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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

14
Nov18

As manhãs, senhores, as manhãs

Fatia Mor

Não sei como é em vossa casa, mas ainda sei como era na minha. Uma tranquilidade que só visto. Acordava com o despertador, levanta-me calmamente, tomava banho, despachava-me e, com sorte, ainda tinha tempo para despachar qualquer coisa do dia em casa.

 

Agora? Levanto-me antes do despertador tocar porque há sempre um que chama ali naquela primeira hora do raiar do sol, em que ainda podíamos estar todos a dormir. Se não sou eu a pôr o pé fora da cama (verdade seja dita, normalmente a mola do Fatiasman é mais rápida que a minha), são eles que vêm ter connosco, a pedir os bonecos que se esqueceram sabe-deus-onde! 

 

Se depressa se levantam por isso, lentamente se dirigem para a casa-de-banho. É que aguentar o xixi é desporto olímpico de gabarito e lá em casa tenho duas campeãs in the making. Depois de dizer 3 vezes que é para irem à casa-de-banho e de puxar pela minha voz em decibéis capazes de acordar a vizinhança, mais umas 4 vezes, uma delas volta para a cama para fazer que está a dormir, o Fatia#3 sobe-me pelas pernas a pedir-me colo e a outra, talvez, lá vá fazer o que tem a fazer.

 

Depois, é o processo do pequeno almoço que, claramente, é um processo de eliminação de hipóteses:

- Querem leite?

- Não.

- Querem pão?

- Não.

- Querem cereais?

- Não.

- Querem levar uma galheta?

- Pode ser torrada com iogurte.

 

A seguir, com sorte, estando os dois em casa, um de nós consegue aparecer de banho tomado e vestido, para dar seguimento à loucura do "não quero essas calças", "quero aqueles sapatos" (não pode ser...gritos, choro e birra por 2 segundos), "não gosto de botões", "quero aquela bandolete!", "eu é que quero aquela bandolete". 

O outro consegue, eventualmente, aparecer despachados nos entretantos, a tempo de pentear cabelos, lavar dentes e colocar o repelente dos piolhos.

 

Saímos de casa, cada um para levar a sua Fatia à escola.

Eis que me lembro, então, que no meio disto tudo (escolha uma ou mais hipóteses):

a) o telemóvel ficou perdido em parte incerta

b) esqueci-me dos óculos na mesa de cabeceira

c) ninguém trocou a fralda ao miúdo

d) não tomei o pequeno-almoço

e) esqueci-me de tirar alguma coisa para o almoço ou jantar...

 

18
Out18

Da educação do beijinho...

Fatia Mor

Lia, no outro dia, uma sábia frase de uma amiga minha que dizia, em essência, que nunca como hoje se falou tanto (e publicou tanto) sobre parentalidade e, cada vez mais, os pais estão completamente perdidos na sua tarefa.

Nem de propósito lia, algures (estou um must com as referências, hoje), que nunca os pais manifestaram tanta ansiedade, tendo como fonte a educação dos seus pimpolhos.

E sem demoras, pimbas! O beijinho bateu à porta e trouxe atrás de si todas as violências cometidas com as crianças, como a palmada, a diminuição do seu estatuto, e outras questões adjacentes.

Não sou crítica nem defensora acérrima de nenhuma das posições, mas sou forçada a concordar que há um circo gerado em torno do conceito de educação e estamos todos a pagar um bilhete bem caro para assistir ao espectáculo, de lugar cativo na primeira fila.

Deixem-me já dizer-vos que acho os circos um espectáculo deprimente, de uma forma em geral, e este também o é, em particular e passo a enumerar algumas razões desta minha avaliação:

 

1. Considero que a grande generalidade dos pais (excepção feita a quem possa não ser íntegro ou saudável o suficiente) querem educar os seus filhos para sejam pessoas válidas em sociedade: respeitem o próximo, consigam manifestamente relacionar-se com outros indivíduos e consigam realizar contributos válidos através da sua acção no mundo.

 

2. Educar custa. Custa a quem educa, porque é obrigado a escolher a melhor estratégia para o pequeno ser vivo que amadamente cuida; custa a quem vê os seus instintos e vontades saneados pela dura mão dos pais.

 

3. Não há um caminho correto para a educação e, por vezes, esta pode parecer um mundo de contínuos ambivalentes, fortemente polarizados e interdependentes. Operacionalizemos isto pela questão do cumprimento obrigatório.

 

Todos queremos que os nossos filhos sejam sociáveis. A sociabilidade é, aliás, umas das principais categorias que utilizamos para avaliar os outros e o grupo social ensina-nos que é uma característica altamente valorizada. Nesse campo, do cumprimento, fortemente ditado pelas regras sociais (diria que esta discussão talvez não existisse na Namíbia), implica que nos cumprimentemos de acordo com a hierarquia de proximidade social de forma que pode ir de um simples aceno de cabeça, a uma pequena frase "olá, como está", à expressão da intimidade "um beijinho para aqui, um beijinho para ali".

 

Durante anos, socializamos as crianças a cumprimentarem toda a gente com um beijinho, nomeadamente, elementos familiares e amigos chegados como forma de valorização da sua proximidade e intimidade. 

 

Muitas crianças não gostam. Mostram profundo desagrado em fazê-lo. Há pais que obrigam a que cumprimentem o outro, porque o consideram uma expressão de boa educação social. Outros consideram que não vale a pena fazê-lo. Sou do primeiro grupo, na primeira tentativa, sou do segundo assim que vejo que não há vontade. Não adianta tentar obrigá-los a cumprimentar alguém, se não querem. Sugiro, porque considero um comportamento adequado, mas não obrigo quando assim o manifestam.

 

No entanto, e muitas vezes é assim, não querem, não porque não pretendam beijar alguém, mas simplesmente porque estão a tentar desafiar a imposição da regra social. Não querem falar, não querem cumprimentar. Aí, exerço a minha função de pai/mãe e sou capaz de sujeitar a criança à "violência" de cumprimentar o outro, mostrando-lhe a necessidade de sermos cordiais e respeitadores com alguém que demonstra interesse em nós. A reciprocidade é um ato compreensivo do outro no mundo e a responsividade é algo que será necessário aos processos de empatia futura. 

 

Portanto, acho que não podemos considerar que haja uma diminuição da vontade da criança, uma diminuição dos seus direitos, se lhe dissermos que tem mesmo que cumprimentar uma avó, por exemplo. Até porque parece que perdemos a capacidade de ver as coisas pela medida inversa... Será que devemos nós diminuir as nossas responsabilidades de educar alguém para que os seus pretensos direitos não sejam afectados? Não é o direito à educação, um direito fundamental da criança? Então, como é que eu exerço um sem exercer o outro? 

 

Dirão que poderei falar com a criança sobre a necessidade de cumprimentar os outros. Sim, é verdade. Mas nem sempre o método expositivo é o que granjeia melhores resultados na aprendizagem, formal e informal, pelo que poderá ser necessário demonstrar ou agir de maneira a mostrar claramente barreiras e limites. 

 

Além disso, cabe-me nesta exposição, extrapolar para outra dimensão de extrema importância para a compreensão do outro. Chama-se inteligência e parece ser algo extremamente valorizado no mundo social, já que cedo aprendemos que as pessoas com mais recursos intelectuais tendem a ser aquelas que mais recursos conseguem desenvolver noutras áreas (independentemente deste pensamento ser falacioso e uma heurística, subsiste). Ora bem, uma das ferramentas desenhadas para o aumento da perspectiva intelectual é a escola. 

 

Agora, surge-me a questão... É uma violência obrigar a criança a ir à escola se ela não quer? Então, não estarei a diminuir o seu estatuto à metade por exigir que vá, quando muitas lhe resistem inicialmente? Tento aplicar a mesma medida e não consigo entender a lógica. 

 

Mas percebo porque andamos todos tão confusos... Porque para a coerência perdeu-se no meio de tanto pensamento, de tanto imiscuir, de tanta análise pseudo-social-psicológico (onde me enquadro, sozinha e de bom grado).

 

Porque, no que toca à educação dos nossos filhos, ainda deveria imperar o bom senso... Algo que parece que se está a perder a olhos vistos. 

30
Set18

Tenho uma associação secreta cá em casa e não sabia

Fatia Mor

Estou na cozinha, a acabar de tomar o pequeno-almoço e oiço a Fatia#1 gritar "Diamante".

Como elas andam sempre com ideias malucas, não ligo por aí além.

Vou eu a dirigir-me ao quarto, para arrumar as camas, e vejo a Fatia#2 parar em frente à porta do quarto delas e gritar "Diamante". A seguir abre a porta e começa a falar, naturalmente, com a irmã.

A esta altura já estou intrigada. A meio, bato à porta e questiono (a medo): "Oh meninas, porque é que gritam diamante no corredor?"

"É a nossa palavra passe para a porta destrancar!"

 

Óbvio, como é que eu não pensei nisso...

 

 

24
Set18

Vitinho à la Fatia#3

Fatia Mor

Pego-lhe ao colo e digo-lhe que são horas de ir dormir. O refilanço começa logo, com ele a dizer "não, não". Um não muito redondo, que reforça com um abanar da cabeça, para a esquerda e para a direita. "Tem que ser, são horas de ir dormir". E começa o rol das perguntas, que soam a algo como isto:

Fatia#3: Uuuuu páaaaaiiiiii? (o pai?)

FatiaMor: Não está!

F#3: Aaaaaa Báááááá? (a Fatia#1)

FatiaMor: Está na sala.

F#3: Aaaaaa T'tiiiiisssss (a Fatia#2)

FatiaMor: Está com a Fatia#1.

F#3: Nuuuumm qué. (Não quer)

FatiaMor: Vamos cantar?

 

Então, na ideia de umas músicas de embalar, especialmente o Vitinho, encosta a cabeça ao meu ombro, enquanto chucha no dedo.

Começo a cantar e eis que ele começa... (segue-se a expressão do mais próximo que eu consigo perceber que ele diz)

nhánhahora

nhacamiiii

vamuusssmiiir

que à fóooaaa

axesteuas

dooooomeaiiiiirrrr

e há cheinho

bem cheinho

váaaavêê

acoaaasss mas ote

peto é chescer

nooooteeee

ateeee manhãaaaa

 

Digam lá, se ele não sabe a letra toda!? 

E é nestes momentos que eu sei que estas coisas pequenas que eu tenho aqui para casa são a melhor coisa do mundo!

04
Set18

A crescer

Fatia Mor

Os dentes caem-lhe deixando buracos que rapidamente são preenchidos por outros dentes, maiores e mais resistentes. Cresceu e aumentou o peso durante as férias, deixando as calças "a regar", os calções demasiado curtos e as t-shirts vestidas com ar de quem já não cabe bem lá dentro. Quando dou por mim, emite opiniões, tem interesses e aparenta já ter os seus próprios fantasmas e ansiedades. 

A escola está ao virar da esquina e já consegue dizer o que sente quando pensa nisso. Está a crescer a olhos vistos e isso faz-me ver que o sentido da vida é todo o mesmo. Menina agora, mas essa ideia está para partir e em breve não tenho mais uma criança em casa, mas sim, um protótipo de mulher. Sei que ainda leva alguns anos nesse lume brando, mas ultimamente, a infantilidade parece estar a desaparecer.

Percebe subtilezas no discurso e usa-as também. Disfarça, enfatiza, mostra enfado para rir em seguida por estar a ludibriar-nos com sucesso. Percebo agora a resistência de todos os adultos em aceitar que somos seres independentes. Que crescemos. É bom acalentar a ideia de que seremos sempre o seu norte, mas a verdade é que este será apenas a referência para partir para outros rumos.

Por muito que esforce, ela é ela mesma e a isso nunca poderei fugir. Não é minha, não é um prolongamento meu e o meu raio de influência começa a fechar-se com a passagem dos dias.

Agarro-me com força ao mais pequeno, que ainda me trepa pelas pernas quando chego a casa e à do meio que ainda procura o meu colo. Cabem todos, mas lentamente, a menina mais velha começa a ceder o seu espaço para conquistar a sua independência.

Sei que ainda falta... mas a verdade é que ainda ontem faltava muito tempo para começar o seu percurso na escolaridade obrigatória e olhem, é já daqui a uns dias. Deixem-me preparar para o que aí vem...

 

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (https://www.flaticon.com/).