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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Dom | 22.03.20

Desafio de escrita dos pássaros 2.7

Fatia Mor

Ouvi-me a soletrar, tomado pelo choque. Tu – a fi – lha?

Bebeu o whisky que tinha no copo de uma só vez e serviu-se de outra dose, fazendo o mesmo no meu copo, que me apercebo que eu também tinha acabado de esvaziar.

- Sim. Eu e a Sofia temos uma filha. Epá, não é bem ter. Há uns anos, muitos, a Sofia teve um cancro raro; 5% de hipóteses de sobrevivência. Éramos amigos, tínhamos passado algum tempo juntos, nada de sério. Quando ela soube, quis congelar uns óvulos. Eu aconselhei-a no percurso, ainda estava nos primeiros anos de faculdade. Ajudei-a ao longo de toda a doença. Ela safou-se. Quando os médicos lhe disseram que, miraculosamente, estava curada, ela quis ter um filho. Não sabia o futuro e queria ser mãe. Apesar de ter ficado em menopausa devido ao tratamento, tinha os óvulos e pediu-me para ser o dador.

Calou-se. Aquilo tinha-lhe saído de chorrilho. Eu não sabia. Ninguém sabia. A Cláudia, certamente, não sabia. Ou saberia? O que mais haveria sobre ele, sobre eles, que eu não fazia ideia? Comecei a sentir o mundo a rodar sobre mim, a enclausurar-me, o coração a palpitar, as palmas das mãos a suar… Um ataque de pânico estava iminente.

Sabia que não ia morrer. Experimentava aquilo com frequência desde que o trágico acidente se tinha dado. Estranhamente, percebi que pensar no meu elogio fúnebre me ajudava a ultrapassar o medo de morrer. Imaginava a igreja, o meu irmão a falar aos presentes, a dizer que apesar do caminho de vida difícil que tinha tido, tinha sido amado por todos os que me rodeavam. Que após a morte do meu grande amor, tinha abraçado o mundo, viajado, feito voluntariado. Que tinha transformado a minha perda, num conjunto de acções com significado. Que o meu nome seria recordado em cada bairro onde tinha ajudado a construir uma casa. Onde tinha ensinado técnicas de autodefesa a jovens adolescentes, como a minha falecida esposa sempre desejara. Como tinha sido um homem bom.

Não era nada daquilo, mas pensar que teria de o ser até morrer, fazia-me voltar a mim. A dada altura, voltei a ouvi-lo falar; estava de costas para mim, como se eu fosse um terapeuta de renome e continuava na sua descrição.

- … e nunca mais soube nada dela. O acordo selava o nosso destino, em como eu nunca interferira na vida dela, nem na vida da criança. Só voltei a vê-la, quando apareceu reinventada nas revistas sociais, muito diferente do que eu a tinha conhecido, com um novo sobrenome.

Consigo articular um percebo.

- E acho que é tudo. – volta-se para mim e convida-me a sair. Permaneço sentado.

- Que mais queres que te diga? Acho que já disse tudo o que sabia sobre a Sofia, há 15 anos que não a via. E é tudo! Espero que ela consiga perceber o que aconteceu. Que tu consigas perceber o que aconteceu. Mas agora quero-te fora daqui.

A minha mente ainda estava confusa entre o choque e o ataque de pânico, mas fiz um esforço para dar continuidade àquele estranho encontro.

- Ainda não percebi o que procuravas nesse computador, nem o que outras pessoas poderiam querer com os teus ficheiros. Ou já te esqueceste que há meia dúzia de minutos alguém tentou aceder remotamente ao teu computador?

 

Tema da semana (13/03/2020) - Escreve o teu elogio fúnebre

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