Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Ter | 23.02.21

Qu'que tens feito?

26/2021

Fatia Mor

Tra-ba-lha-do. Até à exaustão. Até me parecer que fico ativada do cansaço, ao ponto de não conseguir dormir em condições. Tenho tentado brotar de mim o que tenho (e o que não tenho), com a avassaladora sensação que os dias decorrem no carril de um TGV.

Mais uma vez, este confinamento só me vem mostrar que não precisamos de ir ao local de trabalho para "render". Sou muito mais produtiva sem a deslocação (mesmo que pequena), sem as distrações constantes dos colegas, sem as interrupções anómalas das pessoas que entram no gabinete, que telefonam. Não tenho de esperar no bar por um café, não preciso de descer escadas ou atravessar corredores para tratar das minhas "coisas". 

Sou, inegavelmente, superiormente, mais produtiva em casa.

Mas falta o resto. Falta o "bom dia, como é que isso vai?". Falta a conversa na fila enquanto esperamos por ser atendidos. Faltam os almoços com os colegas, mesmo que seja apenas para ser falar de trabalho. Faltam as gargalhadas logo aqui ao lado. Faltam os dedos de conversa que nos equilibram na nossa humanidade. É fácil esquecermos que o outro existe, que tem necessidades, que precisa de nós quando não nos olhamos nos olhos para os ver. Realmente ver. 

Falta o resto... mas o resto é muito!

Seg | 15.02.21

O negro em mim

25/2021

Fatia Mor

Trago um nó na garganta de tanto não chorar. A agonia é física. Sinto-me deslocada do mundo, mesmo que seja o mundo a deslocar-se de mim e não o contrário.

Mexer em nós nunca é fácil e propus-me a isso há umas semanas. Não sei se aderi demasiado bem ao processo terapêutico, se simplesmente isto me deu o mote para deixar tudo aflorar.

Olho para a minha vida e para tudo o que alcancei com um misto ambivalente: por um lado, acho que não mereço mais do que os que me cercam e que tenho mais do que me é devido. Sou uma afortunada. Mas depois, sinto que sou uma afortunada medíocre, que não faz nada de bem. Nada do que alcanço é verdadeiro, memorável, notável. Quero sê-lo, mas não quero fazer o doloroso caminho para lá chegar. Quero ser, mas não quero reconhecer que não tenho em mim qualquer centelha de especial, de único que mereça destaque. Tenho o que não me é devido; não tenho qualquer valor. Sou uma impostora. 

Síndrome do impostor. Minto-me todos os dias, quando me olho ao espelho e tento ver as qualidades que não possuo. Não sou boa pessoa, não sou boa amiga, não sou boa mãe, não sou boa profissional. Não sou boa. Ponto. E chega.

E o pensamento gira-me no estômago, provoca-me a indigestão, faz-me comer sem prazer, com dor. 

Não quero ser assim... mas sou... E agora, onde ficou eu, perdida neste conceito desfeito de mim? Como me erguer deste chão de pedra frio, que me tolhe as mãos, que me constrange o movimento, que me engole, lenta e pesadamente?

Ponho tudo cá fora ou engulo-me, outra vez, retornando à paz aparente?

Talvez este não seja o espaço para isto, mas preciso de colocar isto no mundo sob pena de implodir.

 

Dom | 07.02.21

Ensino à distância

24/2021

Fatia Mor

Amanhã começa - novamente - o ensino à distância.

Não faço parte do grupo que vaticina a total perda do rendimento e capacidade dos alunos, devido a esta modalidade. Mas também não sou da equipa do nada vai acontecer. 

A verdade, como sempre, é idiossincrática. Se para uns, este revés pandémico em nada vai alterar a sua aprendizagem, desinteresse, falta de rendimento e eventualmente o abandono escolar, para outros será o afastar-se (mais uma vez) da escola, que terá repercussões futuras (e no seu futuro).

A igualdade, a paridade, o equilíbrio, seja lá qual for a dimensão, é difícil de atingir quando os pontos de partida são tão distintos, quando as realidades são tão opostas.

E mais uma vez, serão os professores e educadores deste país os nossos heróis. Ensinar à distância é uma distopia. Mas ainda assim, eles conseguem. Conseguem que os alunos aprendam, que se interessem. Conseguem ter a criatividade para criar conteúdos online, para modificar estratégias de ensino, para darem aulas enquanto, eles próprios, acompanham as aulas dos seus. 

Reconheçamos que esta pandemia veio transtornar-nos enquanto nos obriga a superar-nos. Um bem-haja a todos os professores que amanhã começam um novo nível deste enorme jogo educativo. Quanto a nós, vamos fazer de tudo para ganhar esta etapa.

Porque, no fim, até acredito que nem tudo estará perdido!

Força!