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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 21.05.21

Desafio de escrita 3.0 - Tema 2

Afinal havia outro... Fogão.

Fatia Mor

Assim que colocou a chave à porta sentiu um arrepio pela espinha. O seu sexto-sentido sempre fora apurado e raramente o deixava ficar mal. Ainda hesitou e pensou em recuar. Mas outros valores se levantavam e, a contragosto, arrepiado e a benzer-se, rodou a chave da forma mais silenciosa que conseguiu. A porta rangeu ligeiramente, deixando entrever a luz que brotava do lado de dentro. O corredor estava todo iluminado e havia roupa espalhada por todos os cantos, sem cerimónia ou pudor. Quem a envergasse antes, estava agora seguramente nu e sem qualquer hipótese de fugir à vergonha. Empurrou a porta com cuidado e transpôs a ombreira, sempre a olhar por cima do seu ombro, imaginando os ombros nus ao ver um soutien e camisolas mesmo aos seus pés. Um gato surgiu vindo da sala à direita e olhou-o, penetrante. Poderia ser um cão e não teria o mesmo impacto. Um gato preto, retinto, como aquele, era mau augúrio e noutros tempos serviria de desculpa para rodar nos calcanhares e retornar, por onde havia vindo. Um miado arrancou-o à crença supersticiosa. Pior seria que agora o ouvissem. Não só confirmava a sua crença, de que os gatos eram realmente fontes de azar, como teria que resolver outro problema, da pior maneira possível. 

Um pequeno grito abafado ouviu-se pela casa. O ato estava consumado, ao menos, unilateralmente. Pela sua experiência, restava-lhe agora pouco tempo. Deu dois passos na direção do gato, que já estava em andamento, pressentindo que em breve haveria mais companhia. Não tardaria até que os respetivos donos de todas aquelas inertes peças de roupa estivessem de volta para as resgatar. Virou à esquerda, para a divisão mais escura, na esperança de não ser notado.

O gato resolveu enrolar-se nas pernas e miar com mais intensidade. Tentou enxotá-lo, fazendo um "shhh" baixinho, enquanto o empurrava. O gato tentava, com vigor, fazer oitos entre as suas pernas, ao ponto de o desequilibrar.

A verdade é que se, agora, tentasse recordar-se do que aconteceu, não seria fácil dar sentido à sequência de eventos. Os passos no corredor alertaram-no. Ou talvez tenha sido o miado agudo do gato, quando lhe pisou a pata, na tentativa vã do afastar, que criou a loucura imensa em que se viu enfiado. Facto foi, que ao pisar o gato este miou, espetou a garras, alguém gritou - ou terá sido ele? - passos ouviram-se no corredor, a precipitarem-se para a roupa - ou na sua direção? - até que se desequilibrou, acertou no interruptor, acendeu uma luz perfulgente e ali estavam todos: ele e ela nus, um gato a lamber a pata e ele, agarrado aos bicos de um fogão.

- Só queria dizer-lhes... - disse-lhes, enquanto tentava disfarçar a sua falta de jeito - que afinal havia outro.... - hesitou, olhou em todas as direções e disparou, - fogão!

Os corpos inertes caíram no chão, ao som de duas balas fulminantes e ele continuou, com o seu impulso obsessivo de quem não pode deixar uma ideia a meio: - Havia outro fogão, e eu gostaria muito que o vissem!

Sex | 07.05.21

Desafio de escrita 3.0 - Tema 1

Foi o que ouvi

Fatia Mor

- “Como está, D. Maria?” – perguntou enquanto passava sob a alçada da janela.

- “Ai D. Laurinda, para pior antes assim… sabe como é, a idade não perdoa ninguém e as minhas 80 primaveras… Ah! Essas já ninguém mas tira!”

Não havia dia em que D. Maria não estivesse pendurada no beiral da sua janela, a auscultar as movimentações do bairro. Laurinda tentava sempre passar ao lado das inconfidências da vizinha. Mas desde o que o seu Manel se finara – Deus o tenha – que ela se divertia em trocar duas de letra, na viagem entre o pão e o apanhar do peixe na praça. Na verdade, não havia muito mais a fazer…

- “E novidades, D. Maria?” – interrogou, desinteressadamente.

- “Não sou de intrigas, sabe, mas ali no centro de dia – Deus proíba que me vá lá enfiar – chegou homem novo. Ainda não reparou na fila para o cabeleireiro? Olhe que não é só desconfinamento. Atente no que eu lhe digo… É só velhas viúvas gaiteiras.”

- “Não diga isso D. Maria, olhe que quem desdenha quer comprar!”

- “Lá agora! Aturar homens? Ai! Já me chega. Mas dizem, não sei, olhe que estou a vender como comprei, que é recheado de papel. E que os filhos estão todos orientados. Talvez… Não sei, para si, que estava habituada a ser bem tratada, não digo nada… Mas dê lá um olhinho e depois vem-me cá contar!”

Laurinda despediu-se com um aceno de cabeça e seguiu. Lá estava, a fila do cabeleireiro, a D. Gertrudes a experimentar uma moda nova no bazar lá do mercado e acabou a fazer ouvidos grandes à conversa que se travava mesmo ali, à sua frente, entre duas habituais compradoras de jaquinzinhos-para-fritar…

- “Vê tu bem, que ainda ninguém o caçou! E que rico homem que é!”

Naquele momento, por impulso, rodou nos calcanhares e desistiu de comprar o peixe. Voltou para casa por caminho obscuros, incógnita. Entrou de rompante, com energia de outrora, atirou com os sacos para o chão, voou para o armário, escolheu um vestido leve, penteou o cabelo, maquilhou os olhos tanto quanto a sua falta de vista lhe permitiu e saiu, confiante, até ao Centro de Dia.

Vi-o logo que chegou, mas manteve-se à distância. O truque seria ele querê-la e não o inverso. Não iria oferecer-se à dança, como todas as outras. Mas as horas passaram afoitas e Arlindo, anunciado a sua caminhada de fim de dia e acenando ao séquito que suspirava pelo seu fato bege, colete castanho e camisa aprumada, saiu ágil e descomprometido.

Laurinda não se conformou e seguiu-o, a pé. Fizeram curvas e contracurvas até chegarem a um motel perverso, com letras garrafais vermelhas, mal iluminado, perdido na penumbra dos limites da cidade, onde ele se fazia esperar. Laurinda olhou-o com assombro pela janela, enquanto o via afogar-se, já seminu, nos braços do Cláudio do café…

No dia seguinte, recomposta da tristeza, passou debaixo da sacada da vizinha.

- “Então D. Laurinda, tem novidades para mim?”

- “Ai D. Maria… Antes tivesse. Não sou de intrigas, mas disse-me um passarinho, que afinal o homem – e baixou a voz em tom de inconfidência – só tira bicas… com a boca!”