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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Dom | 22.03.20

Desafio de escrita dos pássaros 2.8

Fatia Mor

- Não deve ter sido nada disso. Sofremos recorrentemente ataques. Hackers de jornais e publicações da vida social, à procura das fotos do antes e depois das famosas que passam pelas minhas mãos.

O tom gabarola de deus-da-cirurgia tinha voltado e ele parecia senhor da sua vontade, novamente.

- E agora é tempo de ires embora. Está tudo explicado. Não sei mais nada.

- Certo, vou fazer que acredito nisso. Então, só mais uma coisa. Qual era o nome da Sofia? É que a Sofia Frias apareceu, assim, e não há nada que a relacione com o seu passado. E estou desconfiado que o nosso PM não faz a menor ideia que ela, e tu, já agora, têm uma filha.

- O nome? – parecia hesitar.

- Sim, a merda do nome dela.

- Lamento, mas o acordo que fiz com ela não me permite…

Não acabou a frase. Antes mesmo que eu começasse a argumentar que uma criança estava, algures, presa numa marquesa, a servir de chantagem e que ele estava preocupado com um acordo com mais de uma década de existência, começámos a ouvir gritos desesperados vindos da recepção.

Ouvi um estrondo que me era familiar. Entrei em modo de sobrevivência, agarrei no Barbosa e procurei uma saída rápida. O consultório tinha uma sala adjacente, para observação das pacientes de forma mais privada. Agarrei-o, ao segundo estrondo e segundo conjunto de gritos e num empurrão enfiei-nos lá dentro e tranquei a porta.

- Agora vais dizer-me o nome dela ou ainda não percebeste o que está a acontecer aqui? – rosnei-lhe, num tom grave, porém quase inaudível.

- Não faço ideia o que querem de mim… Não a vejo há anos. Juro! – os tiros lá fora continuavam, claramente para espantar toda a gente e parecer que era um assalto. Ouvi-os entrar no consultório dele e a remexerem o computador, empurrarem tudo para o chão e sentarem-se à secretária.

- Estes gajos parecem discordar, pá!

Colocamo-nos atrás do armário, que divide a divisão. Não estão preocupados em encontrar-nos, caso contrário, já estariam ali dentro. Ouço-os falar, enquanto decidem se procurar ali mesmo, no computador, ou se levam tudo com eles. Optam pela segunda. Saem com a mesma algazarra carnavalesca, levam também algum dinheiro da caixa, e desaparecem.

Espero uns minutos, abro a porta e vejo todo o escritório voltado, literalmente, do avesso. Na recepção, começam a aparecer as funcionárias, todas ilesas, mas marcadas para a vida.

O Barbosa está branco. Da cor das paredes assépticas, a condizer com a toda a decoração do seu consultório. Eu sinto-me vermelho de raiva.

- Foi tão bom, não foi? Agora diz-me tudo o que sabes antes que eu mesmo te vire ao contrário e faça o que aqueles gajos te iam fazer, se te apanhassem.

 

Tema da semana (20/03/2020) - Foi tão bom, não foi?

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