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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 07.05.21

Desafio de escrita 3.0 - Tema 1

Foi o que ouvi

Fatia Mor

- “Como está, D. Maria?” – perguntou enquanto passava sob a alçada da janela.

- “Ai D. Laurinda, para pior antes assim… sabe como é, a idade não perdoa ninguém e as minhas 80 primaveras… Ah! Essas já ninguém mas tira!”

Não havia dia em que D. Maria não estivesse pendurada no beiral da sua janela, a auscultar as movimentações do bairro. Laurinda tentava sempre passar ao lado das inconfidências da vizinha. Mas desde o que o seu Manel se finara – Deus o tenha – que ela se divertia em trocar duas de letra, na viagem entre o pão e o apanhar do peixe na praça. Na verdade, não havia muito mais a fazer…

- “E novidades, D. Maria?” – interrogou, desinteressadamente.

- “Não sou de intrigas, sabe, mas ali no centro de dia – Deus proíba que me vá lá enfiar – chegou homem novo. Ainda não reparou na fila para o cabeleireiro? Olhe que não é só desconfinamento. Atente no que eu lhe digo… É só velhas viúvas gaiteiras.”

- “Não diga isso D. Maria, olhe que quem desdenha quer comprar!”

- “Lá agora! Aturar homens? Ai! Já me chega. Mas dizem, não sei, olhe que estou a vender como comprei, que é recheado de papel. E que os filhos estão todos orientados. Talvez… Não sei, para si, que estava habituada a ser bem tratada, não digo nada… Mas dê lá um olhinho e depois vem-me cá contar!”

Laurinda despediu-se com um aceno de cabeça e seguiu. Lá estava, a fila do cabeleireiro, a D. Gertrudes a experimentar uma moda nova no bazar lá do mercado e acabou a fazer ouvidos grandes à conversa que se travava mesmo ali, à sua frente, entre duas habituais compradoras de jaquinzinhos-para-fritar…

- “Vê tu bem, que ainda ninguém o caçou! E que rico homem que é!”

Naquele momento, por impulso, rodou nos calcanhares e desistiu de comprar o peixe. Voltou para casa por caminho obscuros, incógnita. Entrou de rompante, com energia de outrora, atirou com os sacos para o chão, voou para o armário, escolheu um vestido leve, penteou o cabelo, maquilhou os olhos tanto quanto a sua falta de vista lhe permitiu e saiu, confiante, até ao Centro de Dia.

Vi-o logo que chegou, mas manteve-se à distância. O truque seria ele querê-la e não o inverso. Não iria oferecer-se à dança, como todas as outras. Mas as horas passaram afoitas e Arlindo, anunciado a sua caminhada de fim de dia e acenando ao séquito que suspirava pelo seu fato bege, colete castanho e camisa aprumada, saiu ágil e descomprometido.

Laurinda não se conformou e seguiu-o, a pé. Fizeram curvas e contracurvas até chegarem a um motel perverso, com letras garrafais vermelhas, mal iluminado, perdido na penumbra dos limites da cidade, onde ele se fazia esperar. Laurinda olhou-o com assombro pela janela, enquanto o via afogar-se, já seminu, nos braços do Cláudio do café…

No dia seguinte, recomposta da tristeza, passou debaixo da sacada da vizinha.

- “Então D. Laurinda, tem novidades para mim?”

- “Ai D. Maria… Antes tivesse. Não sou de intrigas, mas disse-me um passarinho, que afinal o homem – e baixou a voz em tom de inconfidência – só tira bicas… com a boca!”

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