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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

05
Out18

Segunda carta

Fatia Mor

O papel passou pelas pequenas mãos ágeis, de carteira em carteira, até me cair silenciosamente no colo. Veio da primeira fila, terceira carteira a contar da frente e estava finamente dobrado em quatro. Quando o abri, escrito a caneta preta, estava uma pergunta singela. 

"Queres namorar comigo?", seguido de um sim e de um não, com um quadradinho mal amanhado que antecipava a possibilidade de resposta. Senti o rubor a subir por mim acima, enquanto tentava esconder o papel no bolso (seria uma saia?) para que o meu colega de carteira não o visse. Certamente, seria motivo de chacota mal ele se apercebesse do que me tinhas enviado.

Quanto ao rubor, ao calor nas bochechas, misturei vergonha com raiva. Por um lado, senti-me capaz de explodir de alegria. Por outro lado, quem é que aviltava assim, com um pedido desses. Olhei discretamente para perceber quem mo enviava e aí, sentado, com um sorriso no rosto, na terceira carteira, a contar da frente, da primeira fila, lá estavas tu.
Quando os nossos olhares se cruzaram baixaste os olhos, envergonhado. Talvez naquele momento te tenhas arrependido do enorme gesto romântico que acabavas de realizar. Ou talvez estivesses apenas a disfarçar, para que não fôssemos apanhados na transgressão das regras faladas da nossa sala de aula. Sei que nossa querida professora fazia-se desentendida, muitas vezes, dos papéis que voavam por baixo dos tampos das carteiras, permitindo-nos ensaiar o amor no seu estado mais puro.

No intervalo, na expectativa pueril, vieste ter comigo e segredaste-me "já sabes?". Querias uma resposta e era merecida, depois daquele acto de coragem. Mas essa faltou-me a mim. Rugi-te um "odeio-te!" quando o que te queria dizer era que te procurava sempre para brincarmos no recreio porque achava graça ao sinal que tinhas por cima do lábio. Eras dos poucos rapazes que não levantavas as saias das meninas, que tinhas alguma paciência para as nossas brincadeiras pouco interessantes e que dispensavas jogar à bola para ficar a conversar connosco. 

Arrependi-me amargamente do impulso irracional que me assaltou naquele momento. A vergonha toldou-me as palavras. A inocência dos 7 ou 8 anos, já não sei precisar, foi substituída pela arrogância que às vezes me caracteriza e que mascara as basilares inseguranças que ostento. Tive medo de dizer que sim e que depois me rejeitasses e, como tal, adiantei-me. 

Encarei-te depois, todos os dias da minha vida, até que desapareceste para nunca mais saber de ti. A vida assim quis. Mas arrependo-me de nunca ter dado a possibilidade de ensaiar o amor infantil, sincero e inocente que procuravas em mim. 

A ti, que me ensinaste que era possível que alguém me quisesse a seu lado, nem que fosse para dar as mãos no recreio, obrigada. Quem sabe, um dia, a vida ainda te encontre para te pedir desculpa.

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