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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

24
Jan18

Enema para criança pequena

Fatia Mor

De facto, uma pessoa tende a complicar.

De há dias a esta parte, vira não vira, a Fatia#1 queixa-se de dores de barriga. Por vezes, tem vómitos. Sempre durante a noite, o que torna a coisa mais penosa, especialmente para quem tem que trabalhar no dia seguinte.

Há duas noites que o "forró" tem estado em alta. 

Esta noite, então, foi do demo. As primeiras horas foram com o Fatiasmen a levantar-se a cada 10 minutos, sensivelmente. E depois de ele sair para apanhar um avião de madrugada, fui eu a premiada com as chamadas constantes, as festas na barriga e os viagens entre a cama e a casa-de-banho.

Dói, dói, dói! Onde, onde, onde? Como? Mas dói muito? Será que tem febre? Será que é virose? Será que é apêndice?

Devido a tanta queixa e tanta interrogação da minha parte, às 09h da matina estávamos a entrar nas urgências privadas aqui do sítio.

Tem febre? Não. Recusa alimentar-se? Nem por isso. Vómitos? Nem sempre. Diarreia? Não. Tudo normal, aí. Tem animais? Não. Comeu algum alimento diferente? Não. 

Consulta, apalpação da barriga, nada de dores, nada de febre. Raio-x!

Já eu tremia por todo o lado. Mas vamos lá ver o que sai daqui...

E o que é que a menina tinha?

Cocó! 

Muuuuuuuuuiiiiiitoooooo cocó!

Depois dos filmes todos que fiz na cabeça, afinal a cachopa está obstipada. E como não demos por nada? Porque ela continua a ir à casa-de-banho e faz o número 2 normalmente. Mas, e nestas coisas há sempre um mas, não em quantidade certa e possivelmente menos dias do que devia. 

Ao que parece, os miúdos evitam fazer na escola - ou porque não gostam, ou porque não querem perder tempo de brincadeira - e a coisa começa a acumular-se, até que dá cólicas, vómitos, perda de apetite, etc.

 

E o tratamento? Ah pois é! Um enema, vulgo clister. Ora, se a coisa nem para mim me parece bem, tentem explicar a uma miúda de 5 anos que temos que enfiar um tubo no rabinho e empurrar água lá para dentro!

Foi um filme! 

Lá expliquei que a barriga estava a precisar de ser limpa e que era isso que a água ia fazer.

A sorte é que ela gosta de limpezas, caso contrário, acho que ainda agora estava a tentar convencê-la da utilidade do enema.

 

Agora é acompanhar os movimentos intestinais atentamente, dar-lhe um medicamento para a coisa mexer e esperar que as noites voltem a ser como antes: silenciosas. Excepto quando algum tosse, espirra, acorda, quer leite, quer luzes, quer colinho, quer ir ver televisão às três da matina, enfim, acho que vocês percebem. Silenciosas.

17
Mar17

6 meses

Fatia Mor

Gosto do teu sorriso desdentado, que me enternece a alma, assim que chego perto de ti.  

Adoro a forma apaixonada com que olhas para mim e para as tuas irmãs, mesmo quando gritam à tua volta e saltam por cima de ti.

Quando abres muito os olhos, tomado de espanto por alguma coisa nova no teu mundinho, deixas-nos derretidos. Percebe-se pela mesma expressão, meio assustada meio espantada, que não gostas nada das toalhitas frias, que usamos para te limpar. Mas nada que uns beijos sonoros no pescoço ou na barriga não resolvam rapidamente, transformando tudo numa gargalhada pegada.

Enternece-me ver como encaixas perfeitamente no colo do papá, quando ele te embala.

Adoro pegar nos teus pezinhos, despidos e suados, para os encher de beijos. 

Tenho pena que o tempo não me deixe ver-te crescer. Se o amor se multiplica por três, a atenção divide-se sempre, e tenho a sensação que cresces despudoradamente nas minhas costas e à minha revelia.

Apetecia-me congelar o tempo nesta fase maravilhosa, manter-te nos meus braços só mais um bocadinho, mesmo contigo empenhado em tirar-me os óculos da cara ou em puxar-me os cabelos. 

Fazes hoje seis meses. Seis meses que já não fariam sentido sem ti. 

 

01
Mar17

Olá, sou mãe nas horas vagas!

Fatia Mor

Depois de um dia de trabalho, em que tentamos remar contra a corrente, chegamos a casa na ânsia de descansar o corpo e a mente.

O dia pode ter corrido bem ou menos bem (sim, sou das que vê o copo meio cheio), mas em qualquer das situações, tudo o que não apetece é entrar numa casa onde imperam os gritos, a desarrumação, as birras, os choros!

Ao contrário das famílias perfeitas que a TV nos vende, em que todos jantam de forma alegre e divertida, pratos coloridos, com sopa ao lado, e ainda iluminados por uma réstia de luz do sol, a verdade é que a realidade está longe desse patamar idílico.

A realidade é um pouco mais crua, um pouco mais dura e um pouco mais escura.

Há os banhos para dar, há crianças para entreter, há horários e necessidades diferentes para atender. A sensação que eu tenho é que estou dentro de um filme que corre em loop, em que todos os dias são iguais, em que não noto diferenças ou melhorias como me dizem que vai acontecer.

E eu sei que vão acontecer. Ainda ontem a Fatia#1 nasceu, distraí-me, pisquei os olhos, e ela vai a passos largos a caminho dos cinco anos. O problema é que nunca mais lá chegamos! 

E neste ínterim diário o que eles têm de mim é uma mãe operacional! A verdade é que, desde que entro em casa, torno-me numa máquina de execução de tarefas que têm que ser feitas ou mantidas, até à hora de os enfiar na cama.

E depois, temos diálogos destes...

 

Fatia#1: Oh mãe, porque é que tu não brincas?

FatiaMor: Porque já sou crescida filha... Mas porque é que dizes que "não brinco"?

Fatia#1: Por que não brincas comigo às escondidas.

FatiaMor: Mas às vezes brinco. Outras sabes que a mamã não pode ou até não quer, por estar cansada.

Fatia#1: Pois, mas não brincas as vezes que eu quero.

 

Portanto, hoje aqui me confesso, sou mãe nas horas vagas. Porque ser mãe, para mim, é ir além das tarefas operacionais de manter uma família. É ter tempo. É brincar. É criar momentos de boas memórias, com significado, longe de televisões e bolachas processadas. É perder tempo a amassar bolachas para comer ao lanche ou fazer plasticina até ter o chão manchado de cores. 

Sou mãe nas horas vagas... E infelizmente, não são muitas!

13
Jan17

Fim do dia

Fatia Mor

Vivo e respiro das rotinas. Para mim, é indispensável conseguir umas horas, à noite, para pôr a mente em pausa, ver um pouco de televisão ou conversar com o Fatiasmen sobre o nosso dia, sem estarmos a ser constantemente interrompidos.

 

Se as nossas rotinas já estavam estabelecidas com as meninas Fatias, com a chegada do Fatia#3 as coisas complicaram-se um bocadinho. 

 

Afianço já, em jeito de spoiler, que mudar de dois para três filhos foi muito mais violento do que passar de um para dois. Acho, até, que fica comparável ao embate de ter o primeiro filho, que agora me parecem tempos de paraíso, comparando com a loucura que às vezes (muitas?) se instala dentro destas paredes.

 

Via ontem, no no facebook d'A mãe já vai, que se discernia sobre a pior altura do dia: se as manhãs, se os fins do dia.

Para mim, venha o diabo e escolha. Quer as manhãs, quer os fins do dia, são caóticos e perante a menor contrariedade, têm potencial para descambar num conflito internacional!

Contudo, como ainda não estou a trabalhar, tenho que dar o braço a torcer e dizer que o fim do dia é a pior altura do dia.

 

Façamos um pequeno exercício: imaginem uma orquestra que insiste em não obedecer ao maestro. Apesar de conhecerem a partitura de cor e salteado, teimam em seguir outra partitura quando a peça que está a ser tocada é completamente diferente. E agora, imaginem o maestro a tentar dar ordens à orquestra, com um bebé nos braços.

Basicamente, é isso! Daí que preciso de rotinas, bem estabelecidas.

 

Passo a explicar:

15h20 - Chegamos a casa. A Fatia#1 sai do Jardim de Infância às 15h. Lanchamos e brincamos até à hora do banho.

 

17h00 - Começa a ronda dos banhos. Primeiro, a Fatia#2, que sendo a menos autónoma das duas, é também aquela que despacho mais depressa. Dou-lhe o banho em velocidade recorde, para a tirar da banheira e levá-la para o quarto. Entretanto, digo à Fatia#1 (que é como diz, dou um grito para a sala) para que vá fazer xixi antes de ir para o banho e que dispa a roupa que conseguir. 

Enquanto a Fatia#1 faz 20 voltas à casa, antes de fazer o que eu lhe mando, coloco o creme de corpo na Fatia#2, visto-lhe o pijama, seco-lhe o cabelo e coloco-a na sala a ver o Canal Panda com um snack no colo.

A dada altura, a Fatia#1 ficou com as camisolas presas na cabeça e começa a chamar-me. Vou em seu socorro. Por esta altura, o Fatia#3 dá o ar de sua graça, isto se não estiver já aos gritos desde que a Fatia#2 entrou para o banho. Passo pelo quarto dele, faço umas palhaçadas, coloco-lhe um boneco a jeito de ele o tentar apanhar e lá vou eu, salvar a Fatia#1 de ser engolida numa cebola de camisolas interiores e sweatshirt.

Zango-me porque deixou tudo espalhado na casa-de-banho, ela enfia-se na banheira e insiste em fazer tudo "só-zi-nha" (ler com entoação silábica, porque é tal e qual). Lá supervisiono a aplicação do shampoo, verifico se a esponja passou por todos os sítios, e ajudo-a a tirar a espuma toda. Sai do banho, vai para o quarto e, dependendo da boa vontade da donzela ou se veste sozinha ou tenho que a vestir eu! Seca o cabelo, creme no rosto (o do corpo já foi) e lá vai ela para a sala, com o seu snack.

 

18h00 - E nisto passou uma hora, ou quase. Tudo depende da boa vontade em colaborar. São horas, então, de tratar do Fatia#3. Algures, pelo meio, pus o quarto a aquecer. Enquanto elas vêem o Ruca (é sagrado, cá em casa), aproveito para tirar a roupa do menino, encher a shantala, trazer tudo para o quarto e dar-lhe banho. Em dias bons somos só nós... Mas não raras vezes, a Fatia#2 vem "aiudar" o que implica, depois, ter um pijama para trocar. 

 

18h30 - Hora de comer. Preparo o biberão ao Fatia#3 e sento-me a acabar de ver o Ruca ou outra coisa qualquer que entretanto tenha começado. Pelo meio, elas começam a fartar-se de ver televisão e resolvem fazer uma gincana com as almofadas do sofá. "Cuidado que cais" é o mantra das 18h30, enquanto as minhas índias se empoleiram no sofá, nas almofadas ou nas cadeiras da sala... O Fatia#3 consegue a proeza de comer, arrotar e deixar-se dormir no meio de gritos, embirrações e disputas pelo sofá, almofadas, jogos, televisão (riscar o que não interessa). Eu aproveito e vou arrumar a casa-de-banho, ligar o aquecedor no quarto e abrir as camas.

 

19h00 - Horas de jantar. Aqueço as sopas, preparo os pratos de comida, ponho a mesa e chamo-as. Uma, duas, dez vezes. Vou à sala. Trago a Fatia#2 ao colo e ralho com a Fatia#1 porque diz que não quer comer sopa. "Está quente". "Está fria". "Tem legumes". "Tem bocados." Tem defeito, portanto. Pelo menos 15 minutos para a convencer a comer a primeira colher. Pelo meio, vou enfiando a sopa e a comida à Fatia#2, cuja praia é sopa, mas não quer a comida do segundo prato. Comem a fruta, choram porque querem chocolate e saem da mesa para brincar mais um pouco.

 

20h00 - Hora de ir para a cama. Mando a Fatia#1 fazer xixi, novamente, e lavar os dentes. Chamo a Fatia#2 para trocar a fralda, lavar os dentes e beber o leite. Quer bebê-lo na sala, mas lá a convenço que na caminha sabe melhor. A Fatia#1 diz que não tem sono, leva 10 minutos para escovar os dentes e o cabelo, e, se possível, desarruma meia casa-de-banho no processo.

 

20h30 - Ler a história. Cada uma na sua cama, ouvem a história escolhida à vez. Disse escolhida à vez? Desculpem, escolhida pela Fatia#1. Em dias calmos, leio duas, para dar uma hipótese à mais pequena de escolher qualquer coisa que queira ouvir. Depois começa o festival... "Quero água". "Não tenho sono". "Não quero dormir". "Quero outra história". E elas cantam, e falam, e rebolam na cama, dão voltas, destapam-se, tapam-se, enrolam-se, pedem festas, mimos, abraços, beijinhos, bocejam e caem...

 

21h00 - Acorda o Fatia#3. Ou não. Continua a dormir. Dependendo, sento-me a jantar com o Fatiasmen ou sozinha, quando o trabalho assim obriga. Arrumamos a cozinha, arrumo a sala porque ficam sempre brinquedos espalhados por algum lado e sento-me no sofá a relaxar. São umas dez da noite e, em pouco tempo, tenho que preparar tudo para a noite (normalmente levo logo a água fervida, os biberões, o leite, as fraldas para o quarto), para quando o Fatia#3 acordar não perder muito tempo.

 

Correu tudo bem. Podia ter sido pior. Podia ter que fazer o jantar, porque não sobrou do almoço ou não adiantei a horas de não empancar tudo. O Fatia#3 podia não ter querido dormir, e querer colo durante todo este período. Poderia ter havido uma birra descomunal para arrumar o quarto ou para ter alguma coisa que está interdita. Mas é isto, dia após dia, após dia. É o que garante a minha sanidade, a capacidade de gerir isto tudo e de chegar às dez da noite e perder um pouco de tempo a ver televisão, correr os blogs, ir ao facebook ou outra coisa qualquer que nos apeteça fazer.

 

Por isso, sim, os fins da tarde são a pior parte do dia. Mas quando corre tudo bem, sentimo-nos um maestro. Bem sucedido! 

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