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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 18.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #6 - O Amor, uma cabana… e um frigorífico

Fatia Mor

As madeiras, de um castanho envelhecido pelo tempo, davam-lhe um ar pretensiosamente romântico. O telhado, coberto das folhas outonais que se desprendiam das árvores caducas, adquiria a tonalidade amarelada do pôr-do-sol. Dir-se-ia que era ali, naquela cabana, no sopé daquela montanha, que a paixão e o tempo teriam gerado o amor! Podíamos, por isso, encontrá-la a falar placidamente com as paredes, para que o passado ouvisse o seu presente solitário e lhe granjeassem um futuro.

Por mais que os amigos lhe dissessem que era apenas sádico que continuasse ali, depois daqueles anos todos, numa reclusão solitária, ela não abandonava a última morada daquele grandioso amor.

O chão torto recordava-lhe a discussão acirrada da escolha da tonalidade da madeira. As janelas lembravam-lhe os beijos trocados, entre cá e lá, já em cima do atraso da saída para o trabalho. A cama era a memória impressa das conversas noturnas, dos abraços de inverno, do toque subtil dos seus pés no pico do verão.

Talvez por isso, velhos hábitos subsistissem, e persistisse em colocar a mesa para os dois, adornando-a com flores campestres colhidas pela manhã, e com as velas, com que iluminava a penumbra dos seus serões.

Falava com ele, amavelmente, recordando-se da última grande discussão, antes de ele desaparecer da sua vida. Já o tinha perdoado, mas ele teimava em não retornar. Por vezes, enraivecia-se a ponto de partir as pequenas jarras de cristal de coleção, que ele lhe tinha ofertado por cada mês de casados.

Logo se acalmava, dizendo-lhe que era apenas a dor transformada em forma física, que os seus sentimentos eram diametralmente opostos àquela energia, que ele podia voltar. As árvores respondiam-lhe com os seus lamentos, ao serem fustigadas pelo vento, e ela jurava que lhe podia ouvir a voz a dizer “jamais”.

Nesses dias, perdida de dor, ela levantava-se cambaleante do gin que consumia puro, da garrafa, e agarrada a cadeiras, mesa, e bancadas, precipitava-se para o frigorífico combinado, sempre vazio de alimento.

Com o olhar alucinado pelo álcool e celerado pela dor, abria a porta do congelador com resolução e retirava de lá um tupperware enegrecido pelo frio.

E com as lágrimas a bailarem-lhe nos olhos, abria-o e passava as mãos pelos cabelos daquela cabeça azulada.

Porque me abandonaste? Éramos tão felizes, com o nosso amor e esta cabana?

E em seguida, obrigava-se a fechar a caixa, que guardava com exéquias fúnebres, enquanto murmurava “ainda vais voltar para mim”.

 

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