Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Dom | 22.03.15

De quem gostas mais?

Fatia Mor

"De quem é que gostas mais? Do papá ou da mamã?"

Esta questão surgiu muitas vezes na minha infância. Umas vezes com um ar de gozo associado, outras mais séria. Nunca veio de ninguém directamente implicado na questão, mas muitas vezes de familiares mais afastados, vizinhos menos sensíveis ou pessoas demasiado metidas em assuntos que não lhes diziam respeito.

Por vezes penso que os anos 80 foram um misto de exploração e experimentação psicológica, da área de desenvolvimento infantil, porque não foram poucas as vezes em que ouvi este atentado contra a sanidade mental de qualquer criança. 

Apesar de ser uma questão perturbadora, para mim nunca teve qualquer conotação negativa. Eu vivia apenas com a minha mãe e como tal nunca me causou dor ou desconforto optar claramente por um genitor nas minhas preferências. Com o crescimento apercebi-me que a vida era feita de polaridades no campo do gostar: havia a "melhor amiga" que necessariamente gostávamos mais do que todas as outras; o melhor colega que evidentemente era mais simpático e solícito do que os outros; as paixonetas por quem nutria mais afeição do que em relação aos demais rapazes... Portanto, a vida era efectivamente feita de preferências. 

E hoje pus-me a pensar... E os filhos? Será que gostamos mais de um filho do que outro? 

A ideia, por si só, é um tremendo tabu que os pais de filhos únicos não têm com que se debater. São uns abençoados, confesso, porque morro de medo de demonstrar, acidentalmente, preferências entre as minhas duas fatias. Aliás, morro de medo que um dia goste mais de uma do que de outra.

"A Escolha de Sofia", soberbamente interpretado pela Meryl Streep condensava na sua trama muito bem isto. Como optar por um dos filhos? Como claramente evidenciar uma preferência?

A situação revolta-me enquanto mãe, porque reconheço que é inevitável que haja uma preferência, assim como filha por pensar em que em dado momento alguém poderia gostar mais de outro filho do que de mim.

Sei que ter mais do que um filho é uma multiplicação do amor. Não deixamos de amar um filho para passar a amar outro! Mas cada um tem as suas particularidades, o seu feitio, a sua forma de ser e de estar que pode ser mais ou menos compatível com as nossas próprias particularidades, feitio e forma de estar. A afinidade dita tudo no estabelecimento de laços entre dois seres, aparentados ou não. E parece-me que nos filhos não será diferente, na medida em que desde cedo eles reagem de forma distinta a situações idênticas, levando a uma maior ou menor afinidade connosco.

Uma coisa é certa e assumo sem pudores: gosto mais de mim enquanto mãe da Fatia#2 do que da Fatia#1. A inexperiência, os receios e a ilusão ridícula de grandeza, provocada pela insegurança existente num primeiro filho, são devastantes! A Fatia#2 ajudou-me a ultrapassar algumas dessas questões e fez-me gostar mais... de mim, pelo menos! E é inevitável que isso se reflicta na relação que tenho com elas. 

Mas se a vida me demonstra que há preferências, também me mostra que estas evoluem. Somos capazes de abandadonar as mais extremadas afeições para as substituir puerilmente por outras. Amamos muitos os que nos rodeiam, uns dias um pouco mais, mas também, por vezes, um pouco menos!

Quero acreditar que com os filhos será igual... Que ao longo da vida, uma variação saudável, fará com que cheguemos ao fim em pé de igualdade; que os dias em que estamos mais amáveis compensarão largarmente os dias de menor amabilidade.

Não obstante, sofrerei sempre com a questão: 

"E tu, gostas mais de um filho do que de outro?"

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.