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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Dom | 22.03.20

Desafio de escrita dos pássaros 2.6

Fatia Mor

- Muito me surpreende que tenhas a lata de vir aqui, depois deste tempo todo. – o ar do Barbosa era imperturbável. As palavras saíram-lhe sem pinga de emoção.

Olho-o e vejo-o mais velho, mais cinzento. As rugas em torno dos olhos davam-lhe um ar de galã de cinema dos anos 50, ainda assim, envelhecido antes do seu tempo. Deixei que a raiva me aflorasse à garganta por alguns instantes, mas rapidamente me compus.

- O caso é maior do que nós, parece-me e veio parar-me às mãos, sem que eu quisesse. – não ia pôr a descoberto os meus problemas financeiros, motivo pelo qual não tinha desistido logo de seguir, o que me parecia ser, o fim do mundo.

Até então tinha estado de lado, na sua cadeira, a fitar o écran do seu computador. Virou-se lentamente para me encarar e, por momentos, desejei que os tempos de companheirismo perdurassem.

- Sim… e? Que tenho eu a ver com isso?

- Sofia Frias.

- Como?

- Sofia Frias, mulher do nosso primeiro-ministro. Entrou hoje de manhã no meu escritório, lavada em lágrimas, sem segurança de qualquer tipo, com um telemóvel na mão que transmitia um vídeo em tempo real de uma miúda, a cara chapada dela, numa marquesa médica, em isolamento. E o teu nome surgiu como referência. Aqui estou.

Estava pálido. Estático. De um momento para o outro desatou a bater furiosamente no teclado do computador, a clicar no rato, no que me parecia ser um frenético abrir e fechar pastas, como quem procura desesperadamente o passado dentro da tecnologia. Olho-o com pasmo pois a última vez que o vi a perder a calma e descontração que lhe era característica foi quando…

- Não encontro! Merda! A porra dos computadores! Nunca fazem nada do que queremos!

Nesse instante, um écran azul plantou-se à frente dele. Depois, ficou tudo preto e um conjunto de letras brancas começou a correr rapidamente, num ambiente não familiar...

- Oh não, outra vez a porra de um vírus -  praguejou novamente!

Mas não era um vírus. Num ato imperioso, arranquei a fonte de alimentação do computador.

- Não é um vírus. Alguém quer o mesmo que tu procuravas. Mas o que raio tens tu a ver com esta situação?

Um silêncio demasiado incómodo tomou conta da sala. O Barbosa levantou-se, tirou dois copos que estavam escondidos atrás de colossais livros de medicina e procurou uma garrafa de whisky numa gaveta esquecida. Serviu-nos, sentou-se e disse:

- É minha filha.

 

Tema da semana (06/03/20)- Ó não, um vírus outra vez!.