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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 16.01.20

Quadros de mérito

Fatia Mor

Quem tem filhos em idade escolar, eventualmente, já se deparou com os quadros de mérito. Podem ter outras designações, como quadros de valor, ou prémios de desempenho, mas no fundo todos visam destacar os alunos que conseguem atingir o nível da excelência.

Não podia discordar mais destas medidas. De facto, deixa-me incomodada que a própria escola promova semelhante medida de diferenciação da prestação dos alunos, com base no axioma de que precisamos motivar os melhores alunos a continuarem a ser melhores, ou o que ainda acho mais falacioso, precisamos de incentivar os outros a esforçarem-se tanto.

A meritocracia é um engodo, meus amores. A única variável capaz de prever com uma precisão assustadora o desempenho escolar de um aluno é, pasmem-se, a escolaridade da mãe. E sabem o que tem uma correlação elevadíssima com o nível de escolaridade dos pais? O estatuto sócio-económico. Pois é. Filhos de pais com mais posses e com maiores níveis de escolaridade são melhores alunos.

A escola, tal como é concebida no seu princípio base deveria ajudar a nivelar estas diferenças sociais, dando as mesmas ferramentas a todos os alunos. O problema é que o ponto de partida de alguns já é em cima de um escadote, enquanto outros ainda têm que o construir. 

As actuais medidas da política educativa já prevêem ter em conta estimar o sucesso do aluno com base do seu ponto de partida. Isto significa que um aluno que progride de 90% para 100% poderá não ter tanto sucesso quanto um que sai de 40% para 50%, por exemplo. O esforço e a capacidade de resiliência face aos factores contextuais, que não lhe dão a alavancagem do primeiro, serão superiores no segundo exemplo.

Quer isto dizer que não vale a pena incentivar os bons alunos? Vale, claro. Mas a custo de rebaixar os que por muito que esforcem não vão ter os mesmos pais empenhados, os mesmos explicadores, nem a mesma estimulação em casa. Não vão viajar, abrir horizontes, nem vão ser levados a passear a bibliotecas, horas do conto, ou ouvir histórias lidas à noite. E mesmo assim, o seu esforço pode ser o maior de todos e nem por isso será reconhecido.

Já sei que me vão dizer que a sociedade é assim, que alguém tem que ganhar, chegar em primeiro. Que todos os outros lugares são necessariamente ocupados. É verdade. A vida tem os seus misteriosos caminhos. Mas parece-me que a competição acirrada pelo mérito escolar é tudo menos uma competência válida para uma sociedade que se pretende justa, equitativa. Se assim fosse, então, todas as medidas tomadas para garantir que homens e mulheres tenham oportunidades idênticas teriam sido desnecessárias. A vida é mesmo assim, não é? E se eu nascer mulher (ou homem) for ditado pelo mesmo acaso de nascer rico ou pobre, então, azar? 

A Escola, enquanto instituição, não pode compactuar com isto e tem a obrigação de instruir e educar. Sim, a escola também educa, também transmite valores, também tem o papel de criar sentido crítico, discernimento. 

Apostaria numa escola que mostrasse a cada aluno quanto o seu esforço vale. Gostaria de uma escola que dissesse aos seus alunos que o importante é serem bons seres humanos. O conhecimento é um alicerce essencial à moralidade. Mas diferenciar os alunos com base no desempenho é matar, à partida, toda e qualquer hipótese de cooperarmos. A competição pode ter sido o ponto de partida para o nosso desenvolvimento enquanto espécie inteligente, mas não tem que ser o ponto de chegada.

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