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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 13.12.19

Desafio de escrita dos pássaros #14 - Não nasci para isto

Fatia Mor

Mia crescia formosa, com a sua candura infantil cobiçada pelos perdidos no mundo das rudezas animalescas. Crescia e logo perdeu a sua inocência às mãos brutas que não sabem tocar em porcelana. Estragou-se. Aos catorze anos, Mia crescera para a realidade de que a vida é injusta e sua mãe, crente de que o trabalho cura as agruras da alma e traz a senectude que apazigua a dor, mandou-a trabalhar para casa dos seus patrões.

Mia chegou como quem parte deste mundo para o paraíso dos tectos abobados do pé direito sem fim. O horizonte daquela adorada vida trazia a Mia a inquietude da conquista. Empertigou o peito, arrebitou o rabo redondo e na dança do dia-a-dia fez-se pavão de mil cores, sultana de um adornado jardim.

Todos a olhavam com desejo enquanto sua mãe apenas desejava que a luz se apagasse para que fosse ela a cumprir o resto dos seus deveres para com o patrão daquela casa. Certo dia, estranhou a ausência do seu dono nos lençóis de linho engomado e com a alma trespassada pela certeza de que sua filha se entregava ao seu passado, deixou-se adormecer com as lágrimas a bailarem-lhe nas pestanas negras e enroladas.

Mia cresceu, novamente, como quem cresce na certeza da infalibilidade dos seus 15 anos. Forte e determinada na inconsequência dos actos, serviu arrogância no prato, desprezo no tacto, ciúme na palavra. A mulher traída precisou de meio metro de vista, apenas, para lhe ver a altivez do pescoço esticado e mandou-a sair, com a mãe, pela porta do fundo, para que se curvasse à ombreira da porta da sua casta.

Mia gritou impropérios dignos de quem tem o orgulho ferido, magoado, pisado, fustigado pela dor. Arrastada pela sua mãe, que a sabia crescida, novamente, Mia envelheceu mais um pouco. 16 anos feitos de dor e de ambição levaram-na à polícia, para que ouvissem todos os horrores da casa de onde saíra. Chorou copiosamente cada descrição do toque vil, enfurecido do seu patrão, que com ela e contra a sua vontade, perpetrou o pecado original.

Sua mãe chorava cada mentira. Quem via, dizia-a apenas desolada. Mia voltou triunfante, de dedo em riste, arrestando tudo e todos no seu caminho, hipotecando a vida daqueles que ousaram pensar nela como um bem a possuir.

E quando o levavam, algemado, para fora de sua casa, perguntou-lhe, sondando-a: Porquê?

Mia sentou-se na poltrona da casa, com o seu lado adulto para a frente e disse-lhe friamente: Porque eu não nasci para isto.

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