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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

08
Mar18

Hora do conto

Fatia Mor

Maria sempre na mesma correria, corria certeira para a sua vida, que se fazia sentida a cada linha que encontrava, perdida entre as meias de vidro e a lingerie de cetim.

Queria ser mulher que se compreendesse como tal, feminista sem igual, defendendo também os direitos do homem que elegera para parceiro, companheiro, amigo e ajudante, nos tempos errantes de dona de casa.

Sobre si trazia o peso do mundo, que movia a fundo, muitas vezes a troco de nada. Perdia o nome, nos paralelos do seu cognome favorito, que outros usam e abusam, descaracterizando maria, minúscula, como tantas outras por aqui.

Sabe-se bela e feia, feita do barro da terra, da costela de adão, de pecado original e de porcelana fina, imaculada santinha, que vigora na igreja, adorada por todos, idolatrada apenas por um.

Sabe ser quem é, quando encontra o espelho; excepto quando o reflexo tem, dentro de si, barba e bigode, calça opaca, casaco grosso, voz grave e charuto na mão. Ergue-se no seu salto, que de alto nada tem, para elevar a alma, acima da piada sexista, do sorriso machista, da ternura e preocupação enlevada, máscara habilmente colocada na cara de quem disfarça a crença afirmada de que ela é menor.

Adereço quando quer, sabe valer-se disso. Sua mãe lho ensinara, desde cedo recomendara, mais vale ser adereço bonito e bem posicionado, que amostra desconhecida, deslavada e desmerecida por se manter irredutível na sua ideologia feroz. 

Mas Maria não quer saber. O conselho de sua mãe, de outros tempos e conquistas, já não lhe fala ao coração, já não lhe traz alegrias. Maria quer crescer, quer estar entre os gigantes, quer falar com voz de mulher e ser ouvida como a de um homem. Quer poder ser quem é, sem perder o tempo de o ser. Quer ser mais do que a que está atrás, quer ser a que é capaz, mostrar que é mais sagaz que o mais perspicaz homem da terra.

Maria quer ser questão, exclamação, virgula, ponto final e parágrafo; quer escrever o seu destino, sem limites de linhas, sem tectos de cristal, sem que este esteja escrito naquele manancial de como ser uma boa mulher. Maria quer ser boa, má quando convém, a pior de todas se tiver que ser, para logo a seguir se reerguer, sem medo do que vão dizer. Maria quer ser mulher, só porque nasceu assim, sem diferença de género, sem precisar de se igualar, casar, ou amantizar. Maria quer ser quem é, sem definição de género. Quer ser pessoa, mas pessoa será no dia em que o mundo girar, sem medo de parar, avariar ou atravancar, só porque se percebeu que apesar de hoje ser o dia da mulher, os outros da sua revolução também o são!

 

Feliz dia internacional da mulher a toda a Humanidade (que calha bem, é uma palavra de género feminino)!

 

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