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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Dom | 01.03.20

Desafio de escrita dos pássaros #2.5

Fatia Mor

Saí do Uber resoluto em me cingir apenas ao caso. A cada passo, mais decidido, aproximei-me da fachada da clínica de medicina estética, com um nome apelativo, linhas direitas, paredes brancas e decoração caríssima. A vida corria-lhe bem.

No momento em que empurro a porta, para me adentrar naquela recepção asséptica, onde trabalham apenas mulheres altas e loiras, de lábio polposos pintados de vermelho, deixo-me viajar no campo das hipóteses. O perigoso mundo dos ses.

Se a Cláudia me tivesse dito que não, ao meu tosco pedido de casamento, talvez ainda estivesse viva. Esse era o meu sonho, o meu maior desejo; que ela não tivesse engraçado com o meu sorriso bruto, com o meu ar quadrado, pragmático e nada romântico; que ela não se tivesse rido à gargalhada, deixando-me ainda mais desconfortável, quando me ajoelhei junto aos Clérigos; que não me tivesse feito ficar assim, de joelhos na dura calçada, durante 10 minutos, enquanto perguntava a todos quanto passavam por nós, se devia aceitar, até se juntar um conjunto considerável de estranhos que aplaudiam enquanto ela me elevava e me saltava ao pescoço com um redondo "sim".

Nesse dia fui o homem mais feliz do mundo e nada, nem ninguém, se poderia intrometer nessa felicidade. 

Mas se ela tivesse dito que não, teria sido tudo mais simples. Eu teria sofrido, como um cão sarnento, durante meses a fio, sem perceber o motivo da recusa, que teria colocado de forma imediata um ponto final na nossa condenada relação. Ela teria seguido o seu verdadeiro amor, aquele que nunca me confessou, por vergonha, por temor do que fizesse à minha vida. Mas teria sido feliz. Ele teria sido feliz. Não a teria visto morrer nos seus braços, enquanto lhe confessava todos os erros da sua vida, e eu não teria vivido com o peso de consciência de a ter matado, antes de ela ter morrido.

Esse teria sido o meu sonho, o meu dia mais perfeito. O dia em que ela me teria dito que não, em vez de dizer que sim.

Despertei do torpor, quando vi a última cliente sair do consultório e a recepcionista me anunciou, de forma algo preconceituosa, o "Dr. Barbosa está à sua espera no gabinete 1, para a sua.... consulta."

(continua)

 

Tema da semana - Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia.

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