimer dois: a miúda não tem um nome complicado e é bastante tradicional, mas tende a gerar confusão nos putos!)

Vejo-a virar-se para mim, quase congelada, tal como o cubo de gelo que lhe deve ter nascido naquele momento no coração.

- Então filha, o menino está a falar contigo! Não é bonito ignorarmos as pessoas.

Continua em gelo. E o puto, bem instruído, não desiste...

- Gosto de ti. Não gostas de mim (mais uma vez o nome mal amanhado)?

 

A Fatia#1 vira-lhe as costas e continua no seu percurso, cabeça altiva e passo acelerado.

- Oh filha, então? - digo-lhe eu, claramente deixada para trás a garantir ao menino que ela também deve gostar dele, como devemos gostar de todos os meninos, amizades, arco-íris e lálálá.

 

Quando a apanho, pergunto-lhe, ao que me responde, já lágrimas a brotarem-lhe dos olhos, biquinho e tudo:

- Eu não gosto dele! Estou farta dele! E é por causa disso que não quero vir à escola! Nunca mais!

 

Ora bem, tive vontade de voltar para trás e desancar o miúdo apaixonado, por todos os azedumes que o seu inoportuno amor me tinha causado, ao longo de todas as manhãs, neste ano lectivo. Não o fiz, por respeito à minha pequena imagem a sofrer de coração partido, por causa de alguns meninos menos bondosos.

Deixei-o entregue à sua desolação momentânea, que foi curar a jogar à bola, com mais miúdos.

 

Quanto à minha pequena diva, mostrou-me o seu andar confiante para se pôr a andar de uma conversa demorar sobre respeitar os sentimentos dos outros. E já no carro, disse-me:

- Mãe, não vamos falar mais do que aconteceu, porque já me estou a enervar novamente!

A enervar.

Novamente.

Sua excelência sofre dos nervos.

 

E eu, sofro do quê!??

 

#comcincojácomquinze

#divadecincoanos

25
Jun18

Tipos de mães nas festas de fim-de-ano

Fatia Mor

É, por demais, conhecido o meu gosto por festas de fim-de-ano. Não tenho nada contra crianças, não tenho nada contra festas, não tenho nada contra os fins dos anos escolares, mas metam tudo junto na mesma frase e eu começo a ficar nervosa!

Quinta-feira passada lá fui eu, mãe dedicada da minha cria mais velha, assistir aos bailados, aos teatros e às canções que eles levam a cabo ao longo de algumas (dolorosas) horas.

Desta feita, mantive os olhos atentos (enquanto fotografava a festa a pedido da avó fatias-barra-educadora lá na escola) ao que se passava à minha volta. 

Pois bem, meus amigos, apresento-vos, com rufar de tambores, com fogo de artifício, com lágrimas nos olhos... 

Os tipos de mães nas festas de fim-de-ano!

(oiço as vossas palmas e agradeço)

 

Mãe em cima do acontecimento - esta mãe chega antes da hora, com sacos de coisas que podem fazer falta, a fazer entourage, a apoiar crianças, auxiliares, técnicos e educadoras. Sabe a ordem da festa, sabe as letras das músicas, sabe as falas dos teatros, e sabe também como pôr aquilo tudo a mexer. Por vezes, esta mãe partilha atributos com a mãe chorona!

 

Mãe chorona - é a mãe que chora por dois motivos: tudo e nada. Chora porque os meninos cantam bem, chora porque se enganaram na letra. Chora quando alguma criança se emociona. Emociona-se com as despedidas, mesmo que o seu filho volte no dia seguinte e nos próximos anos, porque ainda não vai transitar para o primeiro ciclo. Vem munida de lenços de papel e óculos escuros para disfarçar os olhos inchados e o nariz vermelho, que já traz de casa, por antecipação.

 

Mãe relógio - é a mãe que vive constrangida pelos horários. Por norma trabalha mais de 10h por dia, chega atrasada a festa por constrangimentos do trabalho e tem que sair mais cedo. Percebe-se que está dividida entre estar presente na festa e o estar ausente do trabalho. A preocupação é visível nos seus olhos e tende a partilhar alguns aspectos com a mãe chorona.

 

Mãe convívio - para esta mãe uma festa é "uma festa", senão até, "a" festa! Por isso, arranja-se com o seu melhor vestido, coloca os seus melhores saltos, maquilhagem caprichada e chega a desfilar, qual rainha de Inglaterra. Distribui beijinhos, conhece toda a gente, fala animadamente com outras mães convívio e aproveita para pôr em a escrita em dia! Tenta disfarçar o choro, encostando um lenço ao canto do olho.

 

Mãe socialnetwork - diferencia-se da mãe convívio no veículo da sua interacção. Chega de telemóvel/tablet/máquina fotográfica em riste, a disparar para todo o lado, a actualizar instagram com a hashtag #festadaescola, a colocar entradas no face, a fazer directos para o mundo, sempre a garantir que meio mundo (e outro meio) percebem que o seu filho vai para o primeiro ciclo. Partilha, muitas vezes, características com a mãe em cima do acontecimento e a mãe chorona.

 

Mãe perdida - esta mãe não sabe bem como se mover no meio da festa, nem das outras mães. Sem jeito para este tipo de actividades sociais escolares, senta-se várias vezes nas cadeiras até escolher um lugar em pé, onde passa mais desapercebida. Não conhece o nome das crianças, não faz ideia quem é a auxiliar da sala do seu filho, e descobre pelo meio que deveria ter trazido um doce ou um salgado para a festa que se segue. Por norma, é concomitante com a mãe chorona.

 

Eu cá, tenho um tipo de mãe bem determinado (#perdidaforever). E vocês?

 

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (https://www.flaticon.com/).