O negro em mim
25/2021
Trago um nó na garganta de tanto não chorar. A agonia é física. Sinto-me deslocada do mundo, mesmo que seja o mundo a deslocar-se de mim e não o contrário.
Mexer em nós nunca é fácil e propus-me a isso há umas semanas. Não sei se aderi demasiado bem ao processo terapêutico, se simplesmente isto me deu o mote para deixar tudo aflorar.
Olho para a minha vida e para tudo o que alcancei com um misto ambivalente: por um lado, acho que não mereço mais do que os que me cercam e que tenho mais do que me é devido. Sou uma afortunada. Mas depois, sinto que sou uma afortunada medíocre, que não faz nada de bem. Nada do que alcanço é verdadeiro, memorável, notável. Quero sê-lo, mas não quero fazer o doloroso caminho para lá chegar. Quero ser, mas não quero reconhecer que não tenho em mim qualquer centelha de especial, de único que mereça destaque. Tenho o que não me é devido; não tenho qualquer valor. Sou uma impostora.
Síndrome do impostor. Minto-me todos os dias, quando me olho ao espelho e tento ver as qualidades que não possuo. Não sou boa pessoa, não sou boa amiga, não sou boa mãe, não sou boa profissional. Não sou boa. Ponto. E chega.
E o pensamento gira-me no estômago, provoca-me a indigestão, faz-me comer sem prazer, com dor.
Não quero ser assim... mas sou... E agora, onde ficou eu, perdida neste conceito desfeito de mim? Como me erguer deste chão de pedra frio, que me tolhe as mãos, que me constrange o movimento, que me engole, lenta e pesadamente?
Ponho tudo cá fora ou engulo-me, outra vez, retornando à paz aparente?
Talvez este não seja o espaço para isto, mas preciso de colocar isto no mundo sob pena de implodir.
