Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Ter | 19.01.21

Fim de semestre

17/2021

Fatia Mor

Acabei de me adentrar pelo edifício, ainda meio adormecido. A sensação de cinzento, que parece fazer desmaiar as cores das paredes é potenciado pelo dia fresco, porém pouco iluminado que consigo ver pelas janelas. Os estores mal funcionam, mas as janelas abertas recordam-me que ainda estamos no inverno e em qualquer outra altura, teríamos ar condicionado a funcionar, luzes acesas por todo o lado e alunos a circular.

O semestre lectivo termina esta semana mas, para os mais distraídos, poderia parecer que nós - os que circulamos pelos corredores - é que nos equivocámos. Sigo pelo corredor, transitando no sentido que as setas azuis, coladas ao chão, me obrigam. Raramente alguém olha para elas. Não sei se em algum momento, desde que ali foram colocadas, alguém se sentiu obrigado a voltar para trás por se ter apercebido que ia em sentido contrário ao da marcha.

Entro na minha sala. Vazia. Na sala em frente resistem 5 indivíduos que olham absortos para um quadro, cheio de rabiscos. Há um mês a sala estaria cheia, quão cheia lhe é permitido estar nestas alturas. Trata-se, muito provavelmente, de um cálculo qualquer de um curso das ciências exactas. São 5 rapazes, de barba mal aparada, olhos semicerrados que encaram com algum assombro a magia que o professor, habilmente, desenha no quadro. 

Sento-me do meu lado da barricada. Espero, sinceramente, que tudo tenha sido desinfectado. A sala permanece vazia ao longo de cinco longos minutos. São agora 9h e noutro dia qualquer uns 30 miúdos estariam a entrar por estas portas, a sentarem-se sem grande respeito pelo distanciamento social. A culpa não é deles. Dificilmente as cadeiras e mesas distam entre si dos dois metros regulamentados como seguros. Mas a culpa também é deles, porque muitos estiveram até há 2 minutos na rua, a beber café em grupo, com máscaras em baixo, a fumar e a conversar.

Entram 3 alunos, resistentes, que mostram respeito e vontade de aprender. Conversamos um pouco mas, a verdade, é que a matéria está leccionada, os testes foram feitos, os trabalhos corrigidos. Desambiguo algumas considerações sobre os trabalhos e eles seguem o seu caminho. Não deverá vir mais ninguém. Está tudo assustado, refere um deles. Jovens adultos. Assustados. Eu também estou.

Quando sair daqui para a próxima aula, tipicamente povoada por trabalhadores estudantes, terei mais alunos. Assustados. Esses são os que além dos estudos acumulam trabalho, família. Muitas outras voltas e formas de socialização. Eu mesma deixei os meus filhos na escola, antes de vir para aqui. Com muitas outras crianças, com muitos outros pais. Passarei aqui o meu dia, fazendo a opção de, quando não preciso de aqui estar, trabalhar a partir de casa, headphones enfiados, em milhentas reuniões de zoom que levam um ser humano à loucura.

Faço a minha parte mas sinto que não há mais nenhuma a fazer. Agora quando sair daqui vou passar ao bar, que estará aberto, apanhar um café e procurar um canto escondido para o beber longe dos olhares indiscretos e das máscaras no queixo. 

Professora, uma última coisa, não conhecemos a sua cara. É verdade. Que estranho fenómeno este de aprender com aqueles a quem só vemos os olhos. Sorrio atrás das máscara. Cada um faz a sua parte. Mesmo que isso signifique que os que conhecemos sejam, na verdade, completos desconhecidos.

 

1 comentário

Comentar post