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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

13
Nov18

Quando chegam ao 1º ciclo

Fatia Mor

Ainda me recordo do meu primeiro dia de aulas. Chegámos e sentámo-nos aleatoriamente nas carteiras que existiam na sala. Rapidamente, a professora começou a contar uma história, utilizando umas figuras que estavam penduradas no quadro. Se fechar os olhos e inspirar fundo acho que ainda consigo sentir o cheiro do chão de madeira, imaculadamente limpo para aquele primeiro dia.

Curiosamente, também me lembro do segundo dia de escola. A professora sentou-nos por alturas, para garantir que todos víamos correctamente o quadro. Tive sorte de ser raça minorca e fiquei sentada na segunda carteira a contar da frente. Sentou-nos aos pares mistos: rapazes e raparigas - talvez aproveitando-se da natural cisão que existe entre sexos nessas idades. E depois começou o "i". Foi nesse momento que eu me encantei com a escola. Ali, tive a certeza de que iria aprender para a vida, que saber mais me dava alegria. Para mim, estudar nunca foi um sacrifício e recordava com entusiasmo tudo o que aprendia (talvez com excepção feita à disciplina de Física, que ainda hoje me confunde).

Criei uma instrumentalização positiva do ensino, que via como uma ferramenta para a vida. Bom, talvez não fosse essa a ideia quando tinha 6, 7 anos. Mas compreendia que iria ser importante para mim e assumiu um papel central na minha definição pessoal.

 

A Fatia#1 começou este ano o 1º ano. Com ele apareceram-me angústias que eu, pessoalmente, nunca tive e, verdade seja dita, não vi terem comigo. Fruto, possivelmente, de um passado mais conturbado, os primeiros dias foram de choro e recusa. A professora teve um papel fundamental na adaptação da Fatia pequena, que com rapidez passou a gostar de ir à escola.

Porém, e nestas coisas há sempre um "mas", ficou-me o medo residual de que ela não consiga ver o mesmo na escola que eu via. Preparo-me mentalmente para o facto de a minha filha não ser uma reprodução minha, que talvez necessite mais vigilância, maior esforço em mostrar que a escola não é apenas saber acumulado, mas que tem um papel fundamental na nossa vida. Olho-a enquanto faz os trabalhos de casa (que para já são em conta, peso e medida, felizmente) e enquanto estudamos os ditongos (que parecem criar confusão generalizada) e denoto-lhe a pouca resistência à frustração, algum desinteresse na tarefa, a tentativa mecânica de repetir por memorização em vez de fazer um esforço para, efectivamente, ler o que lá está.

Tenho evitado perguntar aos outros pais como é que os filhos estão a desempenhar nestes momentos iniciais. Não quero cair no erro da comparação social, pois conheço-lhe bem os efeitos. A minha formação mostra-me que não é o caminho, mas as minhas imperfeições pessoais compelem-me nessa tendência.

É difícil contrariar a corrente. É difícil manter a cabeça fria e pensar que todas as crianças têm o seu percurso, têm os seus tempos de aprendizagem. A verdade é que este comboio não pára em todas as estações e com facilidade estamos perdidos numa estação erma. 

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