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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

06
Fev18

Boa mãe, má mãe

Fatia Mor

Boa mãe. Má mãe.

Não consigo deixar de pensar nesses dois conceitos. 

Tenho dias em que tudo corre sobre rodas. Nesse dias, sinto-me a super mulher, capaz de enfrentar as maiores tempestades, penteada e de salto alto e sair delas melhor do que entrei!

Mas o reverso da medalha é destrutivo. Num momento, que pode ser de uma birra, uma desatenção a um pormenor qualquer, passo de bestial a besta! 

Sei que, provavelmente, este sentimento de diminuição de capacidade ocorre apenas na minha mente. Porém, não deixo de me sentir a pior das mães.

Por mais estranho que pareça, 5 anos (ou 6 se contarmos com o tempo de gravidez) e três filhos depois, continuo a sentir-me fortemente afectada por textos estereotipados sobre o que é ser mãe, de como devemos exercer a nossa parentalidade e de como os filhos dos outros são invariavelmente mais perfeitos que os nossos.

O que poderia ser uma grande vantagem em comparação com os tempos em que as crianças eram apenas consideradas adultos em miniatura, é também o ponto de toque que faz com que haja tanta atenção à maternidade nos dias de hoje, preenchendo-nos tanto de sentimentos de felicidade como de sentimentos de culpa.

A maternidade é um campo de críticas fáceis e disponíveis a todas as pessoas, desde aquelas que (ainda) não têm filhos até aos que sabem tudo porque já os tiveram.

O problema está no facto de a transferência deste conhecimento ser impossível de realizar, como se tratasse de uma transferência de dinheiro.

"Ah com os meus era assim..." e no seguimento disto podemos colocar todas as fórmulas maravilhosas que resultavam num dado tempo, numa dada dinâmica e com um conjunto específico de pessoas. Mas, eu não sou essa mãe, as coisas cá em casa são diferentes e os meus filhos, seguramente, não são os dela.

Portanto, a maternidade encerra não só as tais críticas, tão simples de formular disfarçadas de ajuda, como é um campo idiossincrático e como tal, incomparável e intransmissível.

Boa mãe, má mãe. O meu único quesito é se algum dia conseguirei deixar de me adjectivar. 

 

30
Jan18

Arrumações

Fatia Mor

Este blog anda meio parado. E a culpa é minha. 

Bom, claro que é minha porque sou eu que o alimento. Mas é minha no sentido de que não consigo trabalhar em sítios desarrumado (bem, quem olhe para a minha secretária, neste momento, talvez duvide do que estou a afirmar).

 

Sinto que tenho perdido um pouco o norte no que vou por aqui publicando. Se, por um lado, este esforço tem sido um reflexo do que é a minha vida, por outro, isto tem-se tornado numa amálgama de ideias que estão, simplesmente, desorganizadas.

 

O problema é que tempo para pensar numa estratégia para isto está em falta. Escasseia abundantemente, passo a ideia paradoxal! 

Obviamente, que estas hesitações me levam logo a perguntar se vale a pena continuar. Eu adoro escrever para mim, tem uma função de catarse, mas a realidade é que ultimamente as ideias surgem-me sempre quando estou em ambientes que não permitem deitar a mão à obra e, quando chega o tempo de por tudo aqui nesta página branca, a inspiração deu à sola e colocou-se a milhas.

E sinto, francamente, que esse problema tem sido demasiado recorrente nos últimos tempos e tema de conversa aqui mais do que eu gostaria.

 

Por isso, está na hora de pensar no destino deste blog. Preciso de arrumar a casa, que é como quem diz, de arrumar as ideias.

Sugestões, ideias, aceitam-se tudo, desde que grátis!

 

A sempre vossa,

FatiaMor

08
Jan18

Sermos gratos e não desconfiados

Fatia Mor

Lá diz o ditado popular que quando a esmola é demais, o santo desconfia.

 

Não sei bem se os santos estão em posição de desconfiar do que quer que seja, nos dias que correm que me parecem ser de crise no ramo religioso, mas eu sinto-me uma eterna desconfiada da vida.

Sou uma optimista-com-um-bracinho-a-atirar-para-o-pessimismo! O que quero dizer com isto? Quando tudo corre mal tendo a ter uma visão prática, orientada para a solução, sem me deter muito tempo nos aspectos negativos do que estou a viver. E confesso, com alguma rapidez que até a mim me deixa desconfortável, enfio tudo para trás das costas, afasto os pensamentos menos bons e sigo em frente, esquecida do que passou. Posso deitar-me durante uns segundos ao desespero, mas refaço-me depressa.

 

Mas quando tudo está calmo ando sempre a olhar por cima do ombro. É como se sentisse que, mediante a tragédia das vidas humanas que há à minha volta (e no resto do mundo), acreditar que sou uma bafejada pela coerência, pela calma e pela estabilidade, seja demasiado para o aceitar pacificamente. No fundo, sinto sempre que tudo o que acontece aos outros podia, a qualquer instante, estar a acontecer-me a mim. 

Não sei se é a desvalorização de alguns aspectos menos bons da minha vida - que simplesmente não encaro de forma negativa - ou se se deve apenas à minha capacidade de achar que as coisas boas que me acontecem são fruto do meu esforço e do meu empenho e, portanto, acreditar que consigo sempre dar a volta a tudo... Não sei. Mas também sei que tenho um pensamento mágico que me acompanha sempre de que a sorte existe e está cá para nos trazer coisas boas, que nem sempre dependi do meu esforço, ou sequer da minha capacidade de prever as consequências dos meus passos. Aos 35 (e meio) acho que sou mais inconsciente e pouco elaborada nos planos que faço, do que aquilo que gostaria de acreditar.

Sei que trabalhei muito para ter o que tenho, mas acho que há também quem trabalhe o dobro e não tenha sequer metade. E por vezes, o sentimento de culpa atormenta-me e faz-me perguntar se sou merecedora de tudo o que tenho.

É aí que olho por cima do ombro; procuro, por todo lado, indicadores que me digam que alguma coisa não está bem; que há-de vir por aí uma montanha enorme de sofrimento que irá pôr à prova a minha capacidade de resiliar, irá testar a minha fé nos homens e me trará à pedra todos os meus valores religiosos, vendo de que fibra são feitos.

Espero, francamente, que esse dia nunca chegue. Que a minha auto-análise, a minha transformação, seja sempre suficiente e necessária para me colocar no lado dos felizes da vida. No entanto, não sei se será. E mesmo tendo fé, nem sempre a fé me chega. Talvez não chegue, talvez não seja tão grande como eu gostaria. Para já, sou grata por tudo o que tenho. Mas não consigo deixar de andar sempre meio desconfiada da vida... 

27
Nov17

Conversas sérias

Fatia Mor

Numa das muitas viagens de carro entre a escola e casa, da Fatia#1 com a avó Fatias.

 

- Avó, a bisavó foi ter com o Jesus porque estava muito velhinha, não é?

- Sim, foi isso.

- E há medida que eu eu cresço, os meus pais estão a envelhecer.

- A avó também.

- Sabes, não gosto nada disso.

 

Custa tanto saber que eles vão ter que sair do mundo da fantasia da infância para a vida real...

21
Nov17

Fechar um ciclo

Fatia Mor

A vida é feita de clichés. Perdão. De ciclos. Equivale a dizer o mesmo, na verdade. Ainda assim, devo reconhecer que apesar da sua ordinariedade não lhes consigo ficar indiferente. Não me vacinei para a inevitabilidade de a vida nos apresentar mudança constante e que essa mudança se encerra em ciclos delimitados no tempo.

Achava que já não importava. Já saí de lá há tantos anos quanto aqueles que morei noutros sítios. Mas permaneceu sempre ali, naquele 8º andar que até hoje não me dá vertigens, quando outros o fazem estando, até, mais perto do chão.

Conheci cada canto daquela casa. Conhecia as nuances do soalho, as manhas das cortinas, a oposição específica de cada interruptor (dos novos e dos antigos). Mais do que isso, tenho memórias únicas em cada canto. Sei onde ficava a pequena árvore de natal, que os meus avós montavam, em cima de um dos bancos da mesa de apoio da sala de estar. Conheço de perto a vista da janela do meu quarto, onde vi aparecerem muitos dos prédios que hoje figuram naquela avenida. Recordo, ainda melhor, o esquentador que teimava em acender. Lembro-me de estudar na cozinha e na mesa da sala de jantar, apesar de ter uma escrivaninha no quarto que já tinha pertencido aos meus tios. Tenho impresso em mim, as horas que passei ao colo do meu avô e depois ao seu lado, a ver televisão. Desporto e notícias essencialmente, porque só havia uma televisão e toda a gente via o mesmo. 

Tinha ainda, outra particularidade. Tinha amigos. Amigos que também já saíram dali. Que cresceram, seguiram as suas vidas, mas ficaram para sempre impressos no parque. Aquele parque infantil onde brincávamos e, mais tarde, partilhávamos a vida. Achávamos que aquilo era o mais belo que poderia haver e que aquelas amizades seriam para sempre. Foram. E não foram. Mas sei agora que já não vou voltar à janela, olhar para cima e ver de onde saíam as cabeças, onde falávamos e ríamos - aos gritos - de uns andares para os outros. Não vou voltar lá, não por achar que não se volta onde fomos felizes, mas porque chegou uma nova era.

Agora, novas memórias farão parte daquelas paredes. Aqueles vidros verão novos reflexos. Aqueles soalhos encontrarão novos pés. Tudo será diferente. 

Mas o bom dos edifícios é que ficam. Ficam, mesmo que nós não fiquemos. E guardam, mesmo quando já nos esquecemos, as memórias de quando fomos felizes. E fomos muito felizes ali.

Adeus, meu querido 8º esquerdo.

Que as tuas portas se abram para um novo ciclo, enquanto eu fecho a última que me liga a ti.

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