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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sab | 27.03.21

O absolutismo dos mais relativos dos tempos

29/2021

Fatia Mor

Como todos os grandes masoquistas individuais, sigo com atenção páginas de fitness. Gosto de me manter saudável, ainda que nem sempre tenha a motivação para ser fisicamente activa, consciente na alimentação, controlada nas horas de sono, etc., etc., etc. Acho que já perceberam.

Há uns tempos, uma publicação de um desses grupos mostrava J.Lo no auge dos seus 50 anos. Forma física invejável. Eu invejo e tenho menos 12 anos no bucho (posso sempre pensar pelo lado do "copo meio cheio" e dizer que tenho 12 anos para me pôr assim!!).

A publicação não era exactamente sobre ter 50 anos e estar em forma. Era sobre não querermos fazer o esforço para ficar assim, opondo-se à velha crítica "se eu tivesse o dinheiro dela, também estava assim".  Concordo com a ideia base. Ninguém faz o esforço por ela. Já não concordo quando a segunda ideia é que todos podemos ter o mesmo, desde que nos esforcemos.

Achar que nossa vida depende apenas do nosso esforço é o mesmo que dizer a um sem-abrigo que não tem casa porque não quer pagar uma. Ou que não se esforça por isso. A nossa determinação só nos leva até um ponto do percurso. Infelizmente, e por muito que não queiramos reconhecer, o resto é paisagem. E acreditem que a paisagem nos influencia. Muito.

É por isso que nos tempos do total relativismo, do "cada um é único", da importância da "diferença" (porém, sem diferenciação), do "aceitar cada qual" porque somos todos especiais, coexiste um discurso de absolutismo das competências, das habilidades, das capacidades, desacreditando o poder do contexto. 

Voltemos à J.Lo. Seguramente, não estou a fazer tudo o que ela faz. Nem poderia. O seu trabalho depende do seu físico. O meu, depende da minha intelectualidade e está-se a marimbar se eu consigo ter um conjunto de abdominais visíveis a 1km de distância. O meu tempo não é só meu e não tenho quem organize a minha agenda, desenvolva as minhas ideias, escreva e responda por mim aos meus emails. Faço-o eu. Não posso dizer ao meu patrão "vou só ali treinar duas ou três horas e volto já". Se eu for o meu patrão, ou o meu negócio dá muito dinheiro (como o dela) ou terei ainda mais exigências para colocar em cima de mim. Poderia continuar a enumerar as diferenças absolutas entre mim e a J.Lo mas resumem-se a duas coisas: falta de talento e falta de oportunidades. E desenganem-se que nós é que fazemos as oportunidades. Aconselho-vos a ler os livros de Malcom Gladwell.

Posto isto, continuamos a dizer às pessoas que podem ter tudo. Podem ser fit. Podem ser ricas. Podem ser especiais. Mas não. Não podem. Não podemos ser todos fit porque nem todos temos as condições base para ser assim. Não podemos todos ser ricos, porque a riqueza é por definição a acumulação de bens materiais. Para eu acumular, alguém tem de ficar sem... Não podemos ser todos especiais, porque se todos fôssemos especiais então, ninguém o seria. 

Portanto, se queremos muito algo, trabalhemos para isso - de facto. Façamos a nossa parte. Mas algures teremos de confiar que o universo faz o resto... porque se não fizer... Não vamos a lado nenhum.