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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 11.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #5 - Estás na fila para o purgatório (...) [COMPLETO]

Fatia Mor

Pedro rodopiava um molho considerável de chaves na mão, com ligeiro desconforto e impaciência, fazendo-as tilintar ao ponto de Lúcifer lhe atirar uma fagulha para as vestes, como quem diz “daqui-a-bocado-isto-pega-mesmo-fogo”.

À sua frente estava um homem pequenino, de bigode rente, cabelo à escovinha e ar de tótó.

S. Pedro suspirou mais uma vez e olhou para Lúcifer, que redarguiu logo,  - É que nem penses, santinho, não me convences com esse ar de cordeiro!.

- Mas Lúcifer, por favor, sê razoável! Se vamos levar isto ao Altíssimo vamos ter problemas. Não preciso de te lembrar como acabou a contenda sobre Gengis Khan, pois não?

Hitler continuava sem saber o que dizer. A verdade é que sempre pensou que as portas do Céu lhe estariam vedadas, mas tinha depositado as suas fichas no inferno. Literalmente.

No jogo de póquer da última quinta-feira, tinha feito um all in e tinha ganho as chaves do Inferno ao próprio Lúcifer. E agora, o falso, não o queria deixar entrar!

Quando o impasse parecia estar para durar uns milénios e com os arcanjos a prepararem-se para ir fazer queixinhas ao-do-Alto, um fulano bem parecido, atravessa-se no assunto, enquanto salta de um carro em chamas, em grande estilo. Umas tantas beatas que aguardavam destino na fila, suspiraram de emoção.

- Adão, advogado, ao vosso dispor.

- Só faltava este! - rugiu Lúcifer.

- Ainda gostava de saber em que escola de anjos andaste tu – disse-lhe S. Pedro – para não enviar para lá nenhum! Que maneiras, velhaco! Diz lá, Adão. – atirou-lhe o santo, com paciência.

- Caríssimos, permitam-me colocar-vos um pequenino dilema. Imaginem que se encontram numa encruzilhada com duas saídas.

- Isso não é uma encruzilhada – tossiu o diabo.

- Naziiii da palaaaaavraaaa pá! Não há quem te ature! – trovejou-lhe S. Pedro.

- Pronto! Pronto. Uma bifurcação. Em cada uma delas está um humano. Um diz sempre a verdade, o outro mente. Um dos caminhos conduz-te à morte. Só podes fazer uma pergunta. Como sais daí, pelo caminho certo?

Pedro e Lúcifer trocaram um olhar cúmplice e intimamente concordaram que o Adão já tinha perdido o tino, certamente depois de ter sido enganado pela Eva. Falava-se de uma história com uma maçã, mas nunca se chegara a apurar o que realmente tinha acontecido; só se sabia que eles continuavam juntos.

Adão continuava expectante, como quem espera permissão para falar.

- Mas quem tem isso a ver com o caso? – impacientou-se o diabo.

- Nada! Puseram-me esse desafio lá no escritório e estou a pensar nisto até agora.

Pedro resolveu actualizar o seu perfil do angelsbook para ver, mais uma vez, que as notificações eram apenas relacionadas com o clima.

- Olha, eu sou da opinião – diz S. Pedro enquanto tira uma selfie com uma das beatas – que tu apostaste e perdeste as chaves do inferno, tu que o atures.

- Mas olha lá para ele… - o diabo olha-o de soslaio enquanto Hitler continuava impávido. – Tem ar de que vai querer ficar com o meu lugar. Demorei muitos anos a criar este antro de malvadez e perfídia, não vou, agora, metê-lo cá dentro para me fazer a folha!

- E se lhe deres um cargo tipo relações públicas? O tipo foi bom. Já viste? Mau como as cobras, mas no que toca a marketing, tenho que lhe tirar a auréola.

- Pódia sêrre o teu VêPê. – o sotaque alemão arranhou-lhes os ouvidos. Pela primeira vez, ouviram-lhe a voz desde que se tinha apresentado para entrar no Inferno.

- Eu sei que tu andarre cansado, todos reclamaré dós castigos que dás; nó é correto estarre desde o princípia dós tempus num cárgó désses, sem dirreito a férrias, fins-de-sémana. Nem aumentus! Que eu bem sei qué náda té tem sido dado. Meterram-t’aqui neste profundeza e nem um elevadorre, nádá! Já nó vais para nôvô! Merreces descansarré um pouco, terrrr quem te auxilie nas torrturras, tenhó imensas idéiás nóvás.

O diabo estava perplexo.

- E tu, S. Pêderro? Eu bem viá… Se choverre a culpa é tua, se secarre támbém, se morrem de ferrio ou de calore, é pórqué tu não teres mão nós céus! Fótós dos terremómetrus dos carrus… Uns inguerratos! Pódia substituirre-te um vez por outrra, támbém. Pela tua posturrá, tens clarramente uma conterratura muscularre por carregare as cháves ó diá tódo. Esse cajado não enganarre ninguém! Atenderre às pessóas em pé, sem dó, nem piedade… Pérrecisas de quem té ajude. Eu sou ó teu homem.

Pedro sorria. Milénio após milénio e nunca ninguém tinha pensado nele!

O diabo apaziguou-se e S. Pedro aquiesceu, levemente. O maldito tinha razão! Talvez pudessem jogar isto a favor deles.

- Já sei! – gritou o Adão – Heurec…

- Pára já aí, que eu estou a representar os direitos de autor da expressão “Heureca!” do Arquimedes. Ou pagas os fees do copyright ou é plágio e vamos ter chatices! – Eva saía de dentro do carro, em todo o seu esplendor, num vestido feito de fibras vegetais, em verde éden, da última estação! As beatas olharam-na de alto a baixo e comentaram logo os stilettos de pele de cobra. (Ordinária, comprou aquilo nos saldos, só pode!)

- Ui, agora é que isto pega fogo… Ó S. Pedro, vamos pôr-nos ao fresco, que o nosso trabalho aqui está feito.

- Nada disso. Eu já sei para onde é que ele vai. – Eva estava determinada a acabar com o impasse. Pegou no seu IPhone, digitou um número de acesso rápido e formulou várias questões às quais recebeu respostas afirmativas.

– Vais para o sindicato e não se fala mais nisso! – disse ela, enquanto desligava. – Preciso de quem consiga lidar com a entidade patronal e com estes dois. Siga, que eu tenho o jantar ao lume e ainda tenho de ir separar o Caim e o Abel. Estes meus filhos ainda se matam, um dia destes, e depois quero ver… Entrou no carro, chamou Adão e desapareceram no firmamento, deixando um rasto de estrelas para trás.

Pedro e Lúcifer acharam por bem acatar a decisão e despacharam os processos de saída do Hitler. Este foi enviado, à velocidade da luz, para o limbo, onde os sindicalistas o receberam em apoteose.

Talvez agora conseguissem algum sítio para ficar até ao fim dos tempos, em vez de estarem ali, no nada, à espera de alguém que decidisse algo sobre os seus casos.

 

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