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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

07
Nov18

Quinta carta

Fatia Mor

Olá, tudo bem? - poderia começar esta carta de uma forma informal. Alturas houve em que nos cruzávamos em base diária. Mas há muito tempo que a vida nos levou por caminhos separados. A familiaridade já se perdeu; mas quero que saibas que te guardo nos inesquecíveis momentos da minha vida adolescente, quando a vida passava devagar e o maior dos problemas era onde haveríamos de gastar tantos dias de férias.

Sei que não sabes que falo de ti, porque nunca disse a ninguém o quanto te devotei. Foste um dos muitos amores não correspondidos que tinha o condão de escolher para mim. 

Em relação aos outros, ouvi de tudo. Que escolhia "acima das minhas possibilidades" para não ter que enfrentar a possibilidade de um retorno. Ou então, que não sabia gostar quem gostava de mim. Azar dos azares, os que de mim gostaram, nunca os ouvi. Sofriam do mesmo mal, certamente, que eu também trazia na fibras da alma. Também ouvi que "afastava os rapazes porque era demasiado inteligente", seja lá isso o que for. Por isso, quando o amor me atacou, por ti, fiquei em silêncio.

Eras diferente do resto dos rapazes. Mais calmo, mais ponderado. E agora, vem a revelação, para quem nos conheceu. Havia em ti um silêncio que me atraía. O teu sentido de família. O teu cabelo meio à tigela. As pequenas conversas que trocávamos à janela, despropositadas e tão certas. Nunca te disse porque sempre senti que nunca te mereci. Nunca o confessei a mais ninguém porque não queria ouvir novamente que estava a amar acima das minhas possibilidades. No amor não há acima, nem abaixo. Há, apenas, amor. E é algo que quero que os meus filhos aprendam. Todas as pessoas são passíveis de amar, todos devemos amar quem o coração mandar.

Por isso, amei-te nos silêncios das palavras não ditas, nos duplos sentidos e à distância segura de quem tem vergonha do que sente. Deixei que o amor cozesse em lume brando, que se evaporasse no calor dos dias e que chegasse ao fim, sem constrangimentos nenhuns. Não deixou arrependimentos. Há amores que são apenas isso. Amores. Que nos fazem crescer emocionalmente, que nos amadurecem por dentro e nos fazem dizer "da próxima vez, arrisco".

Por isso, obrigada por teres existido, mesmo que no meu coração silenciado. E mesmo sabendo que nunca saberás desta carta, obrigada pelo entendimento de que todos temos o direito de amar.

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