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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 15.11.19

Desafio de escrita dos pássaros #10 - Já chegamos? Já chegamos?

Fatia Mor

O quarto branco e assético continha todas as lágrimas que se permitira chorar. Neste momento, não havia mais mar salgado dentro de si, nem ondas de raiva, nem tempestades de dor. A paz da resignação tinha-se instalado, ao longo daqueles longos e imensuráveis meses, divididos em tratamentos, dosagens, medicações e canções de embalar.

Um corpo, débil, ligado às máquinas mostrava um espírito que procurava desprender-se. Estava ligado à sua ínfima vida, de 9 anos, mas que o martelo da vida tinha dilatado em sabedoria. Pelo menos, Flor gostava de pensar que sim. O seu filho suspirou mais uma vez, despertando em dor.

Correu para a sua cama e deitou-se ao seu lado, envolvendo pelas costas, recostando-o no seu peito como fazia quando Pedro acordava durante a noite, com pesadelos recorrentes.

A noite acossava o quarto dando-lhe uma tonalidade azulada, relaxante. O som ritmado das máquinas melodiava aos ouvidos de quem sabe que a esperança é a última a morrer. Naquele quarto, seria a última a suspirar.

Pedro, lembras-te de que querias muito ir à feira popular? Podíamos ir lá agora. Iríamos percorrer toda aquela alameda que tu tanto gostas, com os ciprestes alinhados, apontados para o céu! Querias sempre saber porque aquelas árvores cresciam tão direitas, tão retas, e para onde apontavam. E quem as tinha posto assim, tão alinhadas, tão perfeitas. Já viste as árvores? Hoje estão tão lindas, filho, com um verde que anuncia a primavera! Os pardais esvoaçam, à procura de local para o ninho e em breve não teremos onde deixar o carro, sem que fique todo sujo. Pedro esboçou um sorriso e a melodia que ressoava entrou num andamento mais lento. Podíamos parar por lá, fazer um piquenique. Íamos ser atacados pelas formigas, mas sei que dirias que temos muito, que podemos partilhar as migalhas com elas. Mais um suspiro profundo. Pedro abriu os seus olhos amendoados, castigados de dor e quase pedindo permissão para falar, sussurrou: - Já chegámos? Já chegámos, mãe?

Já, meu filho, já chegámos. A roda gigante está toda iluminada, mesmo à tua frente. A Selva do lado esquerdo. Podíamos ir dar uma volta os dois.

Flor apertou-o mais um pouco contra o seu regaço enquanto Pedro sorria pela última vez. Já chegámos, meu filho. Descansa, que já chegámos.

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