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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

22
Mar18

O segredo que trazemos em nós

Fatia Mor

Ontem, enquanto esperava pelo fim da aula de ballet da minha Fatia#1, observava o conjunto de mães à minha volta.

Normalmente, chegamos mais cedo e ficamos ali, em silêncio, encostadas às paredes, às portas, com as mãos nos bolsos, ou perdidas numa página qualquer que o telemóvel nos permite aceder. 

Por norma, são apenas mães. Por vezes, um ou outro pai, uma avó. 

Olhei à volta e tínhamos todas a mesma expressão no rosto. Um olhar perdido no infinito, de quem está a fazer listas de compras, a agendar o dia de amanhã, a considerar as tarefas que ainda faltam terminar. Parece que estamos a guardar o fio de energia que nos sobra, àquela hora do dia, para uma explosão de alegria programada para o momento em que a porta se abrir e as nossas bailarinas nos receberem com o entusiasmo habitual do fim da aula.

O ar é impávido. O olhar é de preocupação. O estado geral é de cansaço. Mas em cada uma de nós parece existir uma mola que nos acciona assim que vemos os nossos filhos, ali, prontos para nos contarem como fizeram aquele passo, o que aprenderam de novo. E saem todas de lá, sem excepção com um ar fresco, entusiasmado, surpreendido.

Quem vê de fora não percebe o esforço que está ali em causa. E a verdade é que aprendemos a mascarar, bem demais, o desgaste que este ritmo nos impõe. Mas ele está lá. No cabelo em desalinho, na roupa que talvez já não esteja nas melhores condições mas que terá que aguentar mais uma estação porque a deles está primeiro. O rosto já sem maquilhagem (será que lá esteve) mostra as rugas, as olheiras, a juventude que já teima em não se fazer notar. 

Olho para trás e dou por mim a reflectir quantas vezes a minha mãe não terá mascarado tudo isso para que eu tivesse apenas direito ao seu sorriso. Parecia tudo tão fácil para os que estavam lá para mim! Parecia que as decisões não custavam, que as preocupações não se demoravam, que a vontade deles era sempre de ferro, a determinação era capaz de mover o mundo e que o sofrimento era uma coisa dos fracos.

Olho para trás e penso em todos os sacrifícios que fazem parte do investimento que fizeram em mim e espero poder fazer o mesmo.

Este é o segredo que seguramos nos nossos lábios. Que temos nas palmas das nossas mãos, fechadas dentro dos bolsos, para que não fuja, para que os outros não o vejam. É isso que escondemos atrás de um sorriso seguro, das decisões ditadas em voz alta. 

E ali estávamos nós, à espera das nossas bailarinas, a acumular energia para mais uma vez nos surpreendermos.

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