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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 04.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #4 - A Beatriz disse que não. E agora?

Fatia Mor

Aproximou-se da porta, entreaberta, e espreitou para dentro do quarto. A parca luz de presença que iluminava o corredor delineava as suas sombras, deitadas na cama. Percebeu na penumbra que ela estava encostada a um lado da cama, quase a cair, como dormia sempre; ele aninhado nas costas dela, como se não houvesse mais espaço nenhum. Os dois, num só.

A medo e para que a madeira velha daquele apartamento não rangesse e os despertasse, adentrou-se ao quarto, procurando movimentar-se no escuro. Tal como naquela cama preenchida, nunca lhe fora permitido ter espaço naquele território de amor, naquela relação de namoro que começara anos antes, no dia em que Beatriz lhe anunciara que estava grávida.

Ainda conseguia evocar a alegria que o invadiu quando o soube. O lugar-comum de um sentimento como nunca pensara poder sentir. Um filho! Profetizou um menino, João como ele, Pedro como o avô. João Pedro. Seria o menino mais amado e desejado deste mundo.

Todavia, sempre que tentava viver de perto aquela gravidez, Beatriz repelia-o. Primeiro, era o cheiro do perfume que lhe dava náuseas violentas, depois o desconforto das formas redondas que ela nunca interiorizou, por fim os efeitos das hormonas que a faziam agredi-lo verbalmente.

O nascimento trouxe uma paz podre à relação e cedo percebeu que não teria grande cabimento nos primeiros tempos do filho. Beatriz dominava, amamentava, trocava fraldas, embalava. A imensa felicidade foi substituída por alguma cobrança de parte a parte, distanciamento e frieza. Dois anos transcorreram, validados pelos amigos que asseguravam a João ser assim em todas as casas. Nada seria como dantes, mais valia habituar-se.

Nessa noite, não foi diferente e depois de trocar de roupa, lavar os dentes e arrumar os brinquedos semeados pelo chão do quarto, decidiu ir dormir para a sala.

Mais uma vez.

A meio da noite, Beatriz apareceu, harmoniosamente despenteada, com as lágrimas nos olhos, oprimida nos seus sentimentos. Precisamos falar. João sentou-se, elaborando justificações. Ela não significou nada, garanto-te! Eu amo-te. Beatriz manteve-se inalterada, como se aquela informação fosse velha. Eu sei.  Passou-lhe a mão no rosto, sentindo-lhe as dores.  Ele sabia que um dia teriam de falar disto, só não pensou ser naquele dia, àquela hora, mas as conversas difíceis não se fazem anunciar. Inspirou, longamente, para reunir as fibras da coragem e fez vibrar a questão de uma só assentada.

Ele não é meu filho, pois não?

Não, respondeu Beatriz.

 

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