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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Ter | 12.02.19

E agora - Hora do conto

Fatia Mor

E agora? - dizia ele em tom de desafio, à questão que ela lhe tinha colocado segundos antes - E agora? Que queres mais que eu faça ou diga? 

 

Aquele eu, dito de forma a separá-los trespassou-a, ferindo-a ao ponto de sentir uma dor forte no peito. Curvou-se de forma ligeira, como quem se fecha numa concha, a proteger-se do embate que antecipava no olhar frio e vazio que ele lhe dedicava.

 

Agora estava perdida. Agora teria que encontrar uma saída honrada de toda aquela embrulhada em que se tinha enfiado. Tudo está bem quando a ignorância nos assiste, mas depois de sabermos a verdade já não há como a desconhecer. E tudo acontecera tão depressa, que ela mal teve tempo para cerrar as pálpebras e invocar desconhecimento. Ou de tapar os ouvidos.

 

As palavras abandonaram-no da mesma forma que ele se preparava agora para a deixar. O quarto de hotel onde estavam tornou-se frio e ela aconchegou-se ainda mais no robe que trazia vestido, com a pele nua por baixo a sentir-se magoada ao toque do mais suave algodão.

 

Minutos antes ouvira... outra... mulher... apaixonado... sair... aceitar. Eventualmente, teria ele dito algo que intermediasse aquelas palavras, teria formado um discurso concreto. Ela só conseguiu ouvir as esparsas ideias da traição que acabava de se consumar ali à sua frente. Desde que ouvira outra, na sua mente, criavam-se imagens mentais de quem seria ela. Quem seria aquele ser belo, feminino, alto, loiro, elegante, tudo aquilo que ela não era aos seus olhos, que o fazia abandoná-la daquela forma. Quem seria ela que agora ocuparia o seu braço naquelas escapadas românticas, com quem ririam dos amores tolos que surgiam à sua volta, com quem trocariam mensagens escaldantes ao longo do dia, em antecipação do amor suado da noite.

 

Havia outra e essa outra deitava tudo a perder.

 

Depois de longos minutos de silêncio, em que ele se manteve em pé, como numa cena cliché de um filme rasca, junto à janela com um copo de whiskey na mão, ela atreveu-se a fazer a pergunta que agora lhe queimava nos lábios.

- E ela, sabe? Sabe o que vai herdar? Está preparada para o que significa estar ao teu lado? Como a vais deixar sempre para segundo plano? Como ela vai ser apenas o troféu das horas vagas? O corpo que afagas quando te fartas da tua vida burguesa? Do teu trabalho? Ela sabe que vai estar depois dos amigos, depois do golfe, depois das reuniões de negócios, das viagens? Ela sabe que vai ser a compensação e que vai ter prémios de consolação? Perfumes, jóias caras, jantares inebriantes, mas prémios de consolação, pedidos de desculpa meio amanhados porque "ontem me esqueci do teu aniversário"?

 

Toda a dor saí-lhe agora em elevados decibéis de raiva, que ecoavam pelas paredes do quarto, pelo corredor e talvez, até quem sabe, até ao átrio do hotel onde poucas horas antes tinham dado entrada. Nada disso a incomodava. Estava a debater-se para não se afogar no mar de lágrimas que lhe caíam pela cara e manchavam o robe, e que lhe sulcavam de preto as maçãs do rosto salientes e rosadas.

 

Ele deixou que ela se acalmasse e passou-lhe o whiskey para a mão, como quem a prepara para a morte. 

 

- Não vai precisar saber. Vou deixar-te a ti... E à minha mulher. Por ela. 

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