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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

09
Out18

Quarta carta

Fatia Mor

Tínhamos 13 anos. A insalubridade das relações humanas na adolescência cria as condições perfeitas para os maiores desgostos amorosos. Arranco de mim o coração para falar do que mais me doeu durante essa fase. Portanto, falo-vos de um sofrimento atroz que durou, quase de certeza, 15 dias! O fim do mundo. 

Éramos colegas da mesma turma, onde o mundo gira, o sistema solar começa e o universo se criou. Por algum motivo, naquele dia dediquei-te mais atenção e, quando dei por mim, o meu coração acelerou, o tempo desacelerou, tudo ficou turvo e apenas tu permanecias uma certeza focada na minha existência, abalada pelos acordes da primeira paixão. Tinha tudo para ser uma música romântica se não se tratasse de um amor não correspondido. E eu tinha tanta a certeza de que te amava até ao fim dos meus dias como tinha a certeza inabalável de que tu amavas, até ao fim dos meus dias, a minha melhor amiga. O trio estava lá. Eu sabia-o, de ginjeira, e era o filme da minha vida.

Saí daquela aula, onde tudo isso se passou, enlevada, desencantada e ensimesmada nos meus pensamentos. Era um segredo que só a minha melhor amiga podia conter. Outra, não aquela. Eram pelo menos duas. Ou seria a mesma? Corri para ela, dizendo-lhe que devia guardar esse segredo com a vida. E como todos os bons segredos, em pouco tempo também tu sabias de quanto amor eu te devotava, quantos suspiros me arrancavas, quantas horas te dedicava nas minhas conversas e quantas linhas ocupavas no meu diário.

Um dia, chamaste-me à parte. Querias falar comigo. Saí do pavilhão e reparei em ti, um pouco mais afastado. E ao longe, vi, o nosso grupo de amigos, quais hienas à espera dos despojos da presa que o leão traz nos dentes e displicentemente abandona quando está saciado. Disseste-me que querias curtir comigo. Olhei-te com incredulidade. Quem é que ia acreditar na sinceridade daquele pedido, àquela hora do dia, desprovido de princípio, meio e fim. Sabia que estava num filme trágico-cómico e eu era, claramente, o elemento comic relief, quem ia ser gozada com a perspectiva de um beijo que nunca chegaria, para gáudio de todos que queriam rir à minha custa.

Disse-te a verdade. Não queria, sabia o que se passava e que tudo o que tinha sentido estava enterrado no jardim, com uma tabuleta bem singela. "Aqui jaz o meu coração, a minha inocência e minha credulidade nos homens". Riste-te e disseste que sabias que eu saberia o que estava a ser orquestrado. Para não levar a mal, era só uma brincadeira. 

Tempos mais tarde tive coragem de abordar esse assunto contigo, num percurso que calhou semelhante aos dois, de forma sensata e adulta. Acho que te disse o que tinha sentido naquele dia e acho que tu me disseste que tinha sido só uma brincadeira. E foi. Daquelas bem arestadas, com lâminas afiadas, capazes de decepar um coração incauto. 

Foste, verdadeiramente, o meu primeiro amor incorrespondido. A ti, agradeço-te a compreensão das leis da selva do amor humano, da forma como podemos amar e sofrer e, acima de tudo, como podemos viver depois de um grande desgosto de amor (já agora, é noutra paixão incompreendida por um amigo, perdido de amores pela minha melhor amiga). Ah! E por me fazeres entender nas fibras da alma, uma das músicas da minha vida:

Hey Jude, don't make it bad
Take a sad song and make it better
Remember to let her into your heart
Then you can start to make it better
Hey Jude, don't be afraid
You were made to go out and get her
The minute you let her under your skin
Then you begin to make it better
And anytime you feel the pain, hey Jude, refrain
Don't carry the world upon your shoulders
For well you know that it's a fool who plays it cool
By making his world a little colder
Nah nah nah nah nah nah nah nah nah
Hey Jude, don't let me down
You have found her, now go and get her
Remember to let her into your heart
Then you can start to make it better
So let it out and let it in, hey Jude, begin
You're waiting for someone to perform with
And don't you know that it's just you, hey Jude, you'll do
The movement you need is on your shoulder
Nah nah nah nah nah nah nah nah nah yeah
Hey Jude, don't make it bad
Take a sad song and make it better
Remember to let her under your skin
Then you'll begin to make it
Better better better better better better, oh
Nah nah nah nah nah nah, nah nah nah, hey Jude

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