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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 04.01.19

Do equilíbrio - um desafio...

Fatia Mor

e·qui·lí·bri·o 
substantivo masculino

1. Estado de um corpo que se mantémainda que solicitado ou impelido por forças opostas.

2. [Mecânica]  Igualdade das forças de dois corpos que obram um contra o outro.

3. [Figurado]  Igualdade.

4. Boa inteligênciaharmonia (dentro de um partidoentre partidos diferentesentre naçõesetc.).

 

Por norma, perguntam-me "como consegues?".

A pergunta traz implícita a ideia de como é que eu consigo gerir uma casa, uma família com três filhos, um trabalho, um hobby. 

A verdade é: não consigo. Não há equilíbrio que nos valha, neste campo de forças opostas.

A própria noção de equilíbrio é perigosa. Recordo-me a primeira vez que me deparei com uma teoria de divisão do tempo, numa altura em que achava que não tinha tempo para nada e que precisava de me organizar mais, de equilibrar os meus interesses, vontades e obrigações. 

A ideia é que devemos dividir o dia em 3 partes de 8h. 8 horas para dormir, 8 horas para trabalhar e 8 horas para dedicarmos às nossas actividades de lazer. Tudo perfeito, diria o incauto observador do nada, se considerarmos que tomar banho, preparar refeições, fazer as compras, a limpeza e arrumação da casa, da roupa, etc., como actividades de lazer. Nessas 8 horas restantes, fazemos um esforço para encaixar tudo: o ginásio - porque temos que nos manter fit; o cuidar do lar - porque tudo tem que estar arrumado, limpo, passado; o estar com os amigos - porque temos que preservar a nossa vida social; as actividades culturais - porque temos que manter o sentido crítico e aguçar o sentido estético; e poderia continuar por aqui até me fartar.

Rapidamente, abandonei esta ideia infantil de que temos que dormir!! Podia viver sem dormir e mesmo assim jamais conseguiria manter os mínimos olímpicos de tudo o que é exigido ao ser humano. Voltemos à realidade...

Com crianças pequenas, esse tempo passa a ser usado nas deslocações até à escola, nos trabalhos de casa, em educar, em brincar, em cuidar.

A verdade, é que se pensarmos na quantidade de coisas que gostaríamos de fazer - ou que seria desejável fazer - estaremos sempre a perder. E se pensarmos que é possível estabelecer um equilíbrio entre todas estas dimensões da nossa vida, então, mais vale deitarmo-nos a chorar a um canto da casa, enquanto desejamos ardentemente que esta se arrume sozinha.

A realidade é que não há equilíbrio. Quando optamos por um caminho, sabemos que estamos a descurar outro. São escolhas, são opções, que iremos, mais tarde ou mais cedo, sofrer as consequências. Podem ser boas. Mas também podem ser más. 

Sou uma afortunada. Tenho as condições para ter toda a ajuda do mundo e mesmo assim não tenho tempo para tudo. Não consigo equilíbrio.

Curiosamente, devo ainda acrescentar, que este problema do equilíbrio só parece afectar as mulheres.

Nas muitas vezes que me perguntam "como consigo", poucas ou nenhumas são aquelas em que esta questão se estende ao meu marido. Portanto, implícito está que as mulheres é que têm que procurar o equilíbrio, porque a elas lhes cabe toda a responsabilidade acima determinada.

A verdade é que não. Não pertence. Nem a quero toda só para mim. Os homens são seres válidos que trabalham tanto como as mulheres, quer em casa, quer no trabalho. Eu sei, acredito em contos de fadas. Mas também quero acreditar que esses príncipes encantados andam por aí, nas casas, nos lares de todos nós. 

Vai daí, notei que tanto discriminamos a mulher por assumirmos que é a sua responsabilidade subdividir-se de forma equilibrada em saltos altos pelas diferentes vertentes da vida - criticando-nos duramente quando descuramos de alguma - como discriminamos os homens ao assumirmos que eles não podem, nem querem, assumir a sua dose de responsabilidade social e familiar a que estão dedicados.

As famílias mudaram, os valores alteraram-se, os papéis tornaram-se mais permeáveis. É preciso atender a isso e criar as condições para que os homens não sejam estigmatizados quando faltarem para cuidar de um filho doente, quando quiserem acompanhar a mulher no curso de preparação para a parentalidade, quando pretenderem poder usufruir da sua licença de parentalidade, sem interrupções, sem interferir com o trabalho. É preciso criar as condições para o equilíbrio não seja alcançado à custa de nos perdermos nos nossos afazeres, mal feitos, mas na capacidade de compreensão e cedência entre o casal.

Vamos destruir o mito do equilíbrio, a bem da nossa sanidade mental, e vamos trazê-lo para onde deve realmente existir: na simetria dos papéis familiares.

E agora, um desafio! Estou à procura de famílias simétricas para fotografar. Mães e pais que dividam o trabalho, o planeamento, a carga mental e emocional de gerir a sua vida. Pais que não tenham vergonha de mostrar que usam os seus direitos plenos de parentalidade, que fazem tudo, tal como as mães. Conhecem? Acreditam nesta ideia? Mandem-me um email para umfelizacaso@gmail.com e vamos conversar um pouco sobre isso!

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