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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 08.05.15

Do feminismo

Fatia Mor

Não consigo deixar de pensar e falar nisto. De um momento para o outro a ideia do feminismo/machismo/sexismo parece estar por todo o lado. Seja porque o povo acordou para essa realidade, teimando em concordar ou discordar com ela, seja porque plataformas surgem em defesa dos princípios da igualdade, seja porque estudos mostram números crescentes de violência doméstica, violência no namoro e de aceitação de comportamentos abusivos em contexto de relacionamento.

Não vou ser como o meu colega Quintino Aires (aqui) que puxa dos seus galões para dizer que é preciso parar com este feminismo de trazer por casa. Mas se muitas vezes discordo com ele, até porque o pouco filtro que ele tem, tem-lhe valido muita discussão no mundo científico, neste caso, acho que sou forçada a concordar com a perspectiva que ele apresenta (não com tudo, mas com parte!).

Há algo que temos que discernir. Sexismo é a discriminação feita com base na cisão sexual (como o racismo é feita com base na raça e por aí a fora). E o conceito de discriminação envolve directamente o comportamento. Portanto são todas as práticas que discriminem um sexo em detrimento de outro. Normalmente, a discriminação minora o papel de um dos sexos. É como pagar mais a um homem que desempenhe exactamente a mesma função que uma mulher. Ou criar quotas para mulheres no parlamento. Machismo é, nessa lógica, o conjunto de práticas comportamentais que sobrevalorizam o homem em detrimento da mulher (com expressão verbal, relacional ou social). E, dentro da mesma lógica, feminismo são as práticas comportamentais que sobrevalorizam a mulher em detrimento o homem.

Na sua natureza ambas são negativas. O problema está no princípio de base. A nossa sociedade é patriarcal. O homem tem um papel central na construção social. Durante séculos foi considerado cidadão único, com direitos irrevogáveis sobre as mulheres que só recentemente puderam votar, decidir sobre o seu destino e expressar a sua vontade (e isso ainda não está conquistado numa grande parte do mundo). A sua supremacia física, resultado de um apurado processo de selecção evolutiva, fê-lo a parte mais forte (na generalidade) da díade homem-mulher. Tem mais força muscular, a sua composição física assim o determina e como tal, isso foi elevado para a dominância sobre a mulher não apenas no paradigma físico mas também cognitivo (o que não é real).

O feminismo surge então, não como tentativa de sobrevalorizar a mulher, mas como forma de reacção ao machismo. O seu significado vai além do literal. Hoje em dia o feminismo é visto como uma luta pela igualdade dos direitos da mulher. Mas a escolha da palavra é, efectivamente, pouco feliz.

Continuo a expressar que talvez devêssemos abandonar terminologias que falem sobre supremacia de um sexo sobre o outro. Talvez devêssemos reflectir que o sexo é apenas mais uma categoria à qual pertencemos, como muitas outras. Talvez devêssemos aceitar que enquanto categorizarmos vamos discriminar (é o processo de discriminação, do ponto de vista cognitivo, que nos permite classificar o mundo em categorias e precisamos delas para construir os nossos esquemas mentais de interpretação do mundo real). Portanto, a nossa educação deve ser para a igualdade. Igualdade de direitos e de oportunidades, respeitando as diferenças que existem entre nós.

Se isso implica repudiar o cavalheirismo a que nos habituamos? Talvez! O cavalheirismo é uma forma subtil de um proteccionismo que tem como origem na supremacia do homem sobre a mulher. Os fortes devem proteger os mais fracos, e assim é. Mas neste caso, mantém-se encoberta a crença de que o sexo forte (homem) deve proteger o sexo fraco (mulheres). Mas parece-me lógico que o papel de abrir o frasco da maionese pode continuar a ficar para o homem, se este for o que fisicamente for mais eficaz. Acho que a bricolage pode ficar para o que tiver mais jeito para a coisa. Assim como o cozinhar, limpar ou passar a ferro…

Não nos podemos esquecer que a discriminação é alimentada por crenças, especialmente preconceitos (atitudes negativas sobre um determinado objeto social). Esses preconceitos são enraizados através do discurso social e da educação. Se mudarmos o segundo, o primeiro seguirá logo depois. Por isso, cabe-nos a capacidade de educarmos para a multiplicidade e não para constrangimentos diádicos que continuam a criar tanta celeuma. Um homem pode gostar de cozinhar, de ballet e de decorar a casa; a mulher pode ser camionista, trocar as lâmpadas lá de casa (ainda ontem fiz isso) e ter jeito para serrar madeira. Isso é um reflexo dos seus interesses e não, directamente, do seu sexo.

 

O todo é mais que a mera soma das partes… lembrem-se sempre disso!

 

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