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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Seg | 13.04.15

Essa coisa do babyblues

Fatia Mor

A nossa querida Mulher, Filha & Mãe, aliás corajosa para ser mais precisa, relatou por escrito e em entrevista o fenómeno no qual se viu envolvida! Sem pejos falou de sentimentos assombrosos, de expectativas goradas face ao que toda a gente prometia e do mal-estar, do desespero do pós-parto. 

A maternidade é algo maravilhoso - certamente já terão ouvido o chavão por todo o lado. Eu mesma o repito a todas as amigas que vão entrando ou já entraram nesta jornada da vida. Excepto quando não o é! E tem muitos momentos em que não é! Não é quando estamos esgotadas, quando estamos desoladas com o choro intermitente que não nos deixa dormir, quando queremos que o nosso relacionamento de casal volte a ser como era e percebemos que há uma grande caminho a percorrer até que tudo normalize, que há medos e anseios que temos tanto ou mais medo de confessar com receio de sermos acusadas de ingratidão para com o milagre da vida! 

Por respeito à maravilhosa iniciativa da nossa Mulher, Filha & Mãe, achei por bem relatar a minha experiência da Fatia#1 (conquanto com a Fatia#2 já foi totalmente diferente).

O parto da Fatia#1 foi relativamente simples e rápido para uma primípara. Demorou 12 horas desde que fui admitida no hospital, contando que ainda demorei a ser observada e colocada a soro. Não posso queixar-me de dores porque optei por epidural, o que me tirou a sensibilidade total nas pernas e barriga. Esse facto não ajudou em nada à expulsão, que obrigou a uma equipa inteira a fazer força na minha barriga para que a Fatia#1 nascesse. 

Esperei nove meses por aquele momento. 

Minto.

Esperei uma vida consciente por aquele momento. Aquele momento em que sentiria a minha filha (ou o meu filho) nos meus braços e me apaixonaria instantaneamente. 

Mas Fatia#1 nasceu e não chorou. Um medo imaginável povoou-me ali naquele momento. Por momentos gelei por dentro. Eregi todas as minhas defesas para não chorar. Não era a mim que me competia a tarefa de verter as primeiras lágrimas. Depois de alguns segundos, que pareceram horas, já depois da enfermeira ir a correr pelo corredor com a Fatia#1, à procura do pediatra, ela abriu os seus pulmões. O alívio não chegou. Não ali, e demoraria a chegar.

Quando fomos para o quarto e ma puseram junto a mim senti-me incompleta. Onde estava o sentimento de completude que todos tinham prometido? Onde estava aquele click?

Não sou a pessoa mais romanceadora do mundo. Pensei que o facto de ser mais racional que o emocional me estivesse a bloquear algo que eu pensava ser instintivo e como tal, prévio a todas as elaborações mentais. 

A primeira noite foi assustadora e não fechei os olhos para garantir que via tudo: se ela não deixava de respirar, se fazia xixi, se o mecónio saía, se ela mamava e se estava satisfeita, se não ficaria com fome, exausta de chorar ou mole do calor. Todas as preocupações que pudesse ter assaltavam-me a mente, intrusivas e acusadoras.

O choro começou no hospital, dois dias depois de ela ter nascido e ter tido uma perda ponderal de mais de 10%. 

Mais um dia sozinha com ela naquele quarto cheio de gente!

Chorava por sentir que não ia ser capaz de ser suficiente para ela. Que havia algo na minha biologia diferente da das outras mães. Consolava-me olhar para as outras parturientes, primíparas também, e ver o mesmo ar meio alucinado e assoberdado. Quase que juro que todas sentiríamos o mesmo, em silêncio, sem que nos atrevessemos a falar sobre isso, sob pena de ser sacrilégio.

Mas finalmente chegou o momento de vir para casa. Após uma espera agonizante da alta pediátrica, numa dia caótico para o serviço (segundo nos contaram), chegámos a casa às 20h. 

Ao entrar em casa senti que tudo estava diferente. Como se a realidade se tivesse alterado, deturpando o espaço e o tempo. Como se a sala tivesse encolhido, as cores dos móveis e a disposição se tivesse alterado. O som dos passos no chão era diferente. Não sei quantificar nem descrever essa diferença. Apenas tinha a sensação de não reconhecimento. 

Depois de todas as visitas familiares terem rumado a sua casa e terem-nos deixados sozinhos para absorver toda aquela nova realidade, um medo incrível apossou-se de mim: e se eu não conseguisse cuidar daquela criatura que agora dependia de mim para tudo?

Em acto contínuo, a Fatia#1 desata num berreiro que se estenderia por algumas horas. Logo ali para estragar todo e qualquer momento que se esperava mágico.

E também acto contínuo, desatei a chorar num desespero soluçante, todas as lágrimas que deveria ter vertido logo na sala de partos. 

O Fatiasmén olhava para nós e espelhava ao mais pormenor o desespero. 

Chorei a fio enquanto Fatia#1 chorou. 

Levei alguns dias a chorar pelos cantos, agarrada à minha filha, com medo que ela nunca viesse a gostar de mim, a querer-me como sua mãe. A sentir que talvez nunca atingisse o que era suposto, as expectativas para uma maternidade "linda, maravilhosa, experiência única". Tudo era motivo para largar uma lágrima, que muitas vezes abafei durante a noite para não incomodar quem dormia.

Finalmente, ao fim de alguns dias senti a nuvem levantar. 

Encontrei-me no fundo do meu ser, no reescrever das minhas entranhas. Por fim, era mãe. Já me tinha anulado, descontruído, sentido que podia não ser suficiente para me diminuir o orgulho, involuir o ego. Só assim soube que efectivamente, mesmo após toda aquela destruição interna, eu sairia dali, renascida das cinzas, da dor, da majoração de um Eu melhor...

Mas percebo porque há quem continue nessa espiral negativa, quem nunca veja o fim do túnel, nem a luz brilhante que ele traz. Que evolua para uma depressão pós-parto ou até pior. 

Não sei se é igual para todas as mulheres. A experiência e o defeito profissional diz-me que não. Mas ainda assim, em menor ou maior grau, o ajustamento à maternidade tem o seu quê de transtorno pessoal transitório. Chamemos-lhe adaptação, babyblues, melancolia do pós-parto ou "apenas uma fase", mas existe, é presente e devia ser desmistificado.

E como sabe bem falar disto...

Desculpem lá o testamento!

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