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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 08.11.19

Desafio de escrita dos pássaros #9 - Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta

Fatia Mor

Ai! A minha cabeça. Mas onde é que eu estou? Areia. Mar. Onde é que estou? Mas o que se passou? Ai! A minha perna. O meu braço. Isto é sangue? Mas o que se passou? Não há ninguém. Ninguém. Estou sozinho? Mas onde é que eu estava? Estou a enlouquecer. Estou a enlouquecer. Acalma-te Aníbal, acalma-te. Fecha os olhos. Abre-os. Tudo igual. Passou-se alguma coisa, mas… Não consigo perceber o que se passou. Onde é que isto fica… Mas onde é que eu estou? Completamente só. Sinto-me tonto, devo ter alguma hemorragia interna. Estou perdido nesta ilha. Só vejo água, água, água e areia. Não sinto a minha mão esquerda, devo ter partido o braço. Mas onde. ONDE? ONDE? Acalma-te Aníbal. De certeza que alguém já deve ter dado pela tua falta. A Cristiana deve dar o alarme quando vir que eu não liguei o telemóvel ou não lhe disse onde estava. Eu sei que devia estar a chegar a algum lado, mas não consigo lembrar-me. Devo ter batido com a cabeça. Estou tão tonto. Acho que vou vomitar. Que nojo. Que coisa castanha é esta? Ao menos, estou melhor. Mas continuo sem saber o que se passou. Só queria voltar a casa. À minha casa. Ver os meus pais. A Cristiana. Vai achar que eu a abandonei, que não a quis, que desapareci sem deixar rasto. Porquê, meu Deus, porque é que me atiraste para esta ilha, nu, perdido, sem memória. A minha mãe deve estar desesperada. Só queria o seu abraço. Não me lembro da última vez que vi, nem que a abracei. Nem que lhe disse que a amo. Ou que vi um jogo do Sporting com o meu pai, que o abracei. Só queria mesmo aquelas favas fritas intragáveis e uma cerveja para brindarmos. Cristiana, ó Cristiana! Não desistas de mim, vem à minha procura. Tenho tanto sono, se eu me deitasse um bocadinho, pode ser que acorde deste pesadelo ou que alguém me venha buscar.

 

Cristiana abraçou a sua melhor amiga, com os olhos vermelhos da dor de que estava acometida. O funeral decorrera horas antes. Como te estás a aguentar?, perguntou-lhe a amiga. Não estou, não acredito que ele não está mais aqui. Não posso acreditar que aquele cancro o levou, tão novo, tínhamos tanto para viver… A amiga estava desolada. Tenho a certeza que ele está a olhar por ti, esteja ele onde estiver!

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