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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

17
Abr18

Mum Code

Fatia Mor

Estão a ver aquela cena que une os machos nos filmes e séries? O chamado bro code, que no fundo é um conjunto de princípios e valores implícitos, informais, que regem a conduta dos homens uns para com os outros, especialmente no tocante às mulheres? 

Pois bem, tenho a informar-vos que, recentemente, me apercebi que há uma espécia de mum code, ou seja, um código implícito de condutas esperadas entre mães, que se cruzam na actividade constrangedora de educar os seus filhos em situações públicas. 

Estava eu no IKEA a almoçar, as benditas almôndegas; enquanto esperávamos pacientemente que o pai voltasse da interminável fila que se gera na loja daqui da zona, as crianças brincavam alegremente com os dispositivos para o efeito. Sentadas há um bocado, cada uma no seu banco, brincavam animadamente quando se aproxima uma mãe com dois filhos.

 

E é aí que começa "o" diálogo.

 

Diálogo esse, dirigido às crianças, que pretende mostrar à outra mãe que estamos solidárias com a necessidade de também ela colocar os seus filhos a brincar, enquanto lhe mostramos a extrema educação que damos aos nossos.

 

- A menina está a brincar. Quando ela acabar de brincar, podes vir brincar.

- Oh Fatia#1, deixa o menino brincar contigo que há espaço para os dois. Fatia#2 puxa esse banquinho para cá para brincarem todos.

- Não filho, não faças isso que a menina já cá estava. Temos que ser pacientes.

- Meninas, toca a partilhar. Vá, já aí estão há muito tempo. Não tarda vem a comida, venham limpar as mãos.

 

E assim continuou, num pingue-pongue de deixa-estar-vem-cá-sê-simpático e mais que seja, enquanto os miúdos olhavam para nós, claramente sem saber como corresponder àquela situação.

Foi no processo automático em que me encontrava que a minha mente começou a derivar e observar a situação, como se estivesse de fora da situação.

 

Não pude deixar de pensar que era ridículo.

 

Talvez se tivéssemos deixado as crianças, elas teriam arranjado maneira de brincarem todas juntas e nós teríamos nos agastado menos. Eu, pelo menos, teria gasto menos latim.

Mas cá está, depois não teríamos usado o código. O bendito código que diz que devemos provar às outras mães que somos preocupadas com o bem-estar de todos, que partilhamos tudo, que somos politicamente correctas, sob pena de, pelo mesmo código, sermos julgadas como más mães.

 

Sou franca, não sei quem o escreveu, mas vou começar a olhar com atenção redobrada. E vocês, reconhecem o mum code por aí?

05
Abr18

Dias há...

Fatia Mor

Dias há em que me sinto uma fraude. Em que sinto que nada do que faço está realmente sustentado. Em que tenho apanhar as bolas todas que estão no ar, à minha frente, qual palhaço de circo que quer ser malabarista. Porém, quem nasceu para ser palhaço triste, nunca chega às luzes da ribalta.

Dias há em que sinto que nada corre bem. Nada fica bem feito.

Mas depois, olho para o céu azul, para as aves que voam, para as árvores que crescem, mesmo sem saberem para o que foram feitas e que desempenham o seu trabalho sem duvidar.

O mal está na dúvida. E nestes dias, duvido muito. Duvido demasiado.

Dias há... outros virão!

22
Mar18

O segredo que trazemos em nós

Fatia Mor

Ontem, enquanto esperava pelo fim da aula de ballet da minha Fatia#1, observava o conjunto de mães à minha volta.

Normalmente, chegamos mais cedo e ficamos ali, em silêncio, encostadas às paredes, às portas, com as mãos nos bolsos, ou perdidas numa página qualquer que o telemóvel nos permite aceder. 

Por norma, são apenas mães. Por vezes, um ou outro pai, uma avó. 

Olhei à volta e tínhamos todas a mesma expressão no rosto. Um olhar perdido no infinito, de quem está a fazer listas de compras, a agendar o dia de amanhã, a considerar as tarefas que ainda faltam terminar. Parece que estamos a guardar o fio de energia que nos sobra, àquela hora do dia, para uma explosão de alegria programada para o momento em que a porta se abrir e as nossas bailarinas nos receberem com o entusiasmo habitual do fim da aula.

O ar é impávido. O olhar é de preocupação. O estado geral é de cansaço. Mas em cada uma de nós parece existir uma mola que nos acciona assim que vemos os nossos filhos, ali, prontos para nos contarem como fizeram aquele passo, o que aprenderam de novo. E saem todas de lá, sem excepção com um ar fresco, entusiasmado, surpreendido.

Quem vê de fora não percebe o esforço que está ali em causa. E a verdade é que aprendemos a mascarar, bem demais, o desgaste que este ritmo nos impõe. Mas ele está lá. No cabelo em desalinho, na roupa que talvez já não esteja nas melhores condições mas que terá que aguentar mais uma estação porque a deles está primeiro. O rosto já sem maquilhagem (será que lá esteve) mostra as rugas, as olheiras, a juventude que já teima em não se fazer notar. 

Olho para trás e dou por mim a reflectir quantas vezes a minha mãe não terá mascarado tudo isso para que eu tivesse apenas direito ao seu sorriso. Parecia tudo tão fácil para os que estavam lá para mim! Parecia que as decisões não custavam, que as preocupações não se demoravam, que a vontade deles era sempre de ferro, a determinação era capaz de mover o mundo e que o sofrimento era uma coisa dos fracos.

Olho para trás e penso em todos os sacrifícios que fazem parte do investimento que fizeram em mim e espero poder fazer o mesmo.

Este é o segredo que seguramos nos nossos lábios. Que temos nas palmas das nossas mãos, fechadas dentro dos bolsos, para que não fuja, para que os outros não o vejam. É isso que escondemos atrás de um sorriso seguro, das decisões ditadas em voz alta. 

E ali estávamos nós, à espera das nossas bailarinas, a acumular energia para mais uma vez nos surpreendermos.

02
Mar18

Quando a pessoa quer ser saudável e nos sai o tiro pela culatra

Fatia Mor

Anteontem estava um dia chuvoso e não tinha como entreter as miúdas. Cheguei a casa e apercebi-me que não havia nem uns míseros biscoitos para nos animarem o dia. Decidimos, então, que talvez fosse boa ideia atirarmos mãos à obra e fazermos alguma coisa para afiarmos o dente, que não fosse um poço de açúcar e que se parecesse com alguma coisa saudável.

Abro o frigorífico e não tinha ovos. 

Mau começo, porque normalmente, faltarem-me ingredientes não é um bom princípio para coisa alguma. 

Contudo, a internet está cheia de boas ideias. Optei por uns biscoitos que pareciam normais. Manteiga, açúcar amarelo e com pouca quantidade, farinha, leite, uma pitada de sal e, opcional, uma colher de chocolate em pó!

Vamos a isso, pensei eu.

As miúdas ajudaram ao processo, fizeram as bolas, esmagaram-nas com o garfo (eu fui ajeitando a coisa disfarçadamente) e zumba no forno.

Cheiravam bem.

Mas...

Eu devia ter suspeitado. A cor era uma bocadinho... bom, não vale a pena entrar em pormenores. O chocolate em pó ficou num castanho parecido com aquele símbolo enroladinho, com olhinhos... Do you know what I mean?

Depois, apesar de cheirarem bem, parecia que nunca mais coziam.

Lá achei que 15 minutos bastavam, tirei-os e deixo-os arrefecer.

A ausência dos ovos, originalmente em falta na receita, conferiu-lhes uma textura um tanto ou algo estranha. Parecem ser fofos demais. Aliás, acho que em termos de textura parecem-se muito com scones que ficaram apenas maus.

Mas o pior de tudo é o sabor! Sabem precisamente a farinha com manteiga. Nada mais do que isso. No fim do paladar deixam uma nota de chocolate mas é só isso.

Vale-nos que eles não são muito exigentes e comeram o seu biscoito, numa noite de trovoada e chuva, com gosto.

 

Realmente, é questão para se dizer que o que nos mata é o que nos felizes! 

São raras as receitas saudáveis que são realmente boas ou que substituem as clássicas, de forma satisfatória. Talvez seja uma questão de paladar, de exigência, não sei. Mas que é um desconsolo, ai isso é!

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (https://www.flaticon.com/).