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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qua | 16.12.15

Quem conta um conto #8 - À tua espera - O fim

Fatia Mor

Não sou supersticiosa, mas parece-me que o número 13 é o número adequado para dar um fim belíssimo a esta história com tantos contornos de azar. Assim, para quem ainda não conhece as doze partes anteriores, aqui ficam os links para poder ler tudo de seguida.

 

Mula e Língua Afiada foi um prazer escrever com vocês!

 

E agora, eis chegada a hora... Toque-se o requiem por esta bela história de amor que está para terminar... Ou será começar?

 

 

Por momentos, Ísis achou que estava a ser traída pelos seus sentidos. Quando fez a mala para sair da casa que partilhava com o Ricardo, trouxera ao de cima toda a bagagem que ocultara ao longo destes anos todos. As emoções estavam, por isso, à flor da pele. Havia um nervosismo constante a percorrer-lhe o corpo, que tanto a deixava entorpecida, por todas as decisões que tinha tomado impulsivamente, como a seguir se sentia energizada e capaz de conquistar o mundo novamente.

Quando ao olhar pela janela do comboio viu aquele contorno que lhe era tão familiar, que acalentara na memória durante tantos anos como a imagem idílica da perfeição, não quis acreditar no que estava a ver. O seu lado mais racional não foi capaz de combater o crescente bater do coração, descontrolado.

À medida que a imagem se ia tornando mais nítida, dentro de si começavam a surgir os medos, os anseios, as dúvidas...

Tinha abandonado o seu marido. O pai do seu filho. Sim, Dinis era filho de Ricardo... Quando lera o resultado naquele exame, sentira uma alegria entristecida. Apesar de ter ficado feliz por saber que Dinis chamava pai ao homem certo, acalentara no seu íntimo a ideia de que o menino poderia ser filho do André. Contudo, isso não se tinha verificado.

Até hoje não sabia bem porque não tinha dado a Ricardo a felicidade de se saber pai autêntico do Dinis. Ponderava nessa decisão a desilusão que sentira com a sua própria intuição, a teimosia que se tornara uma característica definidora da personalidade ou até por algum receio que ao dissipar-se a dúvida, se disturbasse o equilíbrio que tinham alcançado ao longo dos anos.

Fosse qual fosse o motivo, ele agora saberia-o quando lesse a carta que ela lhe tinha deixado. Reconhecia para si que talvez tivesse sido uma saída um tanto ou quanto dramática, mas provavelmente só assim ele compreenderia que na vida deles só tinha existido isso mesmo - drama - e que era necessário colocar um ponto final em tudo e recomeçar. Ela merecia ser feliz. E ele, Ricardo, também. Ele merecia alguém que o fizesse feliz e que não tivesse sempre uma cobrança encoberta em todas as palavras e em todos os actos.

O comboio estava quase a parar na estação e as suas preocupações voltaram-se para aspectos mais mundanos. Tinham-se passado muitos anos desde a última vez que se tinham cruzado. André parecia-lhe perfeito! A idade tinha-lhe conferido uma aura mística. As cãs não lhe davam um aspecto envelhecido, mas antes um ar confiante e maduro que ela não lhe conhecia. Sabia que tinha crescido imenso enquanto director da galeria. Seguia com atenção a informação que ia obtendo através das novas redes sociais... Estava um pouco mais forte, mas ficava-lhe bem. E ela... Será que ela estaria bem? O tempo, a amargura e as lágrimas tinham deixado os seus sulcos, apesar de manter a jovialidade. Não se podia dizer que fosse uma mulher desinteressante... Mantinha o seu porte altivo e elegante, os cabelos longos perfeitamente cuidados, e trazia sempre uma maquilhagem suave que fazia com que enganasse muitos na sua idade e passasse muitas vezes por irmã mais velha do seu próprio filho. Mas será que ele a veria assim? Ou será que olharia para ela e veria a mulher que não teve coragem de ir atrás dele? Incapaz de defender a sua própria felicidade? Que poderia ter optado por não casar, naquele dia, com o homem que tomou de assalto a sua vida e a raptou das suas decisões... Se ele próprio se tinha exposto, se tinha colocado na posição de ser odiado por uma família inteira apenas por ela? 

Nesse instante em que o comboio parou o seu sorriso já se desvanecera... Era altura de sair do comboio, que tanta segurança lhe transmitia, e encarar o passado. Será que havia um futuro ali, para eles?

*

André viu o comboio parar à sua frente, como todos os outros que por ali tinham passado. Vinha praticamente vazio, portanto, notou quando o vulto loiro se levantou. Aquele porte, aquele andar fizeram-no recuar 19 anos, novamente. Parecia-lhe mesmo que Ísis estava naquele comboio. 

Sentiu o misto de emoções que aquela memória sempre lhe causava. Um misto de paixão com dor. Refugira-se tantas vezes no seu amor que ele ganhara contornos de conto de fadas com um final infeliz. O grande amor incumprido deixava-o sempre com um amargo de boca, que fora incapaz de ultrapassar, apesar de muitas mulheres terem passado pelos seus braços e pela sua cama. Nenhuma lhe encaixava como Ísis.

Não raras vezes dera por si a pensar se a imagem da Ísis que ele acalentava era apenas uma construção na sua mente. Se na verdade, até, ela existira assim, perfeita, imaculada. Porque sempre que pensava no rumo da história e na Ísis que emoldurara na sua memória, ambas pareciam incompatíveis. Passara por períodos de grande raiva, de desejar que o casamento com Ricardo acabasse e ele pudesse em acto contínuo rejeitá-la. Assim que esse pensamento se formava, penitenciava-se. Ele é que não fora capaz de por um ponto final em tudo... Ele é que a abandonara para ficar com a Maria. Ele é que não percebera que a felicidade deles deveria ter sido uma prioridade. Tudo se poderia ter articulado... A sua honradez boicotara-o... Teria valido a pena? 

As portas do comboio cederam à força dos passageiros que procuravam sair e entrar nas suas rotinas e caminhos. 

Envolto nas suas questões pessoais e com um semblante carregado, viu as suas suspeitas confirmarem-se. Era Ísis que saía naquele momento do comboio e que o olhava fixamente, tentando captar-lhe no olhar a sua disposição e o seu pensamento...

Sentiu o chão a fugir-lhe dos pés... Um calor intenso percorreu-lhe o corpo que pulsava a cada movimento dela. As pernas fraquejaram mas ele manteve-se firme, sem mostrar as emoções todas que o invadiam naquela forma física, e que lhe toldavam o pensamento. 

Era chegado o momento de enfrentar o passado e ele não sabia o que lhe estava reservado...

*

Ricardo voltara mais cedo da sua viagem de negócios. A traição nunca lhe assentara bem. Sentira-se mal por estar a trair Ísis desta forma, mas sentia que não lhe era deixada qualquer alternativa. As suas recusas constantes tinham-no aproximado da Sofia, que também procurava reerguer-se de um divórcio sofrido do qual tinham resultado dois filhos em em guarda partilhada e muitas dívidas. O resto é história... As viagens que constantemente realizam juntos, proporcionaram o leito infiel e eles aproveitavam os momentos para falarem dos respectivos, enquanto saravam os males do corpo.

Chegara a casa com vontade de refazer a sua vida... Não valia a pena continuar naquele regime de guerra fria, que estava instalado há anos. Estava na altura de reconquistar Ísis. Havia ainda tanto por fazer e eles podiam aproveitar a saída do Dinis para a Califórnia, para fazerem um tour pela América. Podia perfeitamente tirar um mês de férias e passear com a sua mulher...

Quando entrou, estranhou o silêncio. Dada a hora, achou que Ísis já dormia. Subiu ao quarto da casa de estilo vitoriano para se deparar com uma cama vazia. Assim que os olhos se habituaram à escuridão apercebeu-se que faltavam vários objectos pessoais da Ísis no quarto. Até o perfume dela que normalmente se notava de forma hábil no ar (ela perfumava as almofadas), estava desvanecido, indicativo de que talvez já tivesse saído há alguns dias.

Correu escada abaixo, até à entrada, onde se recordava de ter visto um envelope branco na mesa de apoio, onde pousara as chaves, a carteira e o telemóvel. Pegou no envelope a antecipar o seu conteúdo. O ar gelava à sua volta, dando a respectiva gravidade ao momento. Abriu o envelope e desdobrou a folha com o aroma de Ísis...

 

Ricardo,

Não vale a pena continuarmos a sofrer na tentativa de erguer um amor que nunca existiu... Tu não me amas. Há algo na tua forma de gostar de mim que não é amor... Quando amamos alguém não o subjugamos às nossas decisões, pelo contrário, damos-lhe liberdade para que nos escolha. E eu nunca te escolhi Ricardo. Tu foste uma decisão que tu me impuseste. 

Eu não pude ripostar. Ou talvez não tenha sabido fazê-lo. Isso fez com que eu ressentisse cada momento que passei ao teu lado. Que não pudesse saborear, respeitar, tudo aquilo que tu me davas.

Há apenas uma alegria a retirar disto tudo - o Dinis - o nosso filho! Há uns anos, incapaz de viver com a dúvida, pedi o exame ao médico de família. O Dinis é nosso filho. 

Aproveita esta liberdade que te dou Ricardo. Não preciso de ti, nem tu de mim... Somos apenas seres que viveram paralelamente, sem se saberem amar.

 

Até sempre,

Ísis

 

 

Ricardo leu e releu a carta. À medida que ia lendo sentiu uma calma a inundar-lhe o espírito. Não havia nada a fazer. Ísis tinha partido para ser feliz. E ele devia fazer o mesmo.

Subiu, abriu o computador, enviou um email a marcar um mês de férias e comprou um bilhete de avião para ir visitar o seu filho. Esse pensamento fê-lo sorrir... Ia visitar o seu filho. E ia ser feliz assim. Sem ela.

 

*

Isabel estava sentada na estação a aguardar pelo comboio regional, que a levaria a casa. Aquela estação é, por norma, pouco frequentada e ela entretém-se sempre, nos 40 minutos que tem de espera, em tentar adivinhar a história das pessoas que passam por aquelas paragens.

Hoje tem à sua frente um casal que nunca viu por aquelas bandas.

Ela saiu, com um misto de vergonha e de alegria, do comboio que vinha de Lisboa. Via-se que era uma mulher com trinta e muitos anos, talvez quarenta, ou até talvez não. Tinha um ar jovem... Ele claramente um quarentão charmoso, mas focado na sua própria vida. Estivera ali sentado, sem desviar o olhar da linha, com um semblante triste, desde que Isabel tinha chegado. Mas quem ele esperava parecia ter chegado no comboio.

Isabel viu-os aproximarem-se e a trocarem breves palavras. Tinha a certeza que disseram amo-te. Provavelmente eram casados. Pareciam casal muito apaixonado, pela forma como se olhavam nos olhos, como agarraram nas suas mãos, e como entrelaçaram os dedos, num suspiro perdido. Isabel não pode deixar de invejar um amor assim, tão maduro. Só podiam ser um casal que se ama há imenso tempo... 

Não conseguia desviar o olhar, mas ninguém se parecia importar com isso. Nenhum dos dois parecia reparar, sequer, que haviam mais pessoas na plataforma. O que faria com que aquele reencontro fosse tão sentido? E que estavam eles a dizer um ao outro? Notava-se que ele chorava. Ela passara a mão suavemente na sua face para lhe limpar as lágrimas e beijara-lhe o rosto onde estas tinham passado. As mulheres são sempre as que se aguentam nestas coisas - pensou para si mesma... Mas a cena era belíssima e inspiradora! 

No momento em que os lábios dela tocaram a face dele, ambos pareceram rejuvenescer. Isabel estava maravilhada com a transformação que se operava naquele casal.

Viu-o segurar-lhe docemente no queixo e encostar os seus lábios aos dela, num beijo que terá durado uma eternidade. Isabel, romântica convicta, não conteve uma lágrima emotiva. Quem me dera ter um dia uma história assim... - pensou, enquanto os via a sair, abraçados, da estação.

Quando voltou a desviar o olhar para a linha, viu do outro lado da plataforma, um rapaz com quem se cruza todos os dias. Rapidamente se esqueceu do casal enamorado que momentos antes a emocionara e compôs-se... Trocaram um sorriso tímido, como faziam todos os dias, antes de Isabel entrar no comboio que a levaria a casa.

 

Fim.

 

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