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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

25
Set18

Hora do conto

Fatia Mor

Ao folhear o livro reparou numa pequena nota que caía lentamente no chão. Deixou-a assentar e mirou-a de soslaio. Zelosa dos seus livros, sabia-os imaculados. Jamais os conspurcaria com notas indeléveis, para marcar páginas, passagens ou até capítulos. Guardava na memória as melhores passagens, junto da lista das compras para semana, a data de pagamento da factura da electricidade e o dia da revisão do seu carro. Portanto, estranhou aquele irrisório papel que se destacava das sacrossantas páginas do seu livro.

Com altivez e snobismo baixou a sua mão, ligeiramente engelhada da idade, toldada pela vida e tolhida pelo frio. Gostava de ler naquela varanda, voltada a norte, com pouca luz, fosse verão ou inverno, sempre batida pela chuva e pelo vento frio. O calor incomodava-a, fosse o do sol que bate na janela, fosse o da voz da vizinha que insistia em preocupar-se com aquela velha que vivia sozinha, fosse a voz alegre das crianças que brincavam no parque que dava para a frente do prédio. O frio reconfortava-a mais, enrijecia-lhe as carnes, mantinha-a jovem, atenta, desperta. Se se desse ao luxo de aquecer, talvez derretesse como a vela. E depois? Como a tirariam do chão da sua casa? - costumava pensar ela com uma alegria mórbida de poder fazer ostentar no seu obituário que tinha derretido e impregnado o soalho daquela casa com a sua essência, para não mais a deixar.

A mão aproximou-se da nota e tomou-a nos dedos. O papel era antigo. O livro também. Dir-se-ia curioso ter descoberto aquele livro na sua prateleira, por trás de outros livros. Como tinha ele tombado, para ali, sem que ela se desse conta? Não se recordava de ter passado por ele nas últimas limpezas profundas. Em tempos, fazia-as todos os meses. Tirava livro por livro, limpando-lhes a lombada, folheando-os para os recordar da sua vida passada nas suas mãos, alternava-os nas estantes para que não se convencessem de preferências e falava com eles, para que não ousassem a mudar. Não gostava de mudanças e as palavras escritas tinham o condão de se deixarem cair no vazio do espaço e do tempo.

Olhou para a nota e viu uns gatafunhos ilegíveis, que a fineza do papel deixava entrever. Estava dobrado em quatro. O que antes fora branco estava agora de um amarelo característico que só as coisas que vêm o tempo passar adquirem. As dobras eram já quase parte integrante do papel e desdobrá-lo seria uma tarefa para umas mãos com destreza. O mais certo seria rasgar aquilo tudo, entre os tremores e as deformações que já tinha. Orgulhava-se, particularmente, do desvio do mindinho da mão esquerda. Endurecido, aumentado, retorcido, era o suporte perfeito para os livros, que abria habilmente com uma mão, enquanto folheava com a outra. Era feio, mas útil. Muitas mulheres bonitas não se podiam gabar do mesmo - pensava ela com os seus botões, enquanto se deixava vencer pelo vício de ler uma revista cor-de-rosa. 

Guardou a nota no bolso do casaco e leu a capa do seu livro. Era um livro de cartas de amor, antigo, que teria comprado há mais de 20 anos, numa pequena feira do livro, enquanto passeava sozinha. Colocou o livro debaixo do braço e foi à cozinha fazer um chá para lhe acompanhar as leituras. Sentou-se na sua cadeira de vime, de costas duras e estrutura sólida, cruzou as pernas, colocando um pé encaixado debaixo da perna, enganchou o livro na mão esquerda e olhou para ele mais uma vez, notando-lhe a ausência nas suas mãos. Por algum motivo, percebeu que nunca o havia lido. Era uma estreia. 

Começou, então, pela primeira carta de amor. Dizia ser datada do fim do século XIX e sucumbia às expressões idiomáticas da época, no bucólico amor das saias compridas e dos namoros à janela. O pensamento traiu-a, recordando-se da nota que agora lhe queimava o bolso. A curiosidade era para os ociosos da mão e inebriados na mente - dizia-lhe o pai em criança, que acreditava no rigor das coisas feitas em vez das coisas pensadas. Teria-a deixado seguir o magistério primário porque a sua figura mal dava para pegar num cabo de enxada. Não que se tenha orgulhado disso, preferia mais um conjunto de mãos a trabalhar, mas sempre lhe permitira que lhe lesse um livro, na noite da vida. 

Pousou o livro, com cuidado, e resgatou o ligeiro papel do seu bolso. A custo, deslizou o indicador sobre o polegar, esfarelando o papel entre os dedos, separando as partes quase coladas com algum desprezo. A letra, numa tinta quase sumida dos anos, era delicada, desenhada com cuidado, mas claramente escrita num momento grande tensão. Demorou-se a ler, como sempre fazia, porque ler à pressa era desprezar o ritmo de quem escrevia - assegurara-lhe a professora de Língua Portuguesa. Leu, então, com o cuidado de quem procura entender o que vê:

"Querida Dulce, sei-te perdida de dor apesar de o esconderes do mundo. Perdoa-me. Nunca to deveria ter tirado. Porém, ao coração não se fala com a razão e eu segui o caminho da felicidade mesmo sabendo-me a causa da tua miséria. Quando estiveres preparada, vem-me visitar. Sempre tua, Arlinda."

Voltou a fechar o papel em quatro e guardou-o no bolso do casaco, novamente. Não se recordava de alguma vez ter encontrado semelhante nota, portanto, não teria sido ela a guardá-la ali. Estava intrigada com a origem do papel naquele livro, em particular, descurando o conteúdo que lhe parecia tão longínquo quanto a tarde morna de fim de verão, onde se tinha encantado de amores por um homem da sua idade. Permitira-se sentir o quente da paixão, que a fizeram mudar-se para os jardins da cidade para passeios de fim de tarde pendurada no seu braço ou para leituras no seu regaço, banhados pelo sol que lhe entrava pela janela da sala. Certo dia, chegado de uma pequena viagem, mostrara-lhe de forma racional que não eram talhados um para o outro. Ele precisava de uma mulher menos astuciosa, menos antagonista e mais fulgente, que ele pudesse ostentar perante os seus amigos e que não o objectasse. Ele não queria uma igual. Queria uma inferior. 

Não passou muito tempo até que se apercebesse que o inferior era literal. Era Arlinda, amiga de longa data, que morava mais abaixo, na avenida. Servia-lhe bem os propósitos. A ela soube-lhe apenas a fel. Voltou a fechar-se no seu casulo e avançou, vivendo sempre nas histórias que começavam e acabavam, trazendo sempre um fim reconfortante.

Ajeitou o livro na estante, fazendo-lhe uma festa e consolando-o pelo segredo tão bem guardado ao longo destes anos. Afagou o cabelo, calçou os seus sapatos mais confortáveis e preparou-se para caminhar ao sol, que empinava àquela hora. 

As pessoas escasseavam na rua, talvez por ser hora de trabalho. Melhor assim, que a ninguém me questiona onde vou - pensou, enquanto esboçava um sorriso pela sua capacidade de engano.

O caminho pareceu-lhe mais curto que o normal, mesmo que tenha lenificado o passo várias vezes para respirar fundo. Não que estivesse cansada, mas ia registando as palavras adequadas à situação. Ia dizer-lhe o que guardava há mais de 20 anos dentro do peito e isso teria que ser feito com precisão cirúrgica. Implicaria voltar a abrir a cicatriz, onde o tecido fibroso se tinha instalado, deixando uma marca apenas visível quando se despia em frente ao espelho e se entregava à imensidão da sua solidão. As palavras seriam o seu bisturi que iriam corrigir os defeitos internos, deixados pelo tempo.

Chegou ao portão e passou-o sem se demorar a olhar à sua volta. Só parou quando lhe chegou à morada. À última. Lia, demoradamente, como quem sabe o tempo que levou a inscrever cada palavra na pedra "Aqui jaz Arlinda Ferreira, amada esposa, mãe e avó". 

Chegava o momento. 

- Olá Arlinda, sou eu, a Dulce.

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