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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

06
Mar19

Em obras

Fatia Mor

Adoro escrever. Gosto de ver as palavras a aparecer à dimensão que as formalizo na minha mente, em que faço transparecer o meu íntimo. Quando comecei este blog estava num momento de exaustão emocional, em parte pelo cansaço físico, e noutra dimensão, pelas alterações constantes à minha percepção de quem era e de quem sou. Entretanto, voaram alguns anos. Quatro para ser precisa. E muita coisa mudou. Os interesses mudaram, o tempo abandonou-me e até a capacidade para escrever tenha dado tréguas na minha fúria mental.

Hoje olho para este cantinho e não sei bem que futuro existe. Se no início era anónimo, agora só o é para os mais distraídos. Se inicialmente, quis proteger-me, agora deixo-me a descoberto por força das paixões que fui encontrando, nomeadamente na fotografia. Em nada isso alterou o que sou ou como me expresso, mas deixa-me mais desconfortável quando me criticam. Não acontece muito, mas há sempre quem não goste ou quem não seja hábil a disfarçar o seu enfado pela minha pessoa. Não podemos agradar a todos, mas já o disse aqui (mais do que uma vez), o meu maior defeito é querer reunir consensos. E esse é o primeiro passo para falhar a muitos níveis.

Acho chegou o momento de tomar decisões sobre as páginas deste blog. Não quero começar do zero. Nem quero pôr-lhe um ponto final, mas uma mudança impõe-se a bem do que ele representa para mim. 

Por isso, talvez esteja menos activa. Menos dedicada. Talvez o tenha deixado entregue ao deus-dará, como aquelas peças de roupa que não nos servem mas que insistimos em deixar penduradas num cabide, à espera que um dia tudo volte a ser como era, e elas voltem a servir. Há muito que me desfiz dessas roupas... talvez o mesmo princípio se deva aplicar aqui. Não sei, mas vamos para obras, ok?

 

25
Fev19

1, 2, & Mor (2019). A construção do Fluffy. Vida às Fatias, 1 (1). 1-2.

Fatia Mor

Introdução

Após tomar conhecimento de conceituada experiência para realizar FLUFFY (Tasty, 2019), optámos por realizar uma replicação da experiência original, com materiais portugueses, para verificar se o método empregue é o correto. É reconhecido o papel do amido de milho - vulgo maizena - nestes vídeos (e.g. Craft Panda, 2018, 2019), porém, a introdução da espuma da barba mostrou-se uma inovação cujos resultados precisam ser validados. Existem vários tipos de espuma de barba, com diversas propriedades (vide Continente ou Jumbo para verificação), contudo a experiência original não especificava qual o tipo de espuma a utilizar. Assim, foi nosso objetivo replicar o Fluffy, material branco esponjoso, algures entre o slime e a plasticina, com recurso a amido de milho e espuma da barba.

 

Método

Este estudo é empírico, transversal e de cariz exploratório.

Utilizou-se a medida de copo, padronizada, de acordo com medida conhecida no conceituado distribuidor de material de casa - Espaço Casa. A receita original sugeria a utilização, em partes iguais, de amido de milho e de espuma da barba. Colocou-se 1 copo de amido de milho, tendo a atenção de comprimir o material e garantir que não existia défice por possíveis espaços não preenchidos e mantendo o rigor de não ultrapassar a quantidade sugerida. Utilizou-se a mesma medida de espuma da barba, mostrando-se desde logo complexo atingir um valor de rigor satisfatório no que toca à medida de 1 copo.

Misturou-se tudo, primeiro com uma colher, tal como exemplificado, depois com as mãos. Amassou-se por mais de 20 minutos com desajeitado vigor, tal com demonstrado na experiência original.

 

Resultados

Obteve-se exactamente o que a mistura é: amido de milho com espuma da barba. O poder aglutinador da massa ficou aquém do esperado, que se desfazia com facilidade ao toque das mãos. Ligeiramente moldável, rapidamente voltava à composição semelhante à farinha. Neste momento, optámos por juntar mais espuma da barba, o que resultou exactamente no mesmo.

 

Conclusões

Apesar do sucesso aparente e rápido do vídeo (Tasty, 2019), que atribuímos a técnicas de edição intrincadas, o nosso Fluffy não se concretizou. Consideramos que tenha sido uma ameaça à validade interna desta experiência o tipo de espuma da barba. A utilizada referia ter um efeito suavizante que poderá ter impedido um Fluffy de qualidade.

Apesar disso, podemos retirar várias conclusões de elevado valor científico. 

A mãe estava, claramente, fora do seu juízo ao fazer isto em plena segunda-feira. 

O amido de milho continua a ser extremamente chato de limpar, enfia-se em tudo o que é buraco e acho que teremos amido de milho na cozinha até aos idos de 2030.

A quantidade de espuma da barba requerida pela experiência uma fragrância mentolada, que parece não sair das superfícies, mesmo depois de limpas, várias vezes!

De futuro, recomendamos às mães para pensarem duas vezes antes de se meterem nestas empreitadas. 

 

14
Fev19

5 actos de puro romantismo para casados no dia de S. Valentim

Fatia Mor

É dia de S. Valentim. É dia dos amorosos. É dia dos namorados. É dia dos solteiros anunciarem ao mundo que se amam muito e que esperam quem lhes encha as medidas (yeaaaaah!!!). E os casados?

Malta casada, não se acanhem! Sim, vocês que partilham a mesma cama há mais de 10 anos! Vocês que ainda ontem discutiram porque a pasta de dentes acabou e ninguém se lembrou de a comprar. Vocês que estão desesperados com os filhos, que insistem em não dormir, em fazer birras, ou simplesmente, são pequenos o suficiente para não vos deixar sair em dates!  Vamos mostrar a esta malta que hoje vai jantar fora, enquanto nós nos aninhamos nos sofás, com o nosso melhor pijama e nos deixamos dormir 5 minutos depois de escolher a série que vamos ver, que somos capazes de grandes actos românticos.

Como tal, e no caso de vos ter passado ao lado e não terem cedido ao consumismo de comprar alguma coisa inflacionada no dia de hoje, aqui ficam algumas dicas para agradar aos vossos companheiros/as.

1. Coloquem a roupa no cesto da roupa suja, quando trocarem para o traje caseiro. 

Nada deixa uma mulher mais feliz (e alguns homens) do que verem a roupa logo arrumada no sítio certo. E se quiserem uma noite de loucura, experimentem deixar logo as calças do avesso, as meias esticadas, e abram os botões dos colarinhos e das mangas! Garanto-vos, vai ser a loucura!

2. Coloquem uma cerveja a refrescar (ou algo do agrado) e ofereçam-na à cara metade quando chegar a casa.

Vai relaxar, vais estar mais no mood e com jeitinho, adormece mais tarde porque vai ter que ir à casa de banho fazer xixi mais vezes!

3. Segurem as crianças e deixem a vossa cara metade ir à casa de banho sem assistência.

Pode ser para se sentar 2 minutos na sanita ou para tomar um banho demorado, sem público a assistir. Pode ser que ela consiga fazer a depilação ou que ele apare a barba. Nunca se sabe. O céu é o limite. 

4. Encomendem comida ou abram latas.

Nada de cozinhar. Façam uma excepção e deitem os miúdos com uns cereais no bucho. Ninguém morre por um bocadinho de açúcar a mais num dia especial. E vocês, atirem-se a uma pizza que se faz sozinha no forno, que não precisa sujar loiça e economiza o esforço de arrumar a cozinha.

5. Desliguem a televisão, coloquem os telefones no silêncio, deitem as crianças e olhem demoradamente um para o outro. 

No meio da loucura que é o vosso dia-a-dia, permitam-se viajar no tempo e reencontrar os pequenos encantos que vos fizeram apaixonar-se. Conversem sobre tudo o que está esquecido debaixo do manto das preocupações, abracem-se e deixem-se estar nos braços um do outro. 

 

E pronto, FatiaMor recomenda estes 5 passos para um dia (ou noite) de S. Valentim em grande!

(se quiserem maior, façam tudo com um copo de vinho nas mãos!!)

12
Fev19

E agora - Hora do conto

Fatia Mor

E agora? - dizia ele em tom de desafio, à questão que ela lhe tinha colocado segundos antes - E agora? Que queres mais que eu faça ou diga? 

 

Aquele eu, dito de forma a separá-los trespassou-a, ferindo-a ao ponto de sentir uma dor forte no peito. Curvou-se de forma ligeira, como quem se fecha numa concha, a proteger-se do embate que antecipava no olhar frio e vazio que ele lhe dedicava.

 

Agora estava perdida. Agora teria que encontrar uma saída honrada de toda aquela embrulhada em que se tinha enfiado. Tudo está bem quando a ignorância nos assiste, mas depois de sabermos a verdade já não há como a desconhecer. E tudo acontecera tão depressa, que ela mal teve tempo para cerrar as pálpebras e invocar desconhecimento. Ou de tapar os ouvidos.

 

As palavras abandonaram-no da mesma forma que ele se preparava agora para a deixar. O quarto de hotel onde estavam tornou-se frio e ela aconchegou-se ainda mais no robe que trazia vestido, com a pele nua por baixo a sentir-se magoada ao toque do mais suave algodão.

 

Minutos antes ouvira... outra... mulher... apaixonado... sair... aceitar. Eventualmente, teria ele dito algo que intermediasse aquelas palavras, teria formado um discurso concreto. Ela só conseguiu ouvir as esparsas ideias da traição que acabava de se consumar ali à sua frente. Desde que ouvira outra, na sua mente, criavam-se imagens mentais de quem seria ela. Quem seria aquele ser belo, feminino, alto, loiro, elegante, tudo aquilo que ela não era aos seus olhos, que o fazia abandoná-la daquela forma. Quem seria ela que agora ocuparia o seu braço naquelas escapadas românticas, com quem ririam dos amores tolos que surgiam à sua volta, com quem trocariam mensagens escaldantes ao longo do dia, em antecipação do amor suado da noite.

 

Havia outra e essa outra deitava tudo a perder.

 

Depois de longos minutos de silêncio, em que ele se manteve em pé, como numa cena cliché de um filme rasca, junto à janela com um copo de whiskey na mão, ela atreveu-se a fazer a pergunta que agora lhe queimava nos lábios.

- E ela, sabe? Sabe o que vai herdar? Está preparada para o que significa estar ao teu lado? Como a vais deixar sempre para segundo plano? Como ela vai ser apenas o troféu das horas vagas? O corpo que afagas quando te fartas da tua vida burguesa? Do teu trabalho? Ela sabe que vai estar depois dos amigos, depois do golfe, depois das reuniões de negócios, das viagens? Ela sabe que vai ser a compensação e que vai ter prémios de consolação? Perfumes, jóias caras, jantares inebriantes, mas prémios de consolação, pedidos de desculpa meio amanhados porque "ontem me esqueci do teu aniversário"?

 

Toda a dor saí-lhe agora em elevados decibéis de raiva, que ecoavam pelas paredes do quarto, pelo corredor e talvez, até quem sabe, até ao átrio do hotel onde poucas horas antes tinham dado entrada. Nada disso a incomodava. Estava a debater-se para não se afogar no mar de lágrimas que lhe caíam pela cara e manchavam o robe, e que lhe sulcavam de preto as maçãs do rosto salientes e rosadas.

 

Ele deixou que ela se acalmasse e passou-lhe o whiskey para a mão, como quem a prepara para a morte. 

 

- Não vai precisar saber. Vou deixar-te a ti... E à minha mulher. Por ela. 

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (https://www.flaticon.com/).