Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 26.03.15

Quando os aviões caem do céu

Fatia Mor

Acho que hoje toda a gente fala do avião que caiu. Ou melhor, que foi atirado contra uma montanha. 

Aparentemente, esta "queda" terá tido mão criminosa já que parece ter havido intencionalidade na acção. 

O comportamento humano reveste-se de intencionalidade. Todos nós somos psicólogos näives, que constantemente procuramos causas para os efeitos que observamos à nossa volta, que tentamos entender o porquê dos comportamentos observáveis. 

E hoje é incontornável perguntar o "porquê?".

Hoje a psicologia está na ordem do dia. Seja pela procura de uma razão para um acto desta natureza, seja pelas característias que alguém que o pratica tenha que conter, seja pela necessidade de dar resposta às dúvidas e anseios para o futuro, para controlo e evitamento de algo semelhante. Por todo o lado se ouve "instabilidade mental", "personalidade desestruturada", "psicopatia", tudo características inerentes a uma explicação plausível que procuramos encontrar na falta de plausibilidade de um acontecimento desta ordem.

Costumamos dizer que uma equipa é tão forte quanto o seu elemento mais fraco. Aqui também parece aplicar-se essa máxima. Todos os feitos em nome da segurança já alcançados parecem fraquejar perante a possibilidade de um copiloto ter sido criteriosamente seleccionado, avaliado e treinado para transportar de forma segura todas as almas que vão dentro de um avião, e esse avaliação ter falhado redondamente.

Mas e se essa avaliação não falhou? E se quando foi seleccionado e avaliado não houve qualquer indício de um dia poderia conscientemente desviar um avião para embater com uma montanha?

Todos os esforços que realizamos em prol da segurança alimentam a nossa falsa ilusão de controlo. Necessitamos dela para avançar  no mundo, para não questionarmos constantemente os passos que damos. Se não acreditassemos que há forma de despistar e controlar este tipo de acção, menores seriam o número de pessoas que voam todos os dias sem pensarem que um dia poderiam estar nesta situação. Ou que entram num carro e conduzem para os seus trabalhos. Ou que frequentam um café, um bar ou andam na rua. Mas um facto é que a capacidade de previsibilidade de uma acção deste tipo tem limites. E a avaliação psicológica não é infalível nem uma panaceia para todo o mal.

Neurótica assumida, tendo constantemente a sofrer com a falta de controlo. Custa-me pôr os pés num avião. Aliás sofro já, em parâmetros clínicos, de uma fobia que me impede de viajar dentro destas latas com asas, para ser sincera. É um dos locais onde sinto que a minha acção é totalmente inerte e estou totalmente indefesa e à mercê de erros humanos ou erros mecânicos. Não sei comandar um avião e caso algo aconteça não posso fazer nada... Consome-me pensar nisso e imaginar-me nessa situação!

Por isso, hoje não faço a pergunta do porquê?. Limito-me a olhar para tudo como uma manifestação do pior que a natureza humana tem, sem apelar a qualquer sentido de explicação. Até porque coisas destas não precisam de ser explicadas. O sentimento e impacto que produzem já são material suficiente para digerir.