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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Seg | 25.01.21

Será possível não falar disto?

20/2021

Fatia Mor

Fomos às urnas. 

Voto mesmo à porta de casa. O dia estava ameno, soalheiro, convidativo a uma saída, apesar de não podermos (devermos). O confinamento nunca seria um motivo, para mim, para não ir às urnas. Desde que pude votar pela primeira vez que me desloco às urnas, a não ser que exista um motivo impeditivo de força maior. Acho que nunca existiu. 

Todos estavam de máscara, a fila de entrada na escola avançou depressa. Cada pessoa trazia na mão a sua caneta. E o seu telemóvel. Deixei o meu em casa. Cada vez mais gosto de sair sem esse aparelho atrás. Sinto-me como se fosse uma rebelde, quando o faço. Mais independente, sentimento que preciso para votar.

Depois de me adentrar, a minha secção estava vazia. Foi chegar, receber o boletim, colocar uma cruz num papel (com a minha própria caneta) e seguir as setas para o exterior. Em 15 minutos tinha esse papel cívico cumprido.

Faço-o sempre sem ideologia política firmada. Não tenho preferências de esquerda ou de direita, não me identifico com nenhum partido político em geral, ainda que vote sempre em consciência. Não preciso de assumir votos. Preciso apenas de sentir que contribuí para a decisão mais importante do meu país, aquele que faz parte da minha identidade, que me define junto de outros, que me assemelha a uns, que me distingue de outros.

Fico sempre sensibilizada com os números da abstenção em Portugal, por isso mesmo. Vivíamos numa ditadura há menos de 50 anos. Não preciso sequer de falar da diferença abissal que existia entre os direitos dos homens e das mulheres, enquanto cidadãos de um estado de direito. Ou da expressão de preferências ou orientações. 

Foi o ato democrático que permitiu que muitos de nós tivéssemos voz, neste país. E se tal não quer dizer que ainda não exista um trabalho social enorme para fazer, também quer dizer que há muito que já percorremos, precisamente pelo modelo político que temos.

Onde ficou, então, a percepção de que importamos neste processo? Onde fica a nossa identidade, enquanto país, quando escolhemos aqueles que vão representar-nos aquém e além fronteiras?

Será que o facto de não gostarmos de nenhum é motivo para nos colocarmos à margem? É essa uma forma de protesto, silenciosa, insidiosa, que um dia poderá ditar o fim da democracia? É que precisamos de cuidar dos direitos que temos, sob pena de alienação futura. 

Não sou de direito, nada entendo de constituição, nada percebo de política. Mas entendo de gente. Entendo de comportamento. Se a rebeldia do ato incumprido demonstra que estamos na era adolescente de um povo que já foi velho, tal preocupa-me se vamos no caminho inverso do desenvolvimento, no processo de nos tornarmos crianças. É que a capacidade de decisão de uma criança é inferior ao seu tamanho e nunca sabemos quando um pai austero nos vem endurecer o discurso, retirar-nos regalias e dizer que bem do crescimento é necessário "amor duro".

Acho que para bom entendedor...

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