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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

05
Fev19

Óoooh mãeeeee!

Fatia Mor

Há qualquer coisa de místico no gritar Óooooh Mãeeeee. Diria, até, que eles vêm equipados com essa habilidade. Parece transversal a todas as culturas. E a todas as idades. Posso estar a 10 milhas ou mesmo ao lado deles, que o empenho com que gritam Óoooh Mãeeee é o mesmo. Pode ser um pequeno som que se prolonga no contínuo espaço-tempo, ou a articulação perfeita dos sons... Ele está lá.

 

Vejamos exemplos práticos da situação em que o Óoooh Mãeeee se aplica.

1. Criança na casa de banho. Acabou de fazer cocó ou xixi.

Óoooh Mãeeee, jáaaaaa estáaaaaa!

Este obriga a acção imediata, sob pena de... bem... enfim... Fiquemo-nos por "necessita de acção imediata".

 

2. Estou ao lado deles. Estala uma discussão por causa de um grão de pó que ousou desequilibrar a distribuição equitativa de grãos de pó no espaço pessoal de cada um.

Óoooh Mãeeee, a mana tem mais pó do que eu!

Nada a fazer neste caso. Eventualmente, no meio da luta que se seguirá, alguém irá reequilibrar este flagêlo.

 

3. Não sabem de mim, mesmo que esteja ao seu lado. Por algum motivo que me ultrapassa, devo ter capacidades de invisibilidade momentânea, que infelizmente não sei aproveitar a meu favor...

- Óoooh Mãeeeee, onde estáaaaas?

- Aqui.

- Ah! Ok. 

- Que precisas?

- Nada.

Este momento é auto-explicativo. Serve apenas para assegurar que a invisibilidade se desvanece. Ou que nos apanham a comer o chocolate que lhes deram no Natal ou na Páscoa e que jurámos a pés juntos já ter acabado.

 

4. Uma pessoa prepara-se para dormir. Ultrapassou todo um soalho que range, pé ante pé, talvez até descalça para garantir que não faz barulho. Lava os dentes numa tentativa de abafar qualquer som estranho. Sussurramos para que não nos oiçam. Mal ouvem as pestanas a bater, no momento em que estamos a adormecer e...

Óoooh Mãeeee, quero água/xixi/tenho medo/acende a luz/não tenho sono/já é de manhã/vem cá! (riscar o que não interessa).

Este acaba sempre connosco a vaguear entre quartos, às escuras, e a espetar o pé num qualquer brinquedo pontiagudo esquecido no chão. Normalmente são legos. São sempre legos. E eu que nem tenho legos em casa!!!

 

Enfim... Usado de forma gratuita e vulgar, o Óoooh Mãeeee tem a capacidade de nos colocar em alerta, de nos arrancar da cama e de nos fazer levantar repentinamente da sanita, independentemente do que estivéssemos lá a fazer.

 

Uma bomba. É uma bomba.

 

04
Fev19

O que eu quero é sentir saudades

Fatia Mor

Desde que entrei em casa que me parece que encontrei um sistema de oposição. É a televisão com o som na estratosfera; é a relutância em ouvir o que digo; são os pedidos ininterruptos de comida, de preferência carregada de açúcar e coisas que tais, às quais digo que não até à loucura, ou até que peçam uma peça de fruta. Pedem. Mas fazem-no em disco riscado, até que eu me deixe o que estou a fazer a meio e vá responder aos seus pedidos. Sou eu a levantar a voz para me fazer ouvir no meio dos gritos que endereçam uns aos outros. Para escrever este pequeno texto, até este ponto, já me levantei 5 vezes.

Tudo é uma escolha demorada: as cuecas que vão vestir depois de tomarem banho; o elástico para prender o cabelo, depois de o secar; o tipo de rabo-de-cavalo que querem. Ele ora quer ver televisão - panda style - ou quer ver exactamente a mesma coisa no meu telemóvel. A mudança de suporte electrónico é o suficiente para gerar uma birra de proporções épicas. E ainda só cheguei a casa há uma hora. Ainda falta fazer o exercício diário de leitura, preparar umas bolachas caseiras (que, num acto de insanidade, lhes prometi que fazia hoje com eles), preparar o jantar, garantir que comem tudo e que se deitam a horas decentes para crianças destas idades. (levantei-me, novamente, para ir buscar uma toalha para a mais velha, que felizmente já toma banho sozinha)

Dizem-me que vou sentir falta destes tempos. Dizem-me que é a melhor altura da vida deles e da nossa. Acredito que sim. Aliás, tenho a certeza que sim. Mas neste momento, tudo o que me apetece é sentir saudades.

18
Out18

Da educação do beijinho...

Fatia Mor

Lia, no outro dia, uma sábia frase de uma amiga minha que dizia, em essência, que nunca como hoje se falou tanto (e publicou tanto) sobre parentalidade e, cada vez mais, os pais estão completamente perdidos na sua tarefa.

Nem de propósito lia, algures (estou um must com as referências, hoje), que nunca os pais manifestaram tanta ansiedade, tendo como fonte a educação dos seus pimpolhos.

E sem demoras, pimbas! O beijinho bateu à porta e trouxe atrás de si todas as violências cometidas com as crianças, como a palmada, a diminuição do seu estatuto, e outras questões adjacentes.

Não sou crítica nem defensora acérrima de nenhuma das posições, mas sou forçada a concordar que há um circo gerado em torno do conceito de educação e estamos todos a pagar um bilhete bem caro para assistir ao espectáculo, de lugar cativo na primeira fila.

Deixem-me já dizer-vos que acho os circos um espectáculo deprimente, de uma forma em geral, e este também o é, em particular e passo a enumerar algumas razões desta minha avaliação:

 

1. Considero que a grande generalidade dos pais (excepção feita a quem possa não ser íntegro ou saudável o suficiente) querem educar os seus filhos para sejam pessoas válidas em sociedade: respeitem o próximo, consigam manifestamente relacionar-se com outros indivíduos e consigam realizar contributos válidos através da sua acção no mundo.

 

2. Educar custa. Custa a quem educa, porque é obrigado a escolher a melhor estratégia para o pequeno ser vivo que amadamente cuida; custa a quem vê os seus instintos e vontades saneados pela dura mão dos pais.

 

3. Não há um caminho correto para a educação e, por vezes, esta pode parecer um mundo de contínuos ambivalentes, fortemente polarizados e interdependentes. Operacionalizemos isto pela questão do cumprimento obrigatório.

 

Todos queremos que os nossos filhos sejam sociáveis. A sociabilidade é, aliás, umas das principais categorias que utilizamos para avaliar os outros e o grupo social ensina-nos que é uma característica altamente valorizada. Nesse campo, do cumprimento, fortemente ditado pelas regras sociais (diria que esta discussão talvez não existisse na Namíbia), implica que nos cumprimentemos de acordo com a hierarquia de proximidade social de forma que pode ir de um simples aceno de cabeça, a uma pequena frase "olá, como está", à expressão da intimidade "um beijinho para aqui, um beijinho para ali".

 

Durante anos, socializamos as crianças a cumprimentarem toda a gente com um beijinho, nomeadamente, elementos familiares e amigos chegados como forma de valorização da sua proximidade e intimidade. 

 

Muitas crianças não gostam. Mostram profundo desagrado em fazê-lo. Há pais que obrigam a que cumprimentem o outro, porque o consideram uma expressão de boa educação social. Outros consideram que não vale a pena fazê-lo. Sou do primeiro grupo, na primeira tentativa, sou do segundo assim que vejo que não há vontade. Não adianta tentar obrigá-los a cumprimentar alguém, se não querem. Sugiro, porque considero um comportamento adequado, mas não obrigo quando assim o manifestam.

 

No entanto, e muitas vezes é assim, não querem, não porque não pretendam beijar alguém, mas simplesmente porque estão a tentar desafiar a imposição da regra social. Não querem falar, não querem cumprimentar. Aí, exerço a minha função de pai/mãe e sou capaz de sujeitar a criança à "violência" de cumprimentar o outro, mostrando-lhe a necessidade de sermos cordiais e respeitadores com alguém que demonstra interesse em nós. A reciprocidade é um ato compreensivo do outro no mundo e a responsividade é algo que será necessário aos processos de empatia futura. 

 

Portanto, acho que não podemos considerar que haja uma diminuição da vontade da criança, uma diminuição dos seus direitos, se lhe dissermos que tem mesmo que cumprimentar uma avó, por exemplo. Até porque parece que perdemos a capacidade de ver as coisas pela medida inversa... Será que devemos nós diminuir as nossas responsabilidades de educar alguém para que os seus pretensos direitos não sejam afectados? Não é o direito à educação, um direito fundamental da criança? Então, como é que eu exerço um sem exercer o outro? 

 

Dirão que poderei falar com a criança sobre a necessidade de cumprimentar os outros. Sim, é verdade. Mas nem sempre o método expositivo é o que granjeia melhores resultados na aprendizagem, formal e informal, pelo que poderá ser necessário demonstrar ou agir de maneira a mostrar claramente barreiras e limites. 

 

Além disso, cabe-me nesta exposição, extrapolar para outra dimensão de extrema importância para a compreensão do outro. Chama-se inteligência e parece ser algo extremamente valorizado no mundo social, já que cedo aprendemos que as pessoas com mais recursos intelectuais tendem a ser aquelas que mais recursos conseguem desenvolver noutras áreas (independentemente deste pensamento ser falacioso e uma heurística, subsiste). Ora bem, uma das ferramentas desenhadas para o aumento da perspectiva intelectual é a escola. 

 

Agora, surge-me a questão... É uma violência obrigar a criança a ir à escola se ela não quer? Então, não estarei a diminuir o seu estatuto à metade por exigir que vá, quando muitas lhe resistem inicialmente? Tento aplicar a mesma medida e não consigo entender a lógica. 

 

Mas percebo porque andamos todos tão confusos... Porque para a coerência perdeu-se no meio de tanto pensamento, de tanto imiscuir, de tanta análise pseudo-social-psicológico (onde me enquadro, sozinha e de bom grado).

 

Porque, no que toca à educação dos nossos filhos, ainda deveria imperar o bom senso... Algo que parece que se está a perder a olhos vistos. 

24
Set18

Vitinho à la Fatia#3

Fatia Mor

Pego-lhe ao colo e digo-lhe que são horas de ir dormir. O refilanço começa logo, com ele a dizer "não, não". Um não muito redondo, que reforça com um abanar da cabeça, para a esquerda e para a direita. "Tem que ser, são horas de ir dormir". E começa o rol das perguntas, que soam a algo como isto:

Fatia#3: Uuuuu páaaaaiiiiii? (o pai?)

FatiaMor: Não está!

F#3: Aaaaaa Báááááá? (a Fatia#1)

FatiaMor: Está na sala.

F#3: Aaaaaa T'tiiiiisssss (a Fatia#2)

FatiaMor: Está com a Fatia#1.

F#3: Nuuuumm qué. (Não quer)

FatiaMor: Vamos cantar?

 

Então, na ideia de umas músicas de embalar, especialmente o Vitinho, encosta a cabeça ao meu ombro, enquanto chucha no dedo.

Começo a cantar e eis que ele começa... (segue-se a expressão do mais próximo que eu consigo perceber que ele diz)

nhánhahora

nhacamiiii

vamuusssmiiir

que à fóooaaa

axesteuas

dooooomeaiiiiirrrr

e há cheinho

bem cheinho

váaaavêê

acoaaasss mas ote

peto é chescer

nooooteeee

ateeee manhãaaaa

 

Digam lá, se ele não sabe a letra toda!? 

E é nestes momentos que eu sei que estas coisas pequenas que eu tenho aqui para casa são a melhor coisa do mundo!

31
Jul18

6 anos

Fatia Mor

Há uma vida antes de ser mãe e depois de ser mãe.

Em verdade, a vida não se altera.

Não é mais difícil, os problemas não são mais problemáticos, não tem mais valências, nem tem mais valor.

 

 

Mas nós mudamos. 

 

O nascimento de um filho muda-nos avassaladoramente, quer queiramos, quer não. Podemos resistir à mudança, contrariá-la, mas havendo consciência do nascimento de um ser que é uma continuidade biológica nossa, há como que uma divisão do nosso ser.

Isso não faz de nós especiais. Pelo contrário. Faz de nós devedores à vida. 

A partir desse momento, todas as nossas acções serão escrutinadas, escrupulosamente, como um padrão a ser replicado, mostrando-nos (de amiúde, com desagrado) como somos incoerentes, inconsistentes, imperfeitos, inacabados.

A maternidade constitui-se de uma forma de nos aperfeiçoarmos num momento da nossa vida em que já achávamos que nos tínhamos conquistado internamente. Talvez faça de nós melhores pessoas, não sei. Só sei que fez de mim alguém mais consciente. 

 

Faz amanhã, seis anos que mudei.

 

Há seis que nasceu a minha primeira filha. Recordo com alguma nebulosidade o nascimento, toldada pelas drogas e pelas hormonas, mas tenho impresso em mim, nas fibras da alma, os primeiros momentos em que entramos em casa. 

A realidade tinha mudado. Tudo me parecia diferente, apesar de reconhecer cada parte daquelas paredes, daqueles móveis como sendo os mesmos que lá estavam, quando saíra para a maternidade uns dias antes. O sentimento de "fora de lugar", de desajuste era enorme! 

Foi um processo de ajuste, de nascimento para ela e para mim, de voltar a encontrar-me dentro de tudo o que estava a viver.

 

Há seis anos que celebro essa mudança ao mesmo tempo que celebro mais um aniversário. E têm sido uns 6 anos bem animados!

 

Amanhã estamos de parabéns e é dia de festa! 

 

Nota da autora: estará a fazer, por esta hora (15h30), 6 anos que dei entrada no hospital, em trabalho de parto. Lá para as duas da manhã, nasceu a Fatia#1.

 

Nota da autora sobre a nota da autora: sempre quis fazer uma nota da autora! 

 

 

 

 

 

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