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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Ter | 04.02.20

Desafio de escrita dos pássaros #2.1

Fatia Mor

Pego no meu cigarro electrónico com algum desprezo e tristeza. O vício real deixei-o no passado, onde moram os arrependimentos, que se passeiam nas tristes alamedas da minha memória. Quando empurro uma baforada daquele ar quente para os meus pulmões, vejo o vulto que se aproxima da porta. O vidro fosco deixa antever umas pernas altas, umas ancas torneadas e uns cabelos compridos. A timidez com que bate à porta grita ao meu sexto sentido que algo não vai correr bem neste caso.

Ser detective privado foi uma escolha não voluntária. Depois de uma breve e meteórica passagem pela polícia, o meu ímpeto pôs-me a perder. A solução foi abrir um consultório discreto, numa cave bafienta, com uma senhoria de 80 anos que insiste em ver-me como o seu filho, há muito morto na guerra em África. 

Mas voltemos ao caso. A porta abriu-se e a luz contornou-lhe a silhueta, deixando-me intimidado. Num aceno de cabeça mandei-a entrar e sem demoras sentou-se à minha frente, com o telemóvel a saltitar entre mãos. Olhou de soslaio para o meu cigarro electrónico. Não a condenei. 

- Falaram-me que era o melhor do seu ramo - sinto-lhe a desconfiança na voz - preciso da sua ajuda.

- Talvez não seja o melhor, mas seguramente sou o mais empenhado. Se isso servir, diga-me que tipo de ajuda precisa.

Sem hesitar, estende-me o telemóvel e mostra-me uma mensagem com um pedido de resgate. Os meus olhos, habituados a bater mensagens de todo o tipo, sentiram a veracidade da ameaça e o cliché, bem representado, rematava com o "não chame a polícia". Tinha um link. Malditos hackers. Malditos links. Agora tudo tinha meio de pôr a nu a vida de uma pessoa. As lágrimas corriam-lhe pela cara. Devolvi-lhe o telemóvel.

- Ninguém pode saber disto. Sabe quem eu sou?

Aquilo não era um concurso de a tua cara não me é estranha. Não controlei o esgar. 

- Sei. E por isso acho muito estranho que não seja o serviço de informações de segurança a receber isto. 

Levantou-se de rompante, bateu com os punhos na minha secretária do IKEA a imitar mogno e avançou para mim furiosamente:

- Está a brincar comigo? Não quer o caso, bato já a outra porta. - e neste perfeito teatro, agarrei-lho o pulso quando já se virava para sair, fazendo-a estacar: 

- Acho que a coisa não vai correr bem, mas estou ao ser dispor.

(continua)

 

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem.

Este texto deveria ter sido publicado na sexta-feira, dia 31. Podem acompanhar os restantes textos deste desafio no blog Desafio de Escrita dos Pássarosjá na sua segunda edição.

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