Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Seg | 15.06.20

Esta coisa do ensino à distância

Fatia Mor

Estamos a duas semanas, mais metro, menos metro, de terminar a escola. Noutras alturas, teria as miúdas em pulgas com o anseio das férias de verão. Neste momento, cheiro-lhes a indiferença nas palavras e pelas acções de quem sabe de que pouco irá mudar daqui a duas semanas.

Sou acérrima defensora de que o ensino não pode ser conceptualizado através de um televisor; para mim, a parte relacional faz-se pela dinâmica do grupo em que se estabelecem as relações humanas que impulsionam a aprendizagem, permitem variar as técnicas e métodos de ensino-aprendizagem e originam conhecimento nos espaços e nas realizações esquecidas pelo saber-saber directo que este meio digital nos promove.

Os meios digitais deveriam ser, apenas e só, mais um método, mais um meio, mais uma forma, entre tantas outras que a variabilidade dos sentidos humanos nos permite utilizar.

No entanto, vejo um estranho fenómeno que me aquece o coração e que me recorda que talvez estes meios tenham que continuar a existir. Não falo apenas das crianças que estão internadas em hospitais, doentes crónicos impossibilitados de estar em salas de aulas ou de se deslocarem constantemente ao ambiente escolar. A inclusão deve permitir que todos tenham acesso à escolaridade e às competências que se pretendem desenhar com o ensino. Mas não são esses que vejo beneficiarem com estes professores guerreiros, que vestiram um propósito e se atiraram às feras.

São os idosos, os solitários, os que queriam aprender no tempo certo, mas que a vida errada os conduziu por caminhos distantes daqueles que gostariam de ter seguido. São os que se sentam, todas as manhãs, a tentar aprender a escrever, ou a ouvir as histórias contadas porque os seus olhos, cansados, com falta de vista e falta de dinheiro para óculos, já não lhes permitem seguir as letras. São aqueles que tentam aprender uma língua que usam há anos, mas que não puderam aperfeiçoar. São os que sentem a companhia de quem ensina e aprende. 

Com a tentativa de colmatar as necessidades de aprendizagem dos mais novos, apareceu uma turma de outros alunos que beneficia muito mais de tudo isto que as próprias crianças, muito mais estimuladas na era digital e mais do que habituadas a verem conteúdos se sentem enfadadas pelo outro meio do limão que lhes falta. Mas a estes, que nada é pedido, que tudo o que têm é isto, o ensino à distância talvez tenha descoberto uma vocação especial.

Não sei qual será o futuro disto. Não sei se fará sentido, se haverá tempo, recursos, para continuar este projecto. Nem sei se os moldes são os mais correctos, se todos conseguem beneficiar da mesma forma, se de facto diminui as diferenças entre alunos ou se as aumenta exponencialmente. Mas tenho a certeza que diminui, todos os dias, a tristeza, a solidão e aumenta a sabedoria de quem sabe que esta, talvez seja, a sua escola da infância que não teve a oportunidade de viver.

2 comentários

Comentar post