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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

18
Out18

Da educação do beijinho...

Fatia Mor

Lia, no outro dia, uma sábia frase de uma amiga minha que dizia, em essência, que nunca como hoje se falou tanto (e publicou tanto) sobre parentalidade e, cada vez mais, os pais estão completamente perdidos na sua tarefa.

Nem de propósito lia, algures (estou um must com as referências, hoje), que nunca os pais manifestaram tanta ansiedade, tendo como fonte a educação dos seus pimpolhos.

E sem demoras, pimbas! O beijinho bateu à porta e trouxe atrás de si todas as violências cometidas com as crianças, como a palmada, a diminuição do seu estatuto, e outras questões adjacentes.

Não sou crítica nem defensora acérrima de nenhuma das posições, mas sou forçada a concordar que há um circo gerado em torno do conceito de educação e estamos todos a pagar um bilhete bem caro para assistir ao espectáculo, de lugar cativo na primeira fila.

Deixem-me já dizer-vos que acho os circos um espectáculo deprimente, de uma forma em geral, e este também o é, em particular e passo a enumerar algumas razões desta minha avaliação:

 

1. Considero que a grande generalidade dos pais (excepção feita a quem possa não ser íntegro ou saudável o suficiente) querem educar os seus filhos para sejam pessoas válidas em sociedade: respeitem o próximo, consigam manifestamente relacionar-se com outros indivíduos e consigam realizar contributos válidos através da sua acção no mundo.

 

2. Educar custa. Custa a quem educa, porque é obrigado a escolher a melhor estratégia para o pequeno ser vivo que amadamente cuida; custa a quem vê os seus instintos e vontades saneados pela dura mão dos pais.

 

3. Não há um caminho correto para a educação e, por vezes, esta pode parecer um mundo de contínuos ambivalentes, fortemente polarizados e interdependentes. Operacionalizemos isto pela questão do cumprimento obrigatório.

 

Todos queremos que os nossos filhos sejam sociáveis. A sociabilidade é, aliás, umas das principais categorias que utilizamos para avaliar os outros e o grupo social ensina-nos que é uma característica altamente valorizada. Nesse campo, do cumprimento, fortemente ditado pelas regras sociais (diria que esta discussão talvez não existisse na Namíbia), implica que nos cumprimentemos de acordo com a hierarquia de proximidade social de forma que pode ir de um simples aceno de cabeça, a uma pequena frase "olá, como está", à expressão da intimidade "um beijinho para aqui, um beijinho para ali".

 

Durante anos, socializamos as crianças a cumprimentarem toda a gente com um beijinho, nomeadamente, elementos familiares e amigos chegados como forma de valorização da sua proximidade e intimidade. 

 

Muitas crianças não gostam. Mostram profundo desagrado em fazê-lo. Há pais que obrigam a que cumprimentem o outro, porque o consideram uma expressão de boa educação social. Outros consideram que não vale a pena fazê-lo. Sou do primeiro grupo, na primeira tentativa, sou do segundo assim que vejo que não há vontade. Não adianta tentar obrigá-los a cumprimentar alguém, se não querem. Sugiro, porque considero um comportamento adequado, mas não obrigo quando assim o manifestam.

 

No entanto, e muitas vezes é assim, não querem, não porque não pretendam beijar alguém, mas simplesmente porque estão a tentar desafiar a imposição da regra social. Não querem falar, não querem cumprimentar. Aí, exerço a minha função de pai/mãe e sou capaz de sujeitar a criança à "violência" de cumprimentar o outro, mostrando-lhe a necessidade de sermos cordiais e respeitadores com alguém que demonstra interesse em nós. A reciprocidade é um ato compreensivo do outro no mundo e a responsividade é algo que será necessário aos processos de empatia futura. 

 

Portanto, acho que não podemos considerar que haja uma diminuição da vontade da criança, uma diminuição dos seus direitos, se lhe dissermos que tem mesmo que cumprimentar uma avó, por exemplo. Até porque parece que perdemos a capacidade de ver as coisas pela medida inversa... Será que devemos nós diminuir as nossas responsabilidades de educar alguém para que os seus pretensos direitos não sejam afectados? Não é o direito à educação, um direito fundamental da criança? Então, como é que eu exerço um sem exercer o outro? 

 

Dirão que poderei falar com a criança sobre a necessidade de cumprimentar os outros. Sim, é verdade. Mas nem sempre o método expositivo é o que granjeia melhores resultados na aprendizagem, formal e informal, pelo que poderá ser necessário demonstrar ou agir de maneira a mostrar claramente barreiras e limites. 

 

Além disso, cabe-me nesta exposição, extrapolar para outra dimensão de extrema importância para a compreensão do outro. Chama-se inteligência e parece ser algo extremamente valorizado no mundo social, já que cedo aprendemos que as pessoas com mais recursos intelectuais tendem a ser aquelas que mais recursos conseguem desenvolver noutras áreas (independentemente deste pensamento ser falacioso e uma heurística, subsiste). Ora bem, uma das ferramentas desenhadas para o aumento da perspectiva intelectual é a escola. 

 

Agora, surge-me a questão... É uma violência obrigar a criança a ir à escola se ela não quer? Então, não estarei a diminuir o seu estatuto à metade por exigir que vá, quando muitas lhe resistem inicialmente? Tento aplicar a mesma medida e não consigo entender a lógica. 

 

Mas percebo porque andamos todos tão confusos... Porque para a coerência perdeu-se no meio de tanto pensamento, de tanto imiscuir, de tanta análise pseudo-social-psicológico (onde me enquadro, sozinha e de bom grado).

 

Porque, no que toca à educação dos nossos filhos, ainda deveria imperar o bom senso... Algo que parece que se está a perder a olhos vistos. 

24
Set18

Vitinho à la Fatia#3

Fatia Mor

Pego-lhe ao colo e digo-lhe que são horas de ir dormir. O refilanço começa logo, com ele a dizer "não, não". Um não muito redondo, que reforça com um abanar da cabeça, para a esquerda e para a direita. "Tem que ser, são horas de ir dormir". E começa o rol das perguntas, que soam a algo como isto:

Fatia#3: Uuuuu páaaaaiiiiii? (o pai?)

FatiaMor: Não está!

F#3: Aaaaaa Báááááá? (a Fatia#1)

FatiaMor: Está na sala.

F#3: Aaaaaa T'tiiiiisssss (a Fatia#2)

FatiaMor: Está com a Fatia#1.

F#3: Nuuuumm qué. (Não quer)

FatiaMor: Vamos cantar?

 

Então, na ideia de umas músicas de embalar, especialmente o Vitinho, encosta a cabeça ao meu ombro, enquanto chucha no dedo.

Começo a cantar e eis que ele começa... (segue-se a expressão do mais próximo que eu consigo perceber que ele diz)

nhánhahora

nhacamiiii

vamuusssmiiir

que à fóooaaa

axesteuas

dooooomeaiiiiirrrr

e há cheinho

bem cheinho

váaaavêê

acoaaasss mas ote

peto é chescer

nooooteeee

ateeee manhãaaaa

 

Digam lá, se ele não sabe a letra toda!? 

E é nestes momentos que eu sei que estas coisas pequenas que eu tenho aqui para casa são a melhor coisa do mundo!

31
Jul18

6 anos

Fatia Mor

Há uma vida antes de ser mãe e depois de ser mãe.

Em verdade, a vida não se altera.

Não é mais difícil, os problemas não são mais problemáticos, não tem mais valências, nem tem mais valor.

 

 

Mas nós mudamos. 

 

O nascimento de um filho muda-nos avassaladoramente, quer queiramos, quer não. Podemos resistir à mudança, contrariá-la, mas havendo consciência do nascimento de um ser que é uma continuidade biológica nossa, há como que uma divisão do nosso ser.

Isso não faz de nós especiais. Pelo contrário. Faz de nós devedores à vida. 

A partir desse momento, todas as nossas acções serão escrutinadas, escrupulosamente, como um padrão a ser replicado, mostrando-nos (de amiúde, com desagrado) como somos incoerentes, inconsistentes, imperfeitos, inacabados.

A maternidade constitui-se de uma forma de nos aperfeiçoarmos num momento da nossa vida em que já achávamos que nos tínhamos conquistado internamente. Talvez faça de nós melhores pessoas, não sei. Só sei que fez de mim alguém mais consciente. 

 

Faz amanhã, seis anos que mudei.

 

Há seis que nasceu a minha primeira filha. Recordo com alguma nebulosidade o nascimento, toldada pelas drogas e pelas hormonas, mas tenho impresso em mim, nas fibras da alma, os primeiros momentos em que entramos em casa. 

A realidade tinha mudado. Tudo me parecia diferente, apesar de reconhecer cada parte daquelas paredes, daqueles móveis como sendo os mesmos que lá estavam, quando saíra para a maternidade uns dias antes. O sentimento de "fora de lugar", de desajuste era enorme! 

Foi um processo de ajuste, de nascimento para ela e para mim, de voltar a encontrar-me dentro de tudo o que estava a viver.

 

Há seis anos que celebro essa mudança ao mesmo tempo que celebro mais um aniversário. E têm sido uns 6 anos bem animados!

 

Amanhã estamos de parabéns e é dia de festa! 

 

Nota da autora: estará a fazer, por esta hora (15h30), 6 anos que dei entrada no hospital, em trabalho de parto. Lá para as duas da manhã, nasceu a Fatia#1.

 

Nota da autora sobre a nota da autora: sempre quis fazer uma nota da autora! 

 

 

 

 

 

06
Fev18

Boa mãe, má mãe

Fatia Mor

Boa mãe. Má mãe.

Não consigo deixar de pensar nesses dois conceitos. 

Tenho dias em que tudo corre sobre rodas. Nesse dias, sinto-me a super mulher, capaz de enfrentar as maiores tempestades, penteada e de salto alto e sair delas melhor do que entrei!

Mas o reverso da medalha é destrutivo. Num momento, que pode ser de uma birra, uma desatenção a um pormenor qualquer, passo de bestial a besta! 

Sei que, provavelmente, este sentimento de diminuição de capacidade ocorre apenas na minha mente. Porém, não deixo de me sentir a pior das mães.

Por mais estranho que pareça, 5 anos (ou 6 se contarmos com o tempo de gravidez) e três filhos depois, continuo a sentir-me fortemente afectada por textos estereotipados sobre o que é ser mãe, de como devemos exercer a nossa parentalidade e de como os filhos dos outros são invariavelmente mais perfeitos que os nossos.

O que poderia ser uma grande vantagem em comparação com os tempos em que as crianças eram apenas consideradas adultos em miniatura, é também o ponto de toque que faz com que haja tanta atenção à maternidade nos dias de hoje, preenchendo-nos tanto de sentimentos de felicidade como de sentimentos de culpa.

A maternidade é um campo de críticas fáceis e disponíveis a todas as pessoas, desde aquelas que (ainda) não têm filhos até aos que sabem tudo porque já os tiveram.

O problema está no facto de a transferência deste conhecimento ser impossível de realizar, como se tratasse de uma transferência de dinheiro.

"Ah com os meus era assim..." e no seguimento disto podemos colocar todas as fórmulas maravilhosas que resultavam num dado tempo, numa dada dinâmica e com um conjunto específico de pessoas. Mas, eu não sou essa mãe, as coisas cá em casa são diferentes e os meus filhos, seguramente, não são os dela.

Portanto, a maternidade encerra não só as tais críticas, tão simples de formular disfarçadas de ajuda, como é um campo idiossincrático e como tal, incomparável e intransmissível.

Boa mãe, má mãe. O meu único quesito é se algum dia conseguirei deixar de me adjectivar. 

 

24
Jan18

Enema para criança pequena

Fatia Mor

De facto, uma pessoa tende a complicar.

De há dias a esta parte, vira não vira, a Fatia#1 queixa-se de dores de barriga. Por vezes, tem vómitos. Sempre durante a noite, o que torna a coisa mais penosa, especialmente para quem tem que trabalhar no dia seguinte.

Há duas noites que o "forró" tem estado em alta. 

Esta noite, então, foi do demo. As primeiras horas foram com o Fatiasmen a levantar-se a cada 10 minutos, sensivelmente. E depois de ele sair para apanhar um avião de madrugada, fui eu a premiada com as chamadas constantes, as festas na barriga e os viagens entre a cama e a casa-de-banho.

Dói, dói, dói! Onde, onde, onde? Como? Mas dói muito? Será que tem febre? Será que é virose? Será que é apêndice?

Devido a tanta queixa e tanta interrogação da minha parte, às 09h da matina estávamos a entrar nas urgências privadas aqui do sítio.

Tem febre? Não. Recusa alimentar-se? Nem por isso. Vómitos? Nem sempre. Diarreia? Não. Tudo normal, aí. Tem animais? Não. Comeu algum alimento diferente? Não. 

Consulta, apalpação da barriga, nada de dores, nada de febre. Raio-x!

Já eu tremia por todo o lado. Mas vamos lá ver o que sai daqui...

E o que é que a menina tinha?

Cocó! 

Muuuuuuuuuiiiiiitoooooo cocó!

Depois dos filmes todos que fiz na cabeça, afinal a cachopa está obstipada. E como não demos por nada? Porque ela continua a ir à casa-de-banho e faz o número 2 normalmente. Mas, e nestas coisas há sempre um mas, não em quantidade certa e possivelmente menos dias do que devia. 

Ao que parece, os miúdos evitam fazer na escola - ou porque não gostam, ou porque não querem perder tempo de brincadeira - e a coisa começa a acumular-se, até que dá cólicas, vómitos, perda de apetite, etc.

 

E o tratamento? Ah pois é! Um enema, vulgo clister. Ora, se a coisa nem para mim me parece bem, tentem explicar a uma miúda de 5 anos que temos que enfiar um tubo no rabinho e empurrar água lá para dentro!

Foi um filme! 

Lá expliquei que a barriga estava a precisar de ser limpa e que era isso que a água ia fazer.

A sorte é que ela gosta de limpezas, caso contrário, acho que ainda agora estava a tentar convencê-la da utilidade do enema.

 

Agora é acompanhar os movimentos intestinais atentamente, dar-lhe um medicamento para a coisa mexer e esperar que as noites voltem a ser como antes: silenciosas. Excepto quando algum tosse, espirra, acorda, quer leite, quer luzes, quer colinho, quer ir ver televisão às três da matina, enfim, acho que vocês percebem. Silenciosas.

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