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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

04
Out18

Primeira carta

Fatia Mor

Parece-me apropriado que esta primeira carta seja tua. Foste o homem que mais amei na minha vida. Emprego o verbo no passado porque a morte já se apropriou da tua presença, não te permitindo dar acto continuo a este sentimento que nos unia. Foste, claramente, mais que um pai. Recordo-me bem de como encaixava no teu colo e recordo-me ainda melhor, com saudade e melancolia, do dia em que deixei de caber. Um dia acordei e os meus braços e pernas eram demasiado grandes para caberem no colo que me albergava nas tardes frias, nos dias soalheiros e em todos os momentos da minha jovem vida. Mas nunca fui grande demais para caber no abraço, para caminhar contigo pelas ruas em passo acelerado, nem para as nossas conversas que ninguém tinha o privilégio de ouvir. 

Podem acusar-me de ter sido a preferida, mas sei que antes de mim havia, pelo menos, mais uma pessoa a quem tinhas devotado o mesmo amor incondicional.

Enquanto fui criança acreditei-te imortal, invencível. Um dia, à porta de um prédio perdido nesta cidade, disseste-me que um dia irias morrer. Senti-me a morrer por dentro. Não estavas a antecipar o dia, nem tão pouco havia indicações disso - algo que só veio a acontecer na minha vida adulta - mas talvez naquele dia tenhas achado que tinha maturidade suficiente para entender que todos morremos. E que um dia não estarias ali para mim, pelo menos, não da mesma maneira.

Ainda hoje me recordo da dor que me assolou a garganta, de como as lágrimas me queimaram os olhos e de como as engoli para te mostrar que compreendia a lei da vida. Não entendia. Nesse dia e em todos os outros, passei a vigiar-te como um falcão. A cada passo que davas monitorizava a passada para garantir que se mantinha com a mesma vitalidade de sempre; quando adormecias, com os braços cruzados enquanto vias televisão, espiava-te pelo canto do olho e de ouvidos bem abertos, para te ver o peito subir e descer ao ritmo da respiração, e garantir que o ressonar se mantinha constante. Todos os sintomas das mais pequenas coisas levavam-me a pensar se estarias demasiado velho para esta vida, demasiado farto de nos embalares nas tuas histórias, que ouvi vezes sem conta como se fossem a primeira vez. 

Quando partiste estava preparada para essa eventualidade. Fizeste questão de me preparar para isso como me preparaste para outras coisas da vida. Método e ordem são auxiliares preciosos na vida de uma pessoa; Primeiro a obrigação, depois a devoção; Devemos fazer tudo com brio; A palavra deve sempre ser honrada; A vida também acaba. Criaste os pilares por onde me assento e que quero que façam parte da vida dos meus filhos. Herdei-te a paciência, a ética de trabalho e espero que o amor que dedico aos meus filhos, de forma incondicional.

Sei que não eras perfeito. Mas para mim, foste. O homem que mais amei e que me ensinou a amar aqueles que mais amo, nos dias de hoje.

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