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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qua | 24.06.20

Aprender a estar triste

Fatia Mor

Se perguntássemos aos nossos bisavós ou trisavós o que pensavam da tristeza, diriam que faz parte da vida.

A preocupação com o bem-estar é muito mais recente do que poderíamos equacionar, nós que vivemos num lado do mundo que nos dá uma falsa sensação de segurança, de bem-estar garantido, de felicidade sempre ao virar da esquina.

As adversidades que outras gerações estavam expostas, conduziam a um aceitar conformista de que a vida era uma sucessão de acontecimentos mais ou menos felizes e, se desejávamos sempre o melhor, também havia a noção de que "não há casa onde o sol não entre" ou "não há mal que sempre dure, nem bem que para sempre perdure".

No entanto, uma corrente de pensamento, focada no bem-estar individual cresceu. Ganhou forças e adeptos à medida que, muito em fruto do contexto, indivíduos se destacaram atribuindo o sucesso às suas capacidades. Não há mal em que tal aconteça, mas deve existir a consciência de que não podemos ser tudo o que desejarmos, nem ter tudo o que quisermos. É que o reverso de atribuirmos os sucessos às nossas capacidades, únicas, é precisamente o sofrimento de nos acharmos no foco de todo o fracasso, mesmo quando outras forças concorrem para isso.

Nesta corrente, acreditamos que podemos ser felizes. A mudança do paradigma é boa. Predispõe-nos ao pensamento optimista. No entanto, não podemos ser felizes sempre. Mas a sociedade começou a exigir-nos isso.

Temos que estar sempre bem. Temos de perseguir sempre a felicidade e temos de a mostrar ao mundo.

A felicidade passou de ser um estado transitório interno, do domínio do ser, para passar a ser um acessório do domínio do ter. 

Esta inversão foi perigosa. Os infelizes passaram a ser ostracizados. E sob pena de o sermos, passamos a esconder as nossas tristezas. Os momentos menos bons.

Claro que ninguém tem nada a ver com a nossa vida, mas a capacidade de lidarmos de forma ajustada com as nossas emoções é a chave para atingirmos o equilíbrio.;  que não tem necessariamente de ser sempre feliz. O equilíbrio é ter em nós os recursos adequados para lidar com as demais adversidades. Não é ser feliz.

É importante termos dias menos bons, é importante termos momentos em que estamos aborrecidos, em que estamos fartos. São estes desconfortos que nos permitem motivar-nos, que nos impelem a mover. Mas ter de lidar com a aparente e completa felicidade que surge por todo o lado pode ser tão nefasto quanto é mascararmos a nossa infelicidade para não destoarmos da norma.

E por isso, descontentamo-nos com as dificuldade e partimos para o próximo objetivo, por motivos que não os corretos. Rapidamente, encontramos defeitos que nos causam aborrecimento e não sabemos como lidar com eles. Seguimos o nosso caminho até que um dia percebemos que estamos numa busca sem sentido, sem direção, a mudar sempre que um espinho salta ao caminho. 

Não quero generalizar; há pessoas altamente motivadas, pelos motivos certos e outras pelos errados, e são ambas bem sucedidas. Mas quantos casos são estes? A verdade é que não podemos ter todos o mesmo corpo de sonho, viajar a cada 3 meses, trocar de carro a cada 4 anos. Nem todos podem ser os mais belos, ou os mais inteligentes. Não podemos ser os melhores porque, mesmo sendo, rapidamente a natureza tratará de nos mostrar que somos obsoletos. 

E não há mal nenhum nisso. O fracasso, a frustração, a tristeza fazem parte da vida (assim como a senectude, por exemplo, e da qual fugimos a sete pés). O problema está em negarmos isso. O problema está em convencermos os jovens de que conseguirão tudo o que querem, se puserem tudo o que têm, sabendo que tudo o que temos poderá não ser o suficiente. O problema está em fazermos os outros acreditar que a felicidade é roupa que se veste e se mostra. E que a tristeza é como a culpa, que ninguém a quer.

Ensinemos as nossas crianças a estarem tristes. Deixemo-las chorar. Bufarem porque nada têm para fazer. Deixemo-las contactarem com o seu pior lado e com eles analisar o que sentem, porque o sentem, e deixar sentir. O medo, a tristeza, a raiva, são tudo emoções que nos garantiram as competências socioemocionais que usamos hoje, em sociedade.

É que conhecê-las em nós significa que seremos capazes de as ver nos outros.

É que lidar com elas em nós, significa que saberemos o que fazer quando as virmos nos outros.

É que lidar com as emoções dos outros assim, significa sentir empatia, entender o sofrimento e agir perante o mesmo.

E a empatia é que faz de nós humanos.

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