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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 03.01.20

Desafio de escrita dos pássaros #16 - Sobre a vida adulta: ainda não entendi o que é para fazer

Fatia Mor

Ó Patrícia, chega aqui m'lher!

O gritado vinha da porta e Patrícia assomou-se ainda a limpar as mãos do peixe que amanhava para o almoço. Enquanto abria a porta, já ouvia os prantos de quem estava com a vizinha. O coração pressentiu o que a mente não viu e, de imediato, descompassou-se. 

Tu vem daí, tu vem-me daí que é o teu Manel. 

Patrícia estarreceu e a custo fez as pernas, desfalecidas, obedecerem. Deu alguns passos hesitantes - na verdade não sabia para onde ir - mas logo começou a correr desalvorada, pela ladeira até chegar ao cruzamento, iluminado pelo azul da ambulância. O seu Manel estava estendido no chão, tapado por um lençol de sangue e marcas de pneus em fuga. 

O mundo girou depressa demais para Patrícia, que se tentou agarrar às mãos que a rodeavam sem sucesso. Acordou no hospital, com médico, psicólogo e a sua tia Zezinha, à sua cabeceira. Zezinha que sempre fora despachada atirou-a às feras. Vamos embora que tens muito que tratar. O médico diz que não tens nada, estás apenas em choque, mas deram-te aquelas coisas p'ra t'acalmares. Vamos que tens que ir escolher a roupa, o caixão e as flores para o velório. 

Patrícia obedeceu, automatamente. A voz perdera-se no caminho. As lágrimas. Perturbava-se pelas lágrimas. Onde estariam elas? Talvez na primeira vez que se tinha deitado com o seu marido, ignorante da vida de casal e que ficara em choque com a brusquidão do tão falado amor. Ou quando ele lhe levantou a voz, a primeira vez. Ou quando lhe levantou a mão. Não, tinham ficado no dia em que a mão descera da ameaça, para se concretizar na primeira ferida. Nunca mais curara.

Agora estava livre. Totalmente livre. Olhou para a tia, que a segurava pelo braço e numa sacudidela libertou-se do aperto físico. Quem quiser que o faça. Todos se entreolharam. Zezinha olhou o médico com desconfiança, que saía da sala na certeza de que o seu trabalho terminara. 

Mas tu não podes fazer isso! Patrícia, tu não és uma criança. Deixa-te de parvoíces.

Patrícia, sorriu. Pois não. Sou uma adulta. E até agora, não tinha entendido o que era para fazer. Mas agora, tia, já sei. Vou ser feliz. 

Patrícia saiu da enfermaria, com a roupa por vestir, mas com um sorriso nos lábios. Quem diria que a morte lhe devolveria a vida?

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