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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 10.12.15

Quem conta um conto #8 - À tua espera - Parte X

Fatia Mor

Se há, eventualmente, alguém que ainda não siga a telenovela da Sapo, aqui ficam os últimos capítulos...

 *

Ísis não sabia o que responder a Ricardo... Ele voltou a repetir a questão.

Diz-me por favor eu irei ser tio ou irei ser pai? Diz-me por favor! Não me deixes nesta ansiedade maluca.

 

O médico entrou nesse preciso momento para avaliar o estado de saúde de Ísis e da criança, e pediu a Ricardo para sair do quarto. 

Salva pelo médico - pensou ela, enquanto esboçava um sorriso forçado a Ricardo, como quem tenta tranquilizá-lo.

A verdade é que nem ela sabia bem o que lhe responder. Essa mesma questão queimava-a por dentro há uns meses.

No primeiro trimestre, com tudo o que acontecera e a mudança para Londres, tinha optado por evitar a questão na sua mente. Acalentara a ideia infantil de que seria filho do André.

Só na consulta do segundo trimestre, quando a médica lhe perguntou a data da última menstruação para fazer os cálculos habituais, é que Íris começara a fazer os seus. A realidade acertou-a como um balde de água fria!

Não usara protecção com nenhum dos dois. A pílula falhara, evidentemente, no dia em que tivera uma gastrite ligeira e andara uns tempos sem aguentar nada no estômago.

A consulta passou-a a esforçar-se por tomar atenção ao Inglês carregado da médica enquanto a mente deambulava sobre quando se poderia ter dado a concepção. Qualquer um podia ser o pai! Tinha sido tudo tão rápido, tão precipitado, que ambos tinham uma hipótese de serem os pais da criança.

Desde esse dia que Íris tentava encontrar uma solução para o seu problema. E até tinha encontrado. Tinha decidido registar o seu filho sem nome de pai, mesmo que tivesse que ir para a justiça. Diria que tinha sido uma relação ocasional, que estava alterada quando tudo se deu, que não ficara com um contacto, não sabia quem era a pessoa, nem havia quem o conhecesse. Depois criaria a criança sozinha. 

Esse plano era perfeito, até ao momento em que deu de caras com Ricardo... Como é que ela, uma mulher inteligente, achava que iria conseguir guardar este segredo para sempre? No momento em que os pais soubessem iriam contar ao Ricardo. Ou mesmo quando fosse a Portugal, a probabilidade de alguém somar 2 + 2 era elevada! 

 

You're in labour! - As palavras do médico arrancaram-na do pensamento viciado em que estava envolvida... Em trabalho de parto? Como é que é possível? Ainda faltam 3 semanas... Mas não havia muito a pensar agora. Aquela criança ia nascer. A enfermeira, por um acaso portuguesa, perguntou-lhe se queria que chamasse o pai da criança para a acompanhar no processo. Ísis tinha que tomar uma decisão rapidamente. Não podia deixar Ricardo ali à espera, eternamente.

 

Enquanto eram tomadas algumas diligências, como ligar para a Emily para lhe trazer a mala da maternidade que ainda estava em casa, optou por chamar o Ricardo.

Senta-te, por favor! - pediu-lhe ela em tom de súplica. Ele obedeceu maquinalmente, sentando-se no cadeirão do quarto da maternidade.

Eu... respirou para ganhar coragem. Eu não sei se este filho é teu. O silêncio fez-se pesado naquela sala exígua e colorida. O ar de gravidade deles contrastava com as paredes alegremente enfeitadas, a condizer com a alegria de trazer um filho ao mundo.

Eu não sei se o Dinis é teu filho ou filho do André. Estou farta de fazer contas, mas pode ser de qualquer um dos dois. 

Ricardo permanecia em silêncio mas sentia-se a fervilhar por dentro. Os sentimentos de revolta, angústia afloraram-lhe novamente à pele e sentiu-se, outra vez, parado à porta de casa da Ísis, ao ver o seu irmão a beijar a sua namorada. A sensação de estranheza, de incredulidade, redundaram. Ele sentia-se duplamente traído. Levantou-se num impulso, tentando dissipar a energia que se acumulava. Os seus princípios e educação falaram mais alto e restringiam-lhe os movimentos, as intenções e o tom de voz. Tentou ser o mais eloquente possível quando lhe disse:

Vamos preocupar-nos que tudo corra bem com o nascimento do Dinis e depois pensamos no resto. Gosto muito do nome. 

 

Ísis sentiu-se abençoada naquele momento, por ele ter decidido, por si mesmo ficar, sem que ela tivesse que lho pedir. As dores começavam a surgir levemente e a coisa adivinhava-se complicada de gerir sem uma cara familiar. Numa tentativa de fazer encher o tempo, Ísis pediu a Ricardo a pusesse a par das novidades de Portugal...

 

*

 

Faça força, Ísis, isso, não desista! Respire! Isso! Força! Está quase... - a enfermeira incentivava Ísis na sua língua materna, algo que ela lhe agradecia intimamente. Naquele momento, achou que seria impossível compreender qualquer outra língua que não fosse a dela. 

Ricardo permanecia ao seu lado, dando-lhe a mão, e olhando para ela com um misto de preocupação e raiva. 

Está quase Ísis, mais um puxão e... já está! - um som agudo começou a ouvir-se em acto contínuo. O Dinis tinha nascido. Ísis recostou-se, transpirada e assoberbada com o esforço físico e mental que tinha acabado de desenvolver... Olhou para o filho que o médico carregava nas mãos, enquanto preparavam o cordão para o corte. 

Pai, quer cortar o cordão? - perguntou a enfermeira ao Ricardo, enquanto lhe estendia a tesoura. 

 

No meio da situação, viu-se obrigado a aceitar. Ísis observava a situação incrédula. Sentia-se a pairar sobre aquela cena, com uma ligeira sensação de estranheza relativa ao seu próprio corpo e mente. Ricardo olhava embevecido para o Dinis. Sentia-se claramente que naquele momento tinha nascido uma paixão para a vida. Mas Ísis continuava a sentir-se cada vez mais alheada à situação e menos consciente de si. 

Só quando começou a ver mais pessoal médico a entrar no quarto e a retirarem o Ricardo e o Dinis do quarto, Ísis começou a temer pela própria vida. Apercebeu-se que se passava qualquer coisa, que tinha perdido muito sangue e que a hemorragia não parava. Foi levada para os cuidados intermédios para ser monitorizada, sem saber nada do que se passaria a seguir.

 

*

 

Ricardo ficou sozinho com um bebé, do qual não conhecia a existência horas antes. A raiva dera lugar a uma enorme ternura e carinho, que o fazia quase suspirar quando olhava para o Dinis, que dormia tranquilamente no berço. 

Por momentos, pensava em como Ísis tinha sido capaz de levar aquela gravidez a termo sem informar ninguém da existência da mesma. Nesse momento, sentia-se capaz de a abandonar ali, deixá-la sozinha a passar por tudo aquilo. Mas logo a imagem tranquilizadora de Dinis o refreava. Afinal, ela tinha-se afastado para evitar a vergonha e a humilhação de abandonar um irmão pelo outro e logo em seguida, ser abandonada pelo André. Ela já tinha sofrido o suficiente e principalmente, o Dinis, nada tinha a ver com esta história. Esta criança merecia um pai, uma referência, alguém que o ajudasse a aprender a andar de bicicleta, que o pusesse na linha quando fosse preciso, que o ajudasse nos trabalhos de casa. Pai ou tio, Ricardo assumiu perante si mesmo, ser a figura paterna daquela criança.

Pegou no telefone, digitou o número e esperou que atendessem.

Estou mãe? Sim, está tudo bem comigo. Sim ainda estou em Londres. Estou a ligar para te dar uma novidade, mas primeiro preciso que te sentes... Sim, é boa, senta-te!

 

Sou pai!

 

 

(continua)

 

Menina Mula, ainda não foi desta que estas criaturas viram o fim à meada... Quando terminará este triângulo amoroso? E o que acontecerá a Ísis? Quem será realmente o pai da criança? E onde estará o André?

Não percam o próximo episódio!

 

 

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