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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 27.11.15

Quem conta um conto #8 - À tua espera - Parte IV

Fatia Mor

Alguém achou que eu seria capaz de dar continuidade a este conto... Estavam claramente loucas. Mas vamos lá isso.

Mas se ainda não sabem do que está em causa, podem ler as outras partes aqui:

Quem conta um conto #8 - À tua espera  - Parte I

Quem conta um conto #8 - À tua espera  - Parte II

Quem conta um conto #8 - À tua espera  - Parte III

 

 

Passaram-se cinco semanas desde aquele fatídico dia.

Desde então, Ísis tinha a sensação que só tinha chorado. Parecia que ainda os podia ver ali, na entrada da casa dela, naquela manhã, qual Caim e Abel a disputarem-na. Sempre que fechava os olhos sentia-se a reviver a situação na íntegra. 

Depois daquele soco inesperado do Ricardo, André tinha ficado caído no chão, sem ripostar. Ricardo olhou para ela incrédulo. Os olhos dele suplicavam-lhe por uma explicação... Porque é que o irmão dele estava ali? Porque é que ele a beijara? Mas principalmente porque não o recusara ela, porque não se debatera... Ele tinha a certeza do que tinha visto. Ela estava nos braços dele, entregue, sem ambivalências. Algo que ele nunca tinha sentido. 

 

Levanta-te André! - gritou-lhe, enfurecido, com uma raiva que desconhecia ostentar. 

O André levantou-se e encarou-o. O Ricardo sempre tinha sido uma referência para ele. Nos momentos de ausência do pai, o Ricardo tinha sido quem o tinha orientado, mostrado o caminho, tirado as dificuldades. Talvez por isso tenha-se habituado a viver à sua sombra. Nada do que ele fazia era suficientemente bom. O Ricardo sempre fora considerado fora-de-série, sempre fora o que conquistara as mulheres, mesmo aquelas de quem ele gostava ou admirava secretamente. 

Quando naquele dia, a vira chegar, tudo gelara dentro de ele. Até ela, aquela mulher linda que ele tinha descoberto e conquistado timidamente com o olhar, tinha sido tomada por ele. 

Porquê Ísis? Diz-me porquê! - gritou o Ricardo.

 

Ísis apercebeu-se nesse instante que não estava mais naquela cena. Mas as palavras continuavam a soar-lhe na mente. O que mais lhe custara no momento, fora a sua incapacidade de lhe responder. 

Ela também tinha sido apanhada de surpresa, numa virada irónica da vida. Jamais pensou voltar a ver o André. Aliás, nem o conhecia. O que ela sentia podia ser apenas fruto da sua imaginação. Mas naquele momento, quando ele a beijou, as dúvidas dissiparam-se. Não havia nada nele que ela não amasse, até a imensidão do desconhecido que havia entre eles, ela amava!

O telefone tocou... Era novamente ele. Mais uma vez ela deixou-o tocar até ir para o atendedor de chamadas. Não voltara a falar com o Ricardo. O anel jazia em cima da cómoda. Não tivera oportunidade de o devolver. 

Mais um telefonema. Olhou para o visor e viu André escrito. 

Ele voltou a ligar-te? - perguntou-lhe o André assim que ela atendeu o telefone.

Sim. Mas eu não atendi. Não quero ter que o encarar já. Ele está muito magoado. Nada do que eu pudesse dizer, ou fazer, agora ia resolver a situação. Passas por cá? A tua mãe, já te fala novamente? - perguntou-lhe ela enquanto sentia a alegria calorosa da possibilidade de o ver. 

Vou já para aí, já falamos.

 

Em menos de 15 minutos ele estava à porta dela. Naquele mesmo local onde há três semanas se tinham beijado pela primeira vez. Entrou e repetiu o gesto. Agarrou-a pela cintura, agora com cuidado, olhou-a nos olhos, beijou-a ao de leve nos lábios, deixando escorregar os seus levemente pela abertura dos dela... Mas foram despertados pelo toque de um telefonema. Por momentos ela sentiu que o Ricardo estava novamente a roubar a alegria daquele momento de reencontro, que eles ainda não tinham conseguido viver em plenitude em nenhum dos dias anteriores.

O Ricardo rondara, ameaçara, voltara a família deles contra o André. Hoje era o primeiro dia em que tudo parecia decorrer com maior naturalidade e menos sofrimento. Mas o toque não lhe era familiar, pensou. O condicionamento era tão grande que, no imediato, nem se apercebeu que era o telefone do André que tocava.

É o teu. - disse-lhe. Nem ele se tinha apercebido desse facto. 

Meio desajeitado, tirou-o do bolso, olhou para o visor e o que viu deixou-o apreensivo. O passado ligava. Maria. Considerou não atender, mas certamente também ela já saberia do escândalo. E apesar de já não estarem juntos, devia querer saber se tinha sido este motivo que tinha levado a que ele terminasse a relação num de repente, depois do aniversário da avó Rosa. O melhor era acabar logo com a agonia.  

Olha Maria... - disse-lhe com a voz meio embargada. Mas antes que pudesse terminar a frase, apercebeu-se que ela soluçava do outro lado da linha...

Estou... André... Prec...Preciso de falar contigo... 

O tom era claramente perturbado. 

O que se passa Maria, está tudo bem? Conta! 

A ansiedade crescente. Ísis ouvia o choro compulsivo do outro lado, via o ar de preocupado do André e sentia-se a mais, como se tivesse ido a uma festa para a qual não tinha sido convidada. 

Es... Estou... Estou grávida, André...

 

(continua)

Menina Língua Afiada... Este molho de bróculos é todo seu!

 

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