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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 10.01.20

Desafio de escrita dos pássaros #17 - Luz e sombra

Fatia Mor

Miguel tinha 4 anos quando viu uma sombra pela primeira vez. Miguel sabe que já tinha visto muitas antes. Aquela, quando tinha 4 anos foi especial. Viu a sua mãe colocar-se ao sol, para se aquecer naquela manhã de inverno, e quando deu por si tinha-se colado à sua imagem no chão e tinha desaparecido, como que por magia. A sombra fazia-o invisível aos olhares do mundo. E isso era ser especial. 

Foi também nesse dia que viu a sua mãe pela última vez. Por isso essa sombra era tão única. Ela entrou no autocarro e nunca mais voltou. Deixou-o invisível, no passeio, até que uma nuvem se atravessou no caminho do sol e ele apareceu como por magia. De repente, toda a gente o viu ali, sentado no passeio, com o seu peluche na mão, prestes a chorar. 

Nesse dia procuraram, por todo o lado, a sua mãe. Miguel achou que ela também tinha tropeçado na sua sombra e tinha ficado invisível. Não fazia mal. Um dia, uma nuvem em frente ao sol traria a sua mãe de volta. 

Veio o pai que não tinha sombra. Pegou nele e levou-o para casa da sua avó. A sua avó tinha uma sombra do tamanho do mundo. Crescia todos os dias. Miguel tinha medo de tropeçar na sombra a avó e de nunca lá sair, tão grande que era. Por isso, andava sempre ao seu lado, muito direito, para não se enganar. Imaginem que lhe desaparecia um só pé? Ou uma mão? Como brincaria com o gato da vizinha?

Um dia contou os seus medos à sua avó. Era um dia de muito sol e a avó não parava quieta. A sombra também não. Tenho medo de desaparecer. A avó riu, riu, riu tanto que caiu no chão em cima da própria sombra. Desapareceu. Miguel deixou de a ver. O pai veio, outra vez, buscá-lo. Continuava a não ter sombra. Miguel tinha 6 anos. 

Levou-o para sua casa. Miguel vivia encostado às paredes com medo das sombras todas que estavam em casa do seu pai. Sombras de pessoas que entravam e saíam sem reparar nele. Por vezes, escondia-se nas sombras dos móveis para poder vê-los melhor. A sombra de seu pai teimava em não aparecer. Miguel chegou aos 16 anos. A sombra de seu pai continuava em parte incerta. Miguel encheu-se de coragem e disse-lhe vou procurar a tua sombra. O pai olhou para ele atónito. Ninguém pode ver a luz, se não vir a sua sombra. E foi em busca do bom que o seu pai tinha perdido, um dia. 

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