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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

04
Fev19

O que eu quero é sentir saudades

Fatia Mor

Desde que entrei em casa que me parece que encontrei um sistema de oposição. É a televisão com o som na estratosfera; é a relutância em ouvir o que digo; são os pedidos ininterruptos de comida, de preferência carregada de açúcar e coisas que tais, às quais digo que não até à loucura, ou até que peçam uma peça de fruta. Pedem. Mas fazem-no em disco riscado, até que eu me deixe o que estou a fazer a meio e vá responder aos seus pedidos. Sou eu a levantar a voz para me fazer ouvir no meio dos gritos que endereçam uns aos outros. Para escrever este pequeno texto, até este ponto, já me levantei 5 vezes.

Tudo é uma escolha demorada: as cuecas que vão vestir depois de tomarem banho; o elástico para prender o cabelo, depois de o secar; o tipo de rabo-de-cavalo que querem. Ele ora quer ver televisão - panda style - ou quer ver exactamente a mesma coisa no meu telemóvel. A mudança de suporte electrónico é o suficiente para gerar uma birra de proporções épicas. E ainda só cheguei a casa há uma hora. Ainda falta fazer o exercício diário de leitura, preparar umas bolachas caseiras (que, num acto de insanidade, lhes prometi que fazia hoje com eles), preparar o jantar, garantir que comem tudo e que se deitam a horas decentes para crianças destas idades. (levantei-me, novamente, para ir buscar uma toalha para a mais velha, que felizmente já toma banho sozinha)

Dizem-me que vou sentir falta destes tempos. Dizem-me que é a melhor altura da vida deles e da nossa. Acredito que sim. Aliás, tenho a certeza que sim. Mas neste momento, tudo o que me apetece é sentir saudades.

10
Dez18

Há dias assim

Fatia Mor

Há dias em que, por mais que eu deseje, zango-me. Um outro lado meu controla-me, além do imaginável. 

Nesses dias, não gosto de mim. Não gosto do que sou. Não gosto deste meu lado, indomável, instintivo, incapaz. Sinto-me incapaz de conjugar o verbo amor, nestes momentos, em que toda eu sou a sua inexpressão.

Nestes dias baixo os braços. Baixo a guarda. Perco-me na imensidão da frustração, da culpa e do desaire que é a maternidade em dia-não.

Toda eu sou gritos, ameaças e chantagens involuntárias, que sabemos bem não terem qualquer fundamento, o que por si só, as reveste da pior forma possível. É ser assim, só porque sim, quando sei, até para mim, que isso é um motivo de inqualificável estupidez.

Os filhos mostram-nos o melhor de nós. E nós, tantas vezes, mostramos-lhe o pior que temos dentro. As nossas inseguranças, a nossa iliteracia emocional, aprendida, sufocada com esta camada de gente adulta que trazemos. 

Hoje chego ao fim do dia com uma certeza apenas: por pior que estejamos, as crianças têm o condão de nos abraçar no meio do choro, mostrando-nos que a voz ou a mão que fere, é a mesma onde eles procuram consolo.

E, hoje, isso dói-me. 

Hoje apenas sobrevivi a esta coisa de ser mãe. Esperam-se dias melhores!

  

15
Nov18

Higienização social

Fatia Mor

Ando aqui com isto meio desenhado na minha cabeça. O tema é polémico e noto que não é fácil falar destas questões, mas vou fazer o meu melhor.

A história da humanidade está repleta de desumanidade. Não precisamos de viajar no tempo; basta-nos viajar no espaço e encontraremos, com relativa facilidade, locais onde ainda se praticam atentados contra os direitos humanos. Há países onde a expressão individual é censurada, onde a integridade física é ameaçada numa base constante, onde a saúde é um privilégio, onde a desigualdade social é gritante e ofensiva. Sem pormenorizar, acho que todos conseguimos lembrar-nos de exemplos vivos destes reais problemas da humanidade.

Felizmente, vivemos numa sociedade global que tem modificado lenta e consistentemente os seus pressupostos, alcançando igualdade, fraternidade e liberdade. As condições de vida francamente melhores trouxeram-nos a possibilidade de dedicarmos tempo e investimento pessoal em questões que, nos contextos anteriores, nem se colocam dada a sua posição na hierarquia de necessidades e valores do homem.

A evolução social alcançada permite-nos ter uma visão complexa da vida humana, destacando-lhe as diferentes fases evolutivas, mostrando-nos quão especial e individualizado pode ser o crescimento e formação de um ser humano. 

Outra das conquistas desta evolução, do ponto de vista físico, foi a higienização. Se antes qualquer condição existencial era boa, desde que assegurasse a nossa sobrevivência, agora procuramos as medidas adequadas para vivermos em assepsia. A ligação directa entre as doenças e os microorganismos que as provocam, conduziu a um movimento que paradoxalmente poderá vir a torna-se uma ameaça à nossa vida. Assistimos, de tempos a tempos, a notícias que falam em superbactérias, bactérias multi-resistentes, mutação de vírus de formas mais benévolas para formas mais virulentas, etc. Desligamo-nos da terra, da experiência directa com o ambiente que, em conta, peso e medida, nos fornecia defesas necessárias para lidarmos com essas ameaças. E ao higienizarmos todos os espaços, demos campo a que estes microorganismos mais resistentes se desenvolvessem sem competição. 

Curiosamente, no caminho da individualização (que faz parte do nosso sistema de valores ocidentais - um dia falarei sobre isso) construímos a mesma sanitização social. A digitalização das relações tem contribuído fortemente para esse processo. A possibilidade de comunicarmos sem face, sem voz, tem permitido que as expressões de opinião se multipliquem, que o traço individualista se estruture, conduzindo uma definição categorial mais fechada. A permeabilidade do sistema de categorização social já não é, de si elevado, mas a redução dos sujeitos à sua forma mais básica, por meio da falta de contacto pessoal, permite que os efeitos de diferenciação das categorias se tornem mais prementes. É mais fácil ver quem está connosco, quem é um de nós, e quem são eles, os outros. 

Aqueles temas fracturantes, que não nos arrancariam um cabelo da cabeça, surgem nas redes sociais como sendo capazes de provocar apoplexia generalizada. Deixámos de contactar uns com os outros e isso está a minar as nossas defesas à diferença social. O nosso sistema imunológico, que usa de paciência, tolerância e bom senso, parece estar a perder-se pela falta de contacto com a diferença. Estamos a deixar-nos cair na mercê da aceitação da parte como sendo o todo, esquecendo-nos de olhar para a big picture

O contacto humano é responsável por reconhecermos no outro um ser individual. É necessário para que ultrapassemos as categorias iniciais, mais básicas, menos prototípicas, para conseguirmos aceitar as diferenças individuais e viver com elas. O discurso individualista dos valores do eu-independente também permitem que me centre nos meus desejos, nas minhas necessidades, esquecendo-me que há reciprocidade no contacto social e que esta deve ser alimentada, sob pena de perdermos a nossa humanidade.

A empatia parece ser uma conquista do ser humano, que durante séculos teve pouca tolerância à compreensão de quem é o outro (poderia trazer para aqui a parábola do bom samaritano, mas este texto é laico). Se nos primórdios da civilização os meus eram uma construção muito encerrada sobre a família e os laços de sangue, nos últimos 50 anos acreditamos que o outro é todo aquele que está na nossa aldeia global. Mas se nos voltarmos a encerrar, a perder o contacto que nos imuniza às diferenças e nos faz aceitar a humanidade como parte do meu grupo, então, estaremos a votar-nos à morte.

Paremos com a higienização social.

19
Jun18

Terapia de grupo #2

Fatia Mor

Olá, sou a Fatia Mor e estou de rastos!

 

(Olá Fatia Mor, responderão vocês!)

 

Não sei se é só de mim, se é deste tempo (ora quente, ora fresco, ora sol, ora chuva, nuvens e cinzento), se é da época, se é do ano, se é do mundial de futebol... Só sei que ando esgotada.

Adormeço que nem uma pedra no sofá e quando me mudo para a cama fico a pensar na vida e em tudo o que tenho para fazer. Concomitantemente, esqueço-me de marcações, de ler emails, de responder a solicitações. Vivo entre as coisas que tenho para fazer, as coisas que tenho para me lembrar e as coisas que efectivamente consigo fazer... E digo-vos, não é bonito!

Pelo meio, perco a paciência. Perco a paciência com os miúdos, que me parecem fazer asneiras a um ritmo vertiginoso; perco a paciência comigo por perder a paciência com eles; esqueço-me que é preciso cuidar de mim e da minha sanidade mental para os fazer felizes.

Quero muito acreditar que as férias estão ao virar do mês de julho, que agosto está já aí com tudo de bom e menos bom que traz consigo. É que por norma, ao virar de agosto está logo setembro e volta tudo ao mesmo. E pronto, irrito-me por viver em antecipação, da antecipação, num sofrimento idiota que não é necessário nos dias que correm. 

 

Alguém que me ofereça uma passagem para uma ilha paradisíaca? 

 

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (https://www.flaticon.com/).