Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

08
Jan18

Sermos gratos e não desconfiados

Fatia Mor

Lá diz o ditado popular que quando a esmola é demais, o santo desconfia.

 

Não sei bem se os santos estão em posição de desconfiar do que quer que seja, nos dias que correm que me parecem ser de crise no ramo religioso, mas eu sinto-me uma eterna desconfiada da vida.

Sou uma optimista-com-um-bracinho-a-atirar-para-o-pessimismo! O que quero dizer com isto? Quando tudo corre mal tendo a ter uma visão prática, orientada para a solução, sem me deter muito tempo nos aspectos negativos do que estou a viver. E confesso, com alguma rapidez que até a mim me deixa desconfortável, enfio tudo para trás das costas, afasto os pensamentos menos bons e sigo em frente, esquecida do que passou. Posso deitar-me durante uns segundos ao desespero, mas refaço-me depressa.

 

Mas quando tudo está calmo ando sempre a olhar por cima do ombro. É como se sentisse que, mediante a tragédia das vidas humanas que há à minha volta (e no resto do mundo), acreditar que sou uma bafejada pela coerência, pela calma e pela estabilidade, seja demasiado para o aceitar pacificamente. No fundo, sinto sempre que tudo o que acontece aos outros podia, a qualquer instante, estar a acontecer-me a mim. 

Não sei se é a desvalorização de alguns aspectos menos bons da minha vida - que simplesmente não encaro de forma negativa - ou se se deve apenas à minha capacidade de achar que as coisas boas que me acontecem são fruto do meu esforço e do meu empenho e, portanto, acreditar que consigo sempre dar a volta a tudo... Não sei. Mas também sei que tenho um pensamento mágico que me acompanha sempre de que a sorte existe e está cá para nos trazer coisas boas, que nem sempre dependi do meu esforço, ou sequer da minha capacidade de prever as consequências dos meus passos. Aos 35 (e meio) acho que sou mais inconsciente e pouco elaborada nos planos que faço, do que aquilo que gostaria de acreditar.

Sei que trabalhei muito para ter o que tenho, mas acho que há também quem trabalhe o dobro e não tenha sequer metade. E por vezes, o sentimento de culpa atormenta-me e faz-me perguntar se sou merecedora de tudo o que tenho.

É aí que olho por cima do ombro; procuro, por todo lado, indicadores que me digam que alguma coisa não está bem; que há-de vir por aí uma montanha enorme de sofrimento que irá pôr à prova a minha capacidade de resiliar, irá testar a minha fé nos homens e me trará à pedra todos os meus valores religiosos, vendo de que fibra são feitos.

Espero, francamente, que esse dia nunca chegue. Que a minha auto-análise, a minha transformação, seja sempre suficiente e necessária para me colocar no lado dos felizes da vida. No entanto, não sei se será. E mesmo tendo fé, nem sempre a fé me chega. Talvez não chegue, talvez não seja tão grande como eu gostaria. Para já, sou grata por tudo o que tenho. Mas não consigo deixar de andar sempre meio desconfiada da vida... 

12 comentários

Comentar post

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais sobre a FatiaMor

foto do autor

Fatias antigas

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

Créditos

Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (https://www.flaticon.com/).