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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

15
Mar18

Hora do conto

Fatia Mor

Pegou na chávena de café, aproximou-a da boca e sentiu-lhe o aroma forte. Era um dos pequenos prazeres que usufruía todas as manhãs, no silêncio da sua cozinha, com os pés no soalho frio, fosse verão ou inverno. Talvez retirasse desse contraste de temperaturas o vigor para aguentar o resto do dia, talvez fosse apenas um resquício de uma mania herdada do seu pai. Dizer que é genético talvez seja um abuso da hereditariedade de características, mas Sofia reconhecia que eles eram mais parecidos do que a convivência tinha permitido. A semelhança havia de advir de algum lado, certo?

 

Acordou, de novo, dos seus pensamentos quando uma notificação do telemóvel lhe recordou que o tempo também voa na terra das ideias. Eram quase 9 horas e ainda mal se tinha despachado. Engoliu o café, respirou fundo, e foi arrastada para a realidade do dia. Olhou-se ao espelho, na casa de banho, uma última vez antes de ir à procura do casaco, da echarpe e da mala. Nada mal. Nada mal para quem não tinha dormido as últimas noites. Nada mal, para quem chorou a noite inteira. Nada mal, para quem tem agora que ir confrontar-se com a mais dura das realidades. Nada mal. A ladainha manteve-se inalterada. Nada mal. Não sabia se estava a agarrar-se a essa ideia para despistar a auto-comiseração que crescia a cada segundo ou se realmente acreditava que não estava nada mal. Estaria ela sanada de todo o sofrimento? Assim, tão depressa? Ou estaria ainda a negar a inevitabilidade do que ainda está por vir?

 

Entrou no carro e um cheiro familiar fez com que as pernas tremessem. O aroma estava por todo o lado, mas ali intensificava-se. Fruto das horas que passavam lá dentro, condensava-se ali um imenso vazio físico que se engalfinhava nas memórias transbordantes. Era um contraste duro mas o futuro encarregar-se-ia de verter esse copo até o esvaziar.

 

Inseriu a morada da igreja no GPS. Lisboa ainda era uma incógnita na sua representação espacial e não queria atrasar-se para o último adeus ao seu grande amor. De certo, não seria o trânsito a pará-la. Nem a sua indubitável incapacidade para se organizar nas ruas. Desorganizada já estava. Não poderia perder-se em duplo formato. Nem queria. Tinha que lá estar.

 

Arrancou, num esforço doloroso, para o fim. Nas histórias que tanto gosta de ler, a heroína é sempre recompensada no final, seja pela sua capacidade de resiliar perante o sofrimento, seja porque é apenas uma história tonta de amor em todos acabam bem. Ali, estava ela, heroína, sem acabar bem. Sem fim, a bem dizer, porque não teve hipótese de escolha. O destino decidiu assim. O céu, as estrelas. A culpa é sempre desses astros enigmáticos que pairam à nossa volta, mesmo que achemos, num vislumbre da nossa infantilidade, que estão acima de nós. Idiotas! Somos todos uns idiotas, considera.

A igreja está mesmo à sua frente e por todo o lado consegue ver rostos conhecidos. Também a reconhecem e emudecem ao vê-la. Não é fácil dizerem-lhe o que quer que seja. Quem vai dizer alguma coisa a quem perdeu o amor da sua vida, assim, num desforço da vida? Só podia ser isso, uma vingança mesquinha da vida que me circunda, por me ver feliz, reflete. A felicidade está destinada a outros que não a mim. A auto-comiseração ataca. As lágrimas prendem-se nos olhos, à semelhança de uma represa mal construída, e prometem levar à sua frente a réstia de compostura que lhe resta. 

 

Sai do carro e o ar fresco abranda-lhe a catarse. Está na hora de enfrentar os desígnios de cabeça erguida. 

 

À medida que avança com o passo decidido, pela calçada, os seus saltos cantam o caminho todo, qual marcha funerária. Será um premonição? Não, está mesmo a acontecer. As vozes elevam-se de espanto! O burburinho intensifica-se. "Nada mal" houve alguém balbuciar. Os seus olhos não lhe mentiam, não está nada mal, face ao que está prestes a acontecer. Os seus saltos continuam a ressoar, cada vez mais alto, cada vez mais certeiros. Parecem agora tiros. Sofia dispara em todas as direcções, a cada passo mais assertivo.

 

Hesita apenas antes de abrir as portas. A igreja já deve estar cheia, a esta hora. É uma cerimónia matutinal mas a avaliar pela quantidade de gente que espera na rua, não deve haver mais lugar nenhum lá dentro. Não interessa. Para ela, haverá sempre lugar. No seu coração, na sua memória.

 

Abre a porta da igreja, escancarando-a, a tempo de ouvir o padre dizer "se alguém tiver algo contra este casamento..."

 

E todas os olhos se prenderam nela.

 

Nada mal. Ela não estava nada mal!

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