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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

09
Nov18

Sexta carta

Fatia Mor

A tua, talvez seja uma das cartas mais difíceis de escrever. Ponderei, longamente, se deverias ter uma.

Não que não a tenhas.

Naturalmente, tens o teu tempo e ocupas parte do meu discurso interno, da minha definição pessoal. Aliás, houve um tempo em que o meu mundo revolucionava em torno de ti. E seria ingrata se dissesse que não foste um dos homens mais importantes da minha vida. Foste e serás sempre o meu primeiro grande amor. E dizem que esse, nunca se esquece. Mesmo quando acaba.

Dizem que há lugares que não devem ser visitados sob pena de se tornarem comuns e, como tal, tenho receio que esta carta se torne uma banalização mal interpretada, à luz da psicologia de algibeira. 

Vou tentar ir além de todos os clichés que possam existir no campo do primeiro grande amor. E mesmo que eu resistisse  por isso, em colocá-la no mundo, esta análise interior só faria sentido com esta missiva. 

 

Posso fechar os olhos e ainda consigo sentir os instantes que antecederam o big-bang. Para mim, foi o começo de tudo. O coração acelerado pela decisão, tomada momentos antes, do que viriam a ser os próximos 7 anos da minha vida. O medo, misturado com uma alegria imensa, de termos arriscado perdermo-nos um no outro. 

Acho que havia uma certa inevitabilidade nisso. Porém, disseste-me, algumas vezes, que o tempo tinha sido o errado. Talvez, noutra altura, a história tivesse sido diferente. Demorei tempo a perceber-te, para que agora possa discordar.

Digo-te que, provavelmente, não teria sido. Há momentos que só fazem sentido no instante temporal em que ocorrem. Noutra altura, mais tarde, com outra maturidade, olhar-nos-íamos de forma diferente. O contexto seria diferente. A forma de sermos seria diferente. E, provavelmente, seguiríamos os nossos caminhos, em paralelo.

Por isso, ainda bem que foi naquele dia. Ainda bem que foi com aquela idade. Ainda bem que foi contigo, o meu melhor amigo, aquele amor que veio disfarçado de amizade.

 

Devo-te muito. Devo-te parte de mim. Contigo aprendi como o amor se transforma com o tempo. E infelizmente, também aprendi que por vezes, a evolução é sinónimo de extinção. 

 

Sei que te fiz sofrer.

 

Também sofri. Sofri, durante demasiado tempo, ao saber que já não tínhamos mais estrada para fazermos; mas continuei a palmilhar o mesmo asfalto, até ao seu desgaste. Acho que tu também sabias. Simplesmente, não quisemos ver ou antecipar. 

Podia estar aqui a arranjar desculpas. Foi a distância, foi o tempo, foi outro amor. Não foi. Não foi nada disso. Sei que não acreditas nisso. Nunca tivemos oportunidade de falar muito sobre isso ou, quando tivemos, já não fazia sentido. Esgotámos o caminho, não soubemos transformar o amor juvenil num amor de adultos. Eu, pelo menos, não soube. Vejo-o agora. 

 

Há amores que não se esquecem. O teu é, por inerência pueril, o mais inesquecível. Há um tempo antes de ti e depois de ti, sem prejuízo de um em detrimento do outro. 

 

Obrigada por me teres mostrado que podia haver quem me amasse ao ponto de me querer salvar. Tu sabes do que falo. E há um mundo que, gire este por onde girar, há-de ser só nosso.

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